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CARTA ENCÍCLICA
LUMEN FIDEI
DO SUMO PONTÍFICE
FRANCISCO

AOS BISPOS
AOS PRESBÍTEROS E AOS DIÁCONOS
ÀS PESSOAS CONSAGRADAS
E A TODOS OS FIÉIS LEIGOS

SOBRE A FÉ

1. A luz da fé é a expressão com que a tradição da Igreja designou o grande dom trazido por Jesus. Eis como Ele Se nos apresenta, no Evangelho de João: « Eu vim ao mundo como luz, para que todo o que crê em Mim não fique nas trevas » (Jo 12, 46). E São Paulo exprime-se nestes termos: « Porque o Deus que disse: `das trevas brilhe a luz`, foi quem brilhou nos nossos corações » (2 Cor 4, 6). No mundo pagão, com fome de luz, tinha-se desenvolvido o culto do deus Sol, Sol invictus, invocado na sua aurora. Embora o sol renascesse cada dia, facilmente se percebia que era incapaz de irradiar a sua luz sobre toda a existência do homem. De facto, o sol não ilumina toda a realidade, sendo os seus raios incapazes de chegar até às sombras da morte, onde a vista humana se fecha para a sua luz. Aliás « nunca se viu ninguém — afirma o mártir São Justino — pronto a morrer pela sua fé no sol ».[1] Conscientes do amplo horizonte que a fé lhes abria, os cristãos chamaram a Cristo o verdadeiro Sol, « cujos raios dão a vida ».[2] A Marta, em lágrimas pela morte do irmão Lázaro, Jesus diz-lhe: « Eu não te disse que, se acreditares, verás a glória de Deus? » (Jo 11, 40). Quem acredita, vê; vê com uma luz que ilumina todo o percurso da estrada, porque nos vem de Cristo ressuscitado, estrela da manhã que não tem ocaso.

Uma luz ilusória?

2. E contudo podemos ouvir a objecção que se levanta de muitos dos nossos contemporâneos, quando se lhes fala desta luz da fé. Nos tempos modernos, pensou-se que tal luz poderia ter sido suficiente para as sociedades antigas, mas não servia para os novos tempos, para o homem tornado adulto, orgulhoso da sua razão, desejoso de explorar de forma nova o futuro. Nesta perspectiva, a fé aparecia como uma luz ilusória, que impedia o homem de cultivar a ousadia do saber. O jovem Nietzsche convidava a irmã Elisabeth a arriscar, percorrendo vias novas (…), na incerteza de proceder de forma autónoma ». E acrescentava: « Neste ponto, separam-se os caminhos da humanidade: se queres alcançar a paz da alma e a felicidade, contenta-te com a fé; mas, se queres ser uma discípula da verdade, então investiga ».[3] O crer opor-se-ia ao indagar. Partindo daqui, Nietzsche desenvolverá a sua crítica ao cristianismo por ter diminuído o alcance da existência humana, espoliando a vida de novidade e aventura. Neste caso, a fé seria uma espécie de ilusão de luz, que impede o nosso caminho de homens livres rumo ao amanhã.

3. Por este caminho, a fé acabou por ser associada com a escuridão. E, a fim de conviver com a luz da razão, pensou-se na possibilidade de a conservar, de lhe encontrar um espaço: o espaço para a fé abria-se onde a razão não podia iluminar, onde o homem já não podia ter certezas. Deste modo, a fé foi entendida como um salto no vazio, que fazemos por falta de luz e impelidos por um sentimento cego, ou como uma luz subjectiva, talvez capaz de aquecer o coração e consolar pessoalmente, mas impossível de ser proposta aos outros como luz objectiva e comum para iluminar o caminho. Entretanto, pouco a pouco, foi-se vendo que a luz da razão autónoma não consegue iluminar suficientemente o futuro; este, no fim de contas, permanece na sua obscuridade e deixa o homem no temor do desconhecido. E, assim, o homem renunciou à busca de uma luz grande, de uma verdade grande, para se contentar com pequenas luzes que iluminam por breves instantes, mas são incapazes de desvendar a estrada. Quando falta a luz, tudo se torna confuso: é impossível distinguir o bem do mal, diferenciar a estrada que conduz à meta daquela que nos faz girar repetidamente em círculo, sem direcção.

Uma luz a redescobrir

4. Por isso, urge recuperar o carácter de luz que é próprio da fé, pois, quando a sua chama se apaga, todas as outras luzes acabam também por perder o seu vigor. De facto, a luz da fé possui um carácter singular, sendo capaz de iluminar toda a existência do homem. Ora, para que uma luz seja tão poderosa, não pode dimanar de nós mesmos; tem de vir de uma fonte mais originária, deve porvir em última análise de Deus. A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e se nos abre a visão do futuro. A fé, que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo. Por um lado, provém do passado: é a luz duma memória basilar — a da vida de Jesus –, onde o seu amor se manifestou plenamente fiável, capaz de vencer a morte. Mas, por outro lado e ao mesmo tempo, dado que Cristo ressuscitou e nos atrai de além da morte, a fé é luz que vem do futuro, que descerra diante de nós horizontes grandes e nos leva a ultrapassar o nosso « eu » isolado abrindo-o à amplitude da comunhão. Deste modo, compreendemos que a fé não mora na escuridão, mas é uma luz para as nossas trevas. Dante, na Divina Comédia, depois de ter confessado diante de São Pedro a sua fé, descreve-a como uma « centelha / que se expande depois em viva chama / e, como estrela no céu, em mim cintila ». [4] É precisamente desta luz da fé que quero falar, desejando que cresça a fim de iluminar o presente até se tornar estrela que mostra os horizontes do nosso caminho, num tempo em que o homem vive particularmente carecido de luz.

5. Antes da sua paixão, o Senhor assegurava a Pedro: « Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça » (Lc 22, 32). Depois pediu-lhe para « confirmar os irmãos » na mesma fé. Consciente da tarefa confiada ao Sucessor de Pedro, Bento XVI quis proclamar este Ano da Fé, um tempo de graça que nos tem ajudado a sentir a grande alegria de crer, a reavivar a percepção da amplitude de horizontes que a fé descerra, para a confessar na sua unidade e integridade, fiéis à memória do Senhor, sustentados pela sua presença e pela acção do Espírito Santo. A convicção duma fé que faz grande e plena a vida, centrada em Cristo e na força da sua graça, animava a missão dos primeiros cristãos. Nas Actas dos Mártires, lemos este diálogo entre o prefeito romano Rústico e o cristão Hierax: « Onde estão os teus pais? » — perguntava o juiz ao mártir; este respondeu: « O nosso verdadeiro pai é Cristo, e nossa mãe a fé n’Ele ».[5] Para aqueles cristãos, a fé, enquanto encontro com o Deus vivo que Se manifestou em Cristo, era uma « mãe », porque os fazia vir à luz, gerava neles a vida divina, uma nova experiência, uma visão luminosa da existência, pela qual estavam prontos a dar testemunho público até ao fim.

6. O Ano da Fé teve início no cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II. Esta coincidência permite-nos ver que o mesmo foi um Concílio sobre a fé,[6] por nos ter convidado a repor, no centro da nossa vida eclesial e pessoal, o primado de Deus em Cristo. Na verdade, a Igreja nunca dá por descontada a fé, pois sabe que este dom de Deus deve ser nutrido e revigorado sem cessar para continuar a orientar o caminho dela. O Concílio Vaticano II fez brilhar a fé no âmbito da experiência humana, percorrendo assim os caminhos do homem contemporâneo. Desta forma, se viu como a fé enriquece a existência humana em todas as suas dimensões.

7. Estas considerações sobre a fé — em continuidade com tudo o que o magistério da Igreja pronunciou acerca desta virtude teologal [7] — pretendem juntar-se a tudo aquilo que Bento XVI escreveu nas cartas encíclicas sobre a caridade e a esperança. Ele já tinha quase concluído um primeiro esboço desta carta encíclica sobre a fé. Estou-lhe profundamente agradecido e, na fraternidade de Cristo, assumo o seu precioso trabalho, limitando-me a acrescentar ao texto qualquer nova contribuição. De facto, o Sucessor de Pedro, ontem, hoje e amanhã, sempre está chamado a « confirmar os irmãos » no tesouro incomensurável da fé que Deus dá a cada homem como luz para o seu caminho.

Na fé, dom de Deus e virtude sobrenatural por Ele infundida, reconhecemos que um grande Amor nos foi oferecido, que uma Palavra estupenda nos foi dirigida: acolhendo esta Palavra que é Jesus Cristo — Palavra encarnada –, o Espírito Santo transforma-nos, ilumina o caminho do futuro e faz crescer em nós as asas da esperança para o percorrermos com alegria. Fé, esperança e caridade constituem, numa interligação admirável, o dinamismo da vida cristã rumo à plena comunhão com Deus. Mas, como é este caminho que a fé desvenda diante de nós? Donde provém a sua luz, tão poderosa que permite iluminar o caminho duma vida bem sucedida e fecunda, cheia de fruto?

CAPÍTULO I

ACREDITÁMOS NO AMOR
(cf. 1 Jo 4, 16)

Abraão, nosso pai na fé

8. A fé desvenda-nos o caminho e acompanha os nossos passos na história. Por isso, se quisermos compreender o que é a fé, temos de explanar o seu percurso, o caminho dos homens crentes, com os primeiros testemunhos já no Antigo Testamento. Um posto singular ocupa Abraão, nosso pai na fé. Na sua vida, acontece um facto impressionante: Deus dirige-lhe a Palavra, revela-Se como um Deus que fala e o chama por nome. A fé está ligada à escuta. Abraão não vê Deus, mas ouve a sua voz. Deste modo, a fé assume um carácter pessoal: o Senhor não é o Deus de um lugar, nem mesmo o Deus vinculado a um tempo sagrado específico, mas o Deus de uma pessoa, concretamente o Deus de Abraão, Isaac e Jacob, capaz de entrar em contacto com o homem e estabelecer com ele uma aliança. A fé é a resposta a uma Palavra que interpela pessoalmente, a um Tu que nos chama por nome.

9. Esta Palavra comunica a Abraão uma chamada e uma promessa. Contém, antes de tudo, uma chamada a sair da própria terra, convite a abrir-se a uma vida nova, início de um êxodo que o encaminha para um futuro inesperado. A perspectiva, que a fé vai proporcionar a Abraão, estará sempre ligada com este passo em frente que ele deve realizar: a fé « vê » na medida em que caminha, em que entra no espaço aberto pela Palavra de Deus. Mas tal Palavra contém ainda uma promessa: a tua descendência será numerosa, serás pai de um grande povo (cf. Gn 13, 16; 15, 5; 22, 17). É verdade que a fé de Abraão, enquanto resposta a uma Palavra que a precede, será sempre um acto de memória; contudo esta memória não o fixa no passado, porque, sendo memória de uma promessa, se torna capaz de abrir ao futuro, de iluminar os passos ao longo do caminho. Assim se vê como a fé, enquanto memória do futuro, está intimamente ligada com a esperança.

10. A Abraão pede-se para se confiar a esta Palavra. A fé compreende que a palavra — uma realidade aparentemente efémera e passageira —, quando é pronunciada pelo Deus fiel, torna-se no que de mais seguro e inabalável possa haver, possibilitando a continuidade do nosso caminho no tempo. A fé acolhe esta Palavra como rocha segura, sobre a qual se pode construir com alicerces firmes. Por isso, na Bíblia hebraica, a fé é indicada pela palavra ‘emûnah, que deriva do verbo ‘amàn, cuja raiz significa « sustentar ». O termo ‘emûnah tanto pode significar a fidelidade de Deus como a fé do homem. O homem fiel recebe a sua força do confiar-se nas mãos do Deus fiel. Jogando com dois significados da palavra — presentes tanto no termo grego pistós como no correspondente latino fidelis –, São Cirilo de Jerusalém exaltará a dignidade do cristão, que recebe o mesmo nome de Deus: ambos são chamados « fiéis ».[8] E Santo Agostinho explica-o assim: « O homem fiel é aquele que crê no Deus que promete; o Deus fiel é aquele que concede o que prometeu ao homem ».[9]

11. Há ainda um aspecto da história de Abraão que é importante para se compreender a sua fé. A Palavra de Deus, embora traga consigo novidade e surpresa, não é de forma alguma alheia à experiência do Patriarca. Na voz que se lhe dirige, Abraão reconhece um apelo profundo, desde sempre inscrito no mais íntimo do seu ser. Deus associa a sua promessa com aquele « ponto » onde desde sempre a existência do homem se mostra promissora, ou seja, a paternidade, a geração duma nova vida: « Sara, tua mulher, dar-te-á um filho, a quem hás-de chamar Isaac » (Gn 17, 19). O mesmo Deus que pede a Abraão para se confiar totalmente a Ele, revela-Se como a fonte donde provém toda a vida. Desta forma, a fé une-se com a Paternidade de Deus, da qual brota a criação: o Deus que chama Abraão é o Deus criador, aquele que « chama à existência o que não existe » (Rm 4, 17), aquele que, « antes da fundação do mundo, (...) nos predestinou para sermos adoptados como seus filhos » (Ef 1, 4-5). No caso de Abraão, a fé em Deus ilumina as raízes mais profundas do seu ser: permite-lhe reconhecer a fonte de bondade que está na origem de todas as coisas, e confirmar que a sua vida não deriva do nada nem do acaso, mas de uma chamada e um amor pessoais. O Deus misterioso que o chamou não é um Deus estranho, mas a origem de tudo e que tudo sustenta. A grande prova da fé de Abraão, o sacrifício do filho Isaac, manifestará até que ponto este amor originador é capaz de garantir a vida mesmo para além da morte. A Palavra que foi capaz de suscitar um filho no seu corpo « já sem vida (…), como sem vida estava o seio » de Sara estéril (Rm 4, 19), também será capaz de garantir a promessa de um futuro para além de qualquer ameaça ou perigo (cf. Heb 11, 19; Rm 4, 21).

A fé de Israel

12. A história do povo de Israel, no livro do Êxodo, continua na esteira da fé de Abraão. De novo, a fé nasce de um dom originador: Israel abre-se à acção de Deus, que quer libertá-lo da sua miséria. A fé é chamada a um longo caminho, para poder adorar o Senhor no Sinai e herdar uma terra prometida. O amor divino possui os traços de um pai que conduz seu filho pelo caminho (cf. Dt 1, 31). A confissão de fé de Israel desenrola-se como uma narração dos benefícios de Deus, da sua acção para libertar e conduzir o povo (cf. Dt 26, 5-11); narração esta, que o povo transmite de geração em geração. A luz de Deus brilha para Israel, através da comemoração dos factos realizados pelo Senhor, recordados e confessados no culto, transmitidos pelos pais aos filhos. Deste modo aprendemos que a luz trazida pela fé está ligada com a narração concreta da vida, com a grata lembrança dos benefícios de Deus e com o progressivo cumprimento das suas promessas. A arquitectura gótica exprimiu-o muito bem: nas grandes catedrais, a luz chega do céu através dos vitrais onde está representada a história sagrada. A luz de Deus vem-nos através da narração da sua revelação e, assim, é capaz de iluminar o nosso caminho no tempo, recordando os benefícios divinos e mostrando como se cumprem as suas promessas.

13. A história de Israel mostra-nos ainda a tentação da incredulidade, em que o povo caiu várias vezes. Aparece aqui o contrário da fé: a idolatria. Enquanto Moisés fala com Deus no Sinai, o povo não suporta o mistério do rosto divino escondido, não suporta o tempo de espera. Por sua natureza, a fé pede para se renunciar à posse imediata que a visão parece oferecer; é um convite para se abrir à fonte da luz, respeitando o mistério próprio de um Rosto que pretende revelar-se de forma pessoal e no momento oportuno. Martin Buber citava esta definição da idolatria, dada pelo rabino de Kock: há idolatria, « quando um rosto se dirige reverente a um rosto que não é rosto ».[10] Em vez da fé em Deus, prefere-se adorar o ídolo, cujo rosto se pode fixar e cuja origem é conhecida, porque foi feito por nós. Diante do ídolo, não se corre o risco de uma possível chamada que nos faça sair das próprias seguranças, porque os ídolos « têm boca, mas não falam » (Sal 115, 5). Compreende-se assim que o ídolo é um pretexto para se colocar a si mesmo no centro da realidade, na adoração da obra das próprias mãos. Perdida a orientação fundamental que dá unidade à sua existência, o homem dispersa-se na multiplicidade dos seus desejos; negando-se a esperar o tempo da promessa, desintegra-se nos mil instantes da sua história. Por isso, a idolatria é sempre politeísmo, movimento sem meta de um senhor para outro. A idolatria não oferece um caminho, mas uma multiplicidade de veredas que não conduzem a uma meta certa, antes se configuram como um labirinto. Quem não quer confiar-se a Deus, deve ouvir as vozes dos muitos ídolos que lhe gritam: « Confia-te a mim! » A fé, enquanto ligada à conversão, é o contrário da idolatria: é separação dos ídolos para voltar ao Deus vivo, através de um encontro pessoal. Acreditar significa confiar-se a um amor misericordioso que sempre acolhe e perdoa, que sustenta e guia a existência, que se mostra poderoso na sua capacidade de endireitar os desvios da nossa história. A fé consiste na disponibilidade a deixar-se incessantemente transformar pela chamada de Deus. Paradoxalmente, neste voltar-se continuamente para o Senhor, o homem encontra uma estrada segura que o liberta do movimento dispersivo a que o sujeitam os ídolos.

14. Na fé de Israel, sobressai também a figura de Moisés, o mediador. O povo não pode ver o rosto de Deus; é Moisés que fala com Jahvé na montanha e comunica a todos a vontade do Senhor. Com esta presença do mediador, Israel aprendeu a caminhar unido. O acto de fé do indivíduo insere-se numa comunidade, no « nós » comum do povo, que, na fé, é como um só homem: « o meu filho primogénito », assim Deus designará todo o Israel (cf. Ex 4, 22). Aqui a mediação não se torna um obstáculo, mas uma abertura: no encontro com os outros, o olhar abre-se para uma verdade maior que nós mesmos. Jean Jacques Rousseau lamentava-se por não poder ver Deus pessoalmente: « Quantos homens entre mim e Deus! » [11] « Será assim tão simples e natural que Deus tenha ido ter com Moisés para falar a Jean Jacques Rousseau? »[12] A partir de uma concepção individualista e limitada do conhecimento é impossível compreender o sentido da mediação: esta capacidade de participar na visão do outro, saber compartilhado que é o conhecimento próprio do amor. A fé é um dom gratuito de Deus, que exige a humildade e a coragem de fiar-se e entregar-se para ver o caminho luminoso do encontro entre Deus e os homens, a história da salvação.

A plenitude da fé cristã

15. « Abraão (...) exultou pensando em ver o meu dia; viu-o e ficou feliz » (Jo 8, 56). De acordo com estas palavras de Jesus, a fé de Abraão estava orientada para Ele, de certo modo era visão antecipada do seu mistério. Assim o entende Santo Agostinho, quando afirma que os Patriarcas se salvaram pela fé; não fé em Cristo já chegado, mas fé em Cristo que havia de vir, fé proclive para o evento futuro de Jesus.[13] A fé cristã está centrada em Cristo; é confissão de que Jesus é o Senhor e que Deus O ressuscitou de entre os mortos (cf. Rm 10, 9). Todas as linhas do Antigo Testamento se concentram em Cristo: Ele torna-Se o « sim » definitivo a todas as promessas, fundamento último do nosso « Amen » a Deus (cf. 2 Cor 1, 20). A história de Jesus é a manifestação plena da fiabilidade de Deus. Se Israel recordava os grandes actos de amor de Deus, que formavam o centro da sua confissão e abriam o horizonte da sua fé, agora a vida de Jesus aparece como o lugar da intervenção definitiva de Deus, a suprema manifestação do seu amor por nós. A palavra que Deus nos dirige em Jesus já não é uma entre muitas outras, mas a sua Palavra eterna (cf. Heb 1, 1-2). Não há nenhuma garantia maior que Deus possa dar para nos certificar do seu amor, como nos lembra São Paulo (cf. Rm 8, 31-39). Portanto, a fé cristã é fé no Amor pleno, no seu poder eficaz, na sua capacidade de transformar o mundo e iluminar o tempo. « Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele » (1 Jo 4, 16). A fé identifica, no amor de Deus manifestado em Jesus, o fundamento sobre o qual assenta a realidade e o seu destino último.

16. A maior prova da fiabilidade do amor de Cristo encontra-se na sua morte pelo homem. Se dar a vida pelos amigos é a maior prova de amor (cf. Jo 15, 13), Jesus ofereceu a sua vida por todos, mesmo por aqueles que eram inimigos, para transformar o coração. É por isso que os evangelistas situam, na hora da Cruz, o momento culminante do olhar de fé: naquela hora resplandece o amor divino em toda a sua sublimidade e amplitude. São João colocará aqui o seu testemunho solene, quando, juntamente com a Mãe de Jesus, contemplou Aquele que trespassaram (cf. Jo 19, 37): « Aquele que viu estas coisas é que dá testemunho delas e o seu testemunho é verdadeiro. E ele bem sabe que diz a verdade, para vós crerdes também » (Jo 19, 35). Na sua obra O Idiota, Fiódor Mikhailovich Dostoiévski faz o protagonista — o príncipe Myskin — dizer, à vista do quadro de Cristo morto no sepulcro, pintado por Hans Holbein o Jovem: « Aquele quadro poderia mesmo fazer perder a fé a alguém »;[14] de facto, o quadro representa, de forma muito crua, os efeitos destruidores da morte no corpo de Cristo. E todavia é precisamente na contemplação da morte de Jesus que a fé se reforça e recebe uma luz fulgurante, é quando ela se revela como fé no seu amor inabalável por nós, que é capaz de penetrar na morte para nos salvar. Neste amor que não se subtraiu à morte para manifestar quanto me ama, é possível crer; a sua totalidade vence toda e qualquer suspeita e permite confiar-nos plenamente a Cristo.

17. Ora, a morte de Cristo desvenda a total fiabilidade do amor de Deus à luz da sua ressurreição. Enquanto ressuscitado, Cristo é testemunha fiável, digna de fé (cf. Ap 1, 5; Heb 2, 17), apoio firme para a nossa fé. « Se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé », afirma São Paulo (1 Cor 15, 17). Se o amor do Pai não tivesse feito Jesus ressurgir dos mortos, se não tivesse podido restituir a vida ao seu corpo, não seria um amor plenamente fiável, capaz de iluminar também as trevas da morte. Quando São Paulo fala da sua nova vida em Cristo, refere que a vive « na fé do Filho de Deus que me amou e a Si mesmo Se entregou por mim » (Gl 2, 20). Esta « fé do Filho de Deus » é certamente a fé do Apóstolo dos gentios em Jesus, mas supõe também a fiabilidade de Jesus, que se funda, sem dúvida, no seu amor até à morte, mas também no facto de Ele ser Filho de Deus. Precisamente porque é o Filho, porque está radicado de modo absoluto no Pai, Jesus pôde vencer a morte e fazer resplandecer em plenitude a vida. A nossa cultura perdeu a noção desta presença concreta de Deus, da sua acção no mundo; pensamos que Deus Se encontra só no além, noutro nível de realidade, separado das nossas relações concretas. Mas, se fosse assim, isto é, se Deus fosse incapaz de agir no mundo, o seu amor não seria verdadeiramente poderoso, verdadeiramente real e, por conseguinte, não seria sequer verdadeiro amor, capaz de cumprir a felicidade que promete. E, então, seria completamente indiferente crer ou não crer n’Ele. Ao contrário, os cristãos confessam o amor concreto e poderoso de Deus, que actua verdadeiramente na história e determina o seu destino final; um amor que se fez passível de encontro, que se revelou em plenitude na paixão, morte e ressurreição de Cristo.

18. A plenitude a que Jesus leva a fé possui outro aspecto decisivo: na fé, Cristo não é apenas Aquele em quem acreditamos, a maior manifestação do amor de Deus, mas é também Aquele a quem nos unimos para poder acreditar. A fé não só olha para Jesus, mas olha também a partir da perspectiva de Jesus e com os seus olhos: é uma participação no seu modo de ver. Em muitos âmbitos da vida, fiamo-nos de outras pessoas que conhecem as coisas melhor do que nós: temos confiança no arquitecto que constrói a nossa casa, no farmacêutico que nos fornece o remédio para a cura, no advogado que nos defende no tribunal. Precisamos também de alguém que seja fiável e perito nas coisas de Deus: Jesus, seu Filho, apresenta-Se como Aquele que nos explica Deus (cf. Jo 1, 18). A vida de Cristo, a sua maneira de conhecer o Pai, de viver totalmente em relação com Ele abre um espaço novo à experiência humana, e nós podemos entrar nele. São João exprimiu a importância que a relação pessoal com Jesus tem para a nossa fé, através de vários usos do verbo crer. Juntamente com o « crer que » é verdade o que Jesus nos diz (cf. Jo 14, 10; 20, 31), João usa mais duas expressões: « crer a (sinónimo de dar crédito a) » Jesus e « crer em » Jesus. « Cremos a » Jesus, quando aceitamos a sua palavra, o seu testemunho, porque Ele é verdadeiro (cf. Jo 6, 30). « Cremos em » Jesus, quando O acolhemos pessoalmente na nossa vida e nos confiamos a Ele, aderindo a Ele no amor e seguindo-O ao longo do caminho (cf. Jo 2, 11; 6, 47; 12, 44).

Para nos permitir conhecê-Lo, acolhê-Lo e segui-Lo, o Filho de Deus assumiu a nossa carne; e, assim, a sua visão do Pai deu-se também de forma humana, através de um caminho e um percurso no tempo. A fé cristã é fé na encarnação do Verbo e na sua ressurreição na carne; é fé num Deus que Se fez tão próximo que entrou na nossa história. A fé no Filho de Deus feito homem em Jesus de Nazaré não nos separa da realidade; antes permite-nos individuar o seu significado mais profundo, descobrir quanto Deus ama este mundo e o orienta sem cessar para Si; e isto leva o cristão a comprometer-se, a viver de modo ainda mais intenso o seu caminho sobre a terra.

A salvação pela fé

19. A partir desta participação no modo de ver de Jesus, o apóstolo Paulo deixou-nos, nos seus escritos, uma descrição da existência crente. Aquele que acredita, ao aceitar o dom da fé, é transformado numa nova criatura, recebe um novo ser, um ser filial, torna-se filho no Filho: « Abbá, Pai » é a palavra mais característica da experiência de Jesus, que se torna centro da experiência cristã (cf. Rm 8, 15). A vida na fé, enquanto existência filial, é reconhecer o dom originário e radical que está na base da existência do homem, podendo resumir-se nesta frase de São Paulo aos Coríntios: « Que tens tu que não tenhas recebido? » (1 Cor 4, 7). É precisamente aqui que se situa o cerne da polémica do Apóstolo com os fariseus: a discussão sobre a salvação pela fé ou pelas obras da lei. Aquilo que São Paulo rejeita é a atitude de quem se quer justificar a si mesmo diante de Deus através das próprias obras; esta pessoa, mesmo quando obedece aos mandamentos, mesmo quando realiza obras boas, coloca-se a si própria no centro e não reconhece que a origem do bem é Deus. Quem actua assim, quem quer ser fonte da sua própria justiça, depressa a vê exaurir-se e descobre que não pode sequer aguentar-se na fidelidade à lei; fecha-se, isolando-se do Senhor e dos outros, e, por isso, a sua vida torna-se vã, as suas obras estéreis, como árvore longe da água. Assim se exprime Santo Agostinho com a sua linguagem concisa e eficaz: « Não te afastes d’Aquele que te fez, nem mesmo para te encontrares a ti ».[15] Quando o homem pensa que, afastando-se de Deus, encontrar-se-á a si mesmo, a sua existência fracassa (cf. Lc 15, 11-24). O início da salvação é a abertura a algo que nos antecede, a um dom originário que sustenta a vida e a guarda na existência. Só abrindo-nos a esta origem e reconhecendo-a é que podemos ser transformados, deixando que a salvação actue em nós e torne a vida fecunda, cheia de frutos bons. A salvação pela fé consiste em reconhecer o primado do dom de Deus, como resume São Paulo: « Porque é pela graça que estais salvos, por meio da fé. E isto não vem de vós, é dom de Deus » (Ef 2, 8).

20. A nova lógica da fé centra-se em Cristo. A fé em Cristo salva-nos, porque é n’Ele que a vida se abre radicalmente a um Amor que nos precede e transforma a partir de dentro, que age em nós e connosco. Vê-se isto claramente na exegese que o Apóstolo dos gentios faz de um texto do Deuteronómio; uma exegese que se insere na dinâmica mais profunda do Antigo Testamento. Moisés diz ao povo que o mandamento de Deus não está demasiado alto nem demasiado longe do homem; não se deve dizer: « Quem subirá por nós até ao céu e no-la irá buscar? » ou « Quem atravessará o mar e no-la irá buscar? » (cf. Dt 30, 11-14). Esta proximidade da palavra de Deus é concretizada por São Paulo na presença de Jesus no cristão. « Não digas no teu coração: Quem subirá ao céu? Seria para fazer com que Cristo descesse. Nem digas: Quem descerá ao abismo? Seria para fazer com que Cristo subisse de entre os mortos » (Rm 10, 6-7). Cristo desceu à terra e ressuscitou dos mortos: com a sua encarnação e ressurreição, o Filho de Deus abraçou o percurso inteiro do homem e habita nos nossos corações por meio do Espírito Santo. A fé sabe que Deus Se tornou muito próximo de nós, que Cristo nos foi oferecido como grande dom que nos transforma interiormente, que habita em nós, e assim nos dá a luz que ilumina a origem e o fim da vida, o arco inteiro do percurso humano.

21. Podemos assim compreender a novidade, a que a fé nos conduz. O crente é transformado pelo Amor, ao qual se abriu na fé; e, na sua abertura a este Amor que lhe é oferecido, a sua existência dilata-se para além dele próprio. São Paulo pode afirmar: « Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim » (Gl 2, 20), e exortar: « Que Cristo, pela fé, habite nos vossos corações » (Ef 3, 17). Na fé, o « eu » do crente dilata-se para ser habitado por um Outro, para viver num Outro, e assim a sua vida amplia-se no Amor. É aqui que se situa a acção própria do Espírito Santo: o cristão pode ter os olhos de Jesus, os seus sentimentos, a sua predisposição filial, porque é feito participante do seu Amor, que é o Espírito; é neste Amor que se recebe, de algum modo, a visão própria de Jesus. Fora desta conformação no Amor, fora da presença do Espírito que o infunde nos nossos corações (cf. Rm 5, 5), é impossível confessar Jesus como Senhor (cf. 1 Cor 12, 3).

A forma eclesial da fé

22. Deste modo, a vida do fiel torna-se existência eclesial. Quando São Paulo fala aos cristãos de Roma do único corpo que todos os crentes formam em Cristo, exorta-os a não se vangloriarem, mas a avaliarem-se « de acordo com a medida de fé que Deus distribuiu a cada um » (Rm 12, 3). O crente aprende a ver-se a si mesmo a partir da fé que professa. A figura de Cristo é o espelho em que descobre realizada a sua própria imagem. E dado que Cristo abraça em Si mesmo todos os crentes que formam o seu corpo, o cristão compreende-se a si mesmo neste corpo, em relação primordial com Cristo e os irmãos na fé. A imagem do corpo não pretende reduzir o crente a simples parte de um todo anónimo, a mero elemento de uma grande engrenagem; antes, sublinha a união vital de Cristo com os crentes e de todos os crentes entre si (cf. Rm 12, 4-5). Os cristãos sejam « todos um só » (cf. Gl 3, 28), sem perder a sua individualidade, e, no serviço aos outros, cada um ganha profundamente o próprio ser. Compreende-se assim por que motivo, fora deste corpo, desta unidade da Igreja em Cristo — desta Igreja que, segundo as palavras de Romano Guardini, « é a portadora histórica do olhar global de Cristo sobre o mundo »,[16] —, a fé perca a sua « medida », já não encontre o seu equilíbrio, nem o espaço necessário para se manter de pé. A fé tem uma forma necessariamente eclesial, é professada partindo do corpo de Cristo, como comunhão concreta dos crentes. A partir deste lugar eclesial, ela abre o indivíduo cristão a todos os homens. Uma vez escutada, a palavra de Cristo, pelo seu próprio dinamismo, transforma-se em resposta no cristão, tornando-se ela mesma palavra pronunciada, confissão de fé. São Paulo afirma: « Realmente com o coração se crê (…) e com a boca se faz a profissão de fé » (Rm 10, 10). A fé não é um facto privado, uma concepção individualista, uma opinião subjectiva, mas nasce de uma escuta e destina-se a ser pronunciada e a tornar-se anúncio. Com efeito, « como hão-de acreditar n’Aquele de quem não ouviram falar? E como hão-de ouvir falar, sem alguém que O anuncie? (Rm 10, 14). Concluindo, a fé torna-se operativa no cristão a partir do dom recebido, a partir do Amor que o atrai para Cristo (cf. Gl 5, 6) e torna participante do caminho da Igreja, peregrina na história rumo à perfeição. Para quem foi assim transformado, abre-se um novo modo de ver, a fé torna-se luz para os seus olhos.

CAPÍTULO II

SE NÃO ACREDITARDES,
NÃO COMPREENDEREIS
(cf. Is 7, 9)

Fé e verdade

23. Se não acreditardes, não compreendereis (cf. Is 7, 9): foi assim que a versão grega da Bíblia hebraica — a tradução dos Setenta, feita em Alexandria do Egipto — traduziu as palavras do profeta Isaías ao rei Acaz, fazendo aparecer como central, na fé, a questão do conhecimento da verdade. Entretanto, no texto hebraico, há uma leitura diferente; aqui o profeta diz ao rei: « Se não o acreditardes, não subsistireis ». Existe aqui um jogo de palavras com duas formas do verbo ‘amàn: « acreditardes » (ta’aminu) e « subsistireis » (te’amenu). Apavorado com a força dos seus inimigos, o rei busca a segurança que lhe pode vir de uma aliança com o grande império da Assíria; mas o profeta convida-o a confiar apenas na verdadeira rocha que não vacila: o Deus de Israel. Uma vez que Deus é fiável, é razoável ter fé n’Ele, construir a própria segurança sobre a sua Palavra. Este é o Deus que Isaías chamará mais adiante, por duas vezes, o Deus-Amen, o « Deus fiel » (cf. Is 65, 16), fundamento inabalável de fidelidade à aliança. Poder-se-ia pensar que a versão grega da Bíblia, traduzindo « subsistir » por « compreender », tivesse realizado uma mudança profunda do texto, passando da noção bíblica de entrega a Deus à noção grega de compreensão. E no entanto esta tradução, que aceitava certamente o diálogo com a cultura helenista, não é alheia à dinâmica profunda do texto hebraico; a firmeza que Isaías promete ao rei passa, realmente, pela compreensão do agir de Deus e da unidade que Ele dá à vida do homem e à história do povo. O profeta exorta a compreender os caminhos do Senhor, encontrando na fidelidade de Deus o plano de sabedoria que governa os séculos. Esta síntese entre o « compreender » e o « subsistir » é expressa por Santo Agostinho, nas suas Confissões, quando fala da verdade em que se pode confiar para conseguirmos ficar de pé: « Estarei firme e consolidar-me-ei em Ti, (…) na tua verdade ». [17] Vendo o contexto, sabemos que este Padre da Igreja quer mostrar que esta verdade fidedigna de Deus é, como resulta da Bíblia, a sua presença fiel ao longo da história, a sua capacidade de manter unidos os tempos, recolhendo a dispersão dos dias do homem.[18]

24. Lido a esta luz, o texto de Isaías faz-nos concluir: o homem precisa de conhecimento, precisa de verdade, porque sem ela não se mantém de pé, não caminha. Sem verdade, a fé não salva, não torna seguros os nossos passos. Seria uma linda fábula, a projecção dos nossos desejos de felicidade, algo que nos satisfaz só na medida em que nos quisermos iludir; ou então reduzir-se-ia a um sentimento bom que consola e afaga, mas permanece sujeito às nossas mudanças de ânimo, à variação dos tempos, incapaz de sustentar um caminho constante na vida. Se a fé fosse isso, então o rei Acaz teria razão para não jogar a sua vida e a segurança do seu reino sobre uma emoção. Mas não é! Precisamente pela sua ligação intrínseca com a verdade, a fé é capaz de oferecer uma luz nova, superior aos cálculos do rei, porque vê mais longe, compreende o agir de Deus, que é fiel à sua aliança e às suas promessas.

25. Lembrar esta ligação da fé com a verdade é hoje mais necessário do que nunca, precisamente por causa da crise de verdade em que vivemos. Na cultura contemporânea, tende-se frequentemente a aceitar como verdade apenas a da tecnologia: é verdadeiro aquilo que o homem consegue construir e medir com a sua ciência; é verdadeiro porque funciona, e assim torna a vida mais cómoda e aprazível. Esta verdade parece ser, hoje, a única certa, a única partilhável com os outros, a única sobre a qual se pode conjuntamente discutir e comprometer-se; depois haveria as verdades do indivíduo, como ser autêntico face àquilo que cada um sente no seu íntimo, válidas apenas para o sujeito mas que não podem ser propostas aos outros com a pretensão de servir o bem comum. A verdade grande, aquela que explica o conjunto da vida pessoal e social, é vista com suspeita. Porventura não foi esta — perguntam-se — a verdade pretendida pelos grandes totalitarismos do século passado, uma verdade que impunha a própria concepção global para esmagar a história concreta do indivíduo? No fim, resta apenas um relativismo, no qual a questão sobre a verdade de tudo — que, no fundo, é também a questão de Deus — já não interessa. Nesta perspectiva, é lógico que se pretenda eliminar a ligação da religião com a verdade, porque esta associação estaria na raiz do fanatismo, que quer emudecer quem não partilha da crença própria. A este respeito, pode-se falar de uma grande obnubilação da memória no nosso mundo contemporâneo; de facto, a busca da verdade é uma questão de memória, de memória profunda, porque visa algo que nos precede e, desta forma, pode conseguir unir-nos para além do nosso « eu » pequeno e limitado; é uma questão relativa à origem de tudo, a cuja luz se pode ver a meta e também o sentido da estrada comum.

Conhecimento da verdade e amor

26. Nesta situação, poderá a fé cristã prestar um serviço ao bem comum relativamente à maneira correcta de entender a verdade? Para termos uma resposta, é necessário reflectir sobre o tipo de conhecimento próprio da fé. Pode ajudar-nos esta frase de Paulo: « Acredita-se com o coração » (Rm 10, 10). Este, na Bíblia, é o centro do homem, onde se entrecruzam todas as suas dimensões: o corpo e o espírito, a interioridade da pessoa e a sua abertura ao mundo e aos outros, a inteligência, a vontade, a afectividade. O coração pode manter unidas estas dimensões, porque é o lugar onde nos abrimos à verdade e ao amor, deixando que nos toquem e transformem profundamente. A fé transforma a pessoa inteira, precisamente na medida em que ela se abre ao amor; é neste entrelaçamento da fé com o amor que se compreende a forma de conhecimento própria da fé, a sua força de convicção, a sua capacidade de iluminar os nossos passos. A fé conhece na medida em que está ligada ao amor, já que o próprio amor traz uma luz. A compreensão da fé é aquela que nasce quando recebemos o grande amor de Deus, que nos transforma interiormente e nos dá olhos novos para ver a realidade.

27. É conhecido o modo como o filósofo Ludwig Wittgenstein explicou a ligação entre a fé e a certeza. Segundo ele, acreditar seria comparável à experiência do enamoramento, concebida como algo de subjectivo, impossível de propor como verdade válida para todos.[19] De facto, aos olhos do homem moderno, parece que a questão do amor não teria nada a ver com a verdade; o amor surge, hoje, como uma experiência ligada, não à verdade, mas ao mundo inconstante dos sentimentos.

Mas, será esta verdadeiramente uma descrição adequada do amor? Na realidade, o amor não se pode reduzir a um sentimento que vai e vem. É verdade que o amor tem a ver com a nossa afectividade, mas para a abrir à pessoa amada, e assim iniciar um caminho que faz sair da reclusão no próprio eu e dirigir-se para a outra pessoa, a fim de construir uma relação duradoura; o amor visa a união com a pessoa amada. E aqui se manifesta em que sentido o amor tem necessidade da verdade: apenas na medida em que o amor estiver fundado na verdade é que pode perdurar no tempo, superar o instante efémero e permanecer firme para sustentar um caminho comum. Se o amor não tivesse relação com a verdade, estaria sujeito à alteração dos sentimentos e não superaria a prova do tempo. Diversamente, o amor verdadeiro unifica todos os elementos da nossa personalidade e torna-se uma luz nova que aponta para uma vida grande e plena. Sem a verdade, o amor não pode oferecer um vínculo sólido, não consegue arrancar o « eu » para fora do seu isolamento, nem libertá-lo do instante fugidio para edificar a vida e produzir fruto.

Se o amor tem necessidade da verdade, também a verdade precisa do amor; amor e verdade não se podem separar. Sem o amor, a verdade torna-se fria, impessoal, gravosa para a vida concreta da pessoa. A verdade que buscamos, a verdade que dá significado aos nossos passos, ilumina-nos quando somos tocados pelo amor. Quem ama, compreende que o amor é experiência da verdade, compreende que é precisamente ele que abre os nossos olhos para verem a realidade inteira, de maneira nova, em união com a pessoa amada. Neste sentido, escreveu São Gregório Magno que o próprio amor é um conhecimento, [20] traz consigo uma lógica nova. Trata-se de um modo relacional de olhar o mundo, que se torna conhecimento partilhado, visão na visão do outro e visão comum sobre todas as coisas. Na Idade Média, Guilherme de Saint Thierry adopta esta tradição, ao comentar um versículo do Cântico dos Cânticos no qual o amado diz à amada: « Como são lindos os teus olhos de pomba! » (Ct 1, 15). [21] Estes dois olhos — explica Saint Thierry — são a razão crente e o amor, que se tornam um único olhar para chegar à contemplação de Deus, quando a inteligência se faz « entendimento de um amor iluminado ». [22]

28. Esta descoberta do amor como fonte de conhecimento, que pertence à experiência primordial de cada homem, encontra uma expressão categorizada na concepção bíblica da fé. Israel, saboreando o amor com que Deus o escolheu e gerou como povo, chega a compreender a unidade do desígnio divino, desde a origem à sua realização. O conhecimento da fé, pelo facto de nascer do amor de Deus que estabelece a Aliança, é conhecimento que ilumina um caminho na história. É por isso também que, na Bíblia, verdade e fidelidade caminham juntas: o Deus verdadeiro é o Deus fiel, Aquele que mantém as suas promessas e permite, com o decorrer do tempo, compreender o seu desígnio. Através da experiência dos profetas, no sofrimento do exílio e na esperança de um regresso definitivo à Cidade Santa, Israel intuiu que esta verdade de Deus se estendia mais além da própria história, abraçando a história inteira do mundo a começar da criação. O conhecimento da fé ilumina não só o caminho particular de um povo, mas também o percurso inteiro do mundo criado, desde a origem até à sua consumação.

A fé como escuta e visão

29. Justamente porque o conhecimento da fé está ligado à aliança de um Deus fiel, que estabelece uma relação de amor com o homem e lhe dirige a Palavra, é apresentado pela Bíblia como escuta, aparece associado com o ouvido. São Paulo usará uma fórmula que se tornou clássica: « fides ex auditu — a fé vem da escuta » (Rm 10, 17). O conhecimento associado à palavra é sempre conhecimento pessoal, que reconhece a voz, se lhe abre livremente e a segue obedientemente. Por isso, São Paulo falou da « obediência da fé » (cf. Rm 1, 5; 16, 26).[23] Além disso, a fé é conhecimento ligado ao transcorrer do tempo que a palavra necessita para ser explicitada: é conhecimento que só se aprende num percurso de seguimento. A escuta ajuda a identificar bem o nexo entre conhecimento e amor.

A propósito do conhecimento da verdade, pretendeu-se por vezes contrapor a escuta à visão, a qual seria peculiar da cultura grega. Se a luz, por um lado, oferece a contemplação da totalidade a que o homem sempre aspirou, por outro, parece não deixar espaço à liberdade, pois desce do céu e chega directamente à vista, sem lhe pedir que responda. Além disso, parece convidar a uma contemplação estática, separada do tempo concreto em que o homem goza e sofre. Segundo esta concepção, haveria oposição entre a abordagem bíblica do conhecimento e a grega, a qual, na sua busca duma compreensão completa da realidade, teria associado o conhecimento com a visão.

Mas tal suposta oposição não é corroborada de forma alguma pelos dados bíblicos: o Antigo Testamento combinou os dois tipos de conhecimento, unindo a escuta da Palavra de Deus com o desejo de ver o seu rosto. Isto tornou possível entabular diálogo com a cultura helenista, um diálogo que pertence ao coração da Escritura. O ouvido atesta não só a chamada pessoal e a obediência, mas também que a verdade se revela no tempo; a vista, por sua vez, oferece a visão plena de todo o percurso, permitindo situar-nos no grande projecto de Deus; sem tal visão, disporíamos apenas de fragmentos isolados de um todo desconhecido.

30. A conexão entre o ver e o ouvir, como órgãos do conhecimento da fé, aparece com a máxima clareza no Evangelho de João, onde acreditar é simultaneamente ouvir e ver. A escuta da fé verifica-se segundo a forma de conhecimento própria do amor: é uma escuta pessoal, que distingue e reconhece a voz do Bom Pastor (cf. Jo 10, 3-5); uma escuta que requer o seguimento, como acontece com os primeiros discípulos que, « ouvindo [João Baptista] falar desta maneira, seguiram Jesus » (Jo 1, 37). Por outro lado, a fé está ligada também com a visão: umas vezes, a visão dos sinais de Jesus precede a fé, como sucede com os judeus que, depois da ressurreição de Lázaro, « ao verem o que Jesus fez, creram n’Ele » (Jo 11, 45); outras vezes, é a fé que leva a uma visão mais profunda: « Se acreditares, verás a glória de Deus » (Jo 11, 40). Por fim, acreditar e ver cruzam-se: « Quem crê em Mim (...) crê n’Aquele que Me enviou; e quem Me vê a Mim, vê Aquele que me enviou » (Jo 12, 44-45). O ver, graças à sua união com o ouvir, torna-se seguimento de Cristo; e a fé aparece como um caminho do olhar em que os olhos se habituam a ver em profundidade. E assim, na manhã de Páscoa, de João — que, ainda na escuridão perante o túmulo vazio, « viu e começou a crer » (Jo 20, 8) — passa-se a Maria Madalena — que já vê Jesus (cf. Jo 20, 14) e quer retê-Lo, mas é convidada a contemplá-Lo no seu caminho para o Pai — até à plena confissão da própria Madalena diante dos discípulos: « Vi o Senhor! » (Jo 20, 18).

Como se chega a esta síntese entre o ouvir e o ver? A partir da pessoa concreta de Jesus, que Se vê e escuta. Ele é a Palavra que Se fez carne e cuja glória contemplámos (cf. Jo 1, 14). A luz da fé é a luz de um Rosto, no qual se vê o Pai. De facto, no quarto Evangelho, a verdade que a fé apreende é a manifestação do Pai no Filho, na sua carne e nas suas obras terrenas; verdade essa, que se pode definir como a « vida luminosa » de Jesus.[24] Isto significa que o conhecimento da fé não nos convida a olhar uma verdade puramente interior; a verdade que a fé nos descerra é uma verdade centrada no encontro com Cristo, na contemplação da sua vida, na percepção da sua presença. Neste sentido e a propósito da visão corpórea do Ressuscitado, São Tomás de Aquino fala de oculata fides (uma fé que vê) dos Apóstolos:[25] viram Jesus ressuscitado com os seus olhos e acreditaram, isto é, puderam penetrar na profundidade daquilo que viam para confessar o Filho de Deus, sentado à direita do Pai.

31. Só assim, através da encarnação, através da partilha da nossa humanidade, podia chegar à plenitude o conhecimento próprio do amor. De facto, a luz do amor nasce quando somos tocados no coração, recebendo assim, em nós, a presença interior do amado, que nos permite reconhecer o seu mistério. Compreendemos agora por que motivo, para João, a fé seja, juntamente com o escutar e o ver, um tocar, como nos diz na sua Primeira Carta: « O que ouvimos, o que vimos (…) e as nossas mãos tocaram relativamente ao Verbo da Vida… » (1 Jo 1, 1). Por meio da sua encarnação, com a sua vinda entre nós, Jesus tocou-nos e, através dos sacramentos, ainda hoje nos toca; desta forma, transformando o nosso coração, permitiu-nos — e permite-nos — reconhecê-Lo e confessá-Lo como Filho de Deus. Pela fé, podemos tocá-Lo e receber a força da sua graça. Santo Agostinho, comentando a passagem da hemorroíssa que toca Jesus para ser curada (cf. Lc 8, 45-46), afirma: « Tocar com o coração, isto é crer ».[26] A multidão comprime-se ao redor de Jesus, mas não O alcança com aquele toque pessoal da fé que reconhece o seu mistério, o seu ser Filho que manifesta o Pai. Só quando somos configurados com Jesus é que recebemos o olhar adequado para O ver.

O diálogo entre fé e razão

32. A fé cristã, enquanto anuncia a verdade do amor total de Deus e abre para a força deste amor, chega ao centro mais profundo da experiência de cada homem, que vem à luz graças ao amor e é chamado ao amor para permanecer na luz. Movidos pelo desejo de iluminar a realidade inteira a partir do amor de Deus manifestado em Jesus e procurando amar com este mesmo amor, os primeiros cristãos encontraram no mundo grego, na sua fome de verdade, um parceiro idóneo para o diálogo. O encontro da mensagem evangélica com o pensamento filosófico do mundo antigo constituiu uma passagem decisiva para o Evangelho chegar a todos os povos e favoreceu uma fecunda sinergia entre fé e razão, que se foi desenvolvendo no decurso dos séculos até aos nossos dias. O Beato João Paulo II, na sua carta encíclica Fides et ratio, mostrou como fé e razão se reforçam mutuamente. [27] Depois de ter encontrado a luz plena do amor de Jesus, descobrimos que havia, em todo o nosso amor, um lampejo daquela luz e compreendemos qual era a sua meta derradeira; e, simultaneamente, o facto de o nosso amor trazer em si uma luz ajuda-nos a ver o caminho do amor rumo à plenitude da doação total do Filho de Deus por nós. Neste movimento circular, a luz da fé ilumina todas as nossas relações humanas, que podem ser vividas em união com o amor e a ternura de Cristo.

33. Na vida de Santo Agostinho, encontramos um exemplo significativo deste caminho: a busca da razão, com o seu desejo de verdade e clareza, aparece integrada no horizonte da fé, do qual recebeu uma nova compreensão. Por um lado, acolhe a filosofia grega da luz com a sua insistência na visão: o seu encontro com o neoplatonismo fez-lhe conhecer o paradigma da luz, que desce do alto para iluminar as coisas, tornando-se assim um símbolo de Deus. Desta maneira, Santo Agostinho compreendeu a transcendência divina e descobriu que todas as coisas possuem em si uma transparência, isto é, que podiam reflectir a bondade de Deus, o Bem; assim se libertou do maniqueísmo, em que antes vivia, que o inclinava a pensar que o bem e o mal lutassem continuamente entre si, confundindo-se e misturando-se, sem contornos claros. O facto de ter compreendido que Deus é luz deu à sua existência uma nova orientação, a capacidade de reconhecer o mal de que era culpado e voltar-se para o bem.

Mas, por outro lado, na experiência concreta de Agostinho, que ele próprio narra nas suas Confissões, o momento decisivo no seu caminho de fé não foi uma visão de Deus para além deste mundo, mas a escuta, quando no jardim ouviu uma voz que lhe dizia: « Toma e lê »; ele pegou no tomo com as Cartas de São Paulo, detendo-se no capítulo décimo terceiro da Carta aos Romanos.[28] Temos aqui o Deus pessoal da Bíblia, capaz de falar ao homem, descer para viver com ele e acompanhar o seu caminho na história, manifestando-Se no tempo da escuta e da resposta.

Mas, este encontro com o Deus da Palavra não levou Santo Agostinho a rejeitar a luz e a visão, mas integrou ambas as perspectivas, guiado sempre pela revelação do amor de Deus em Jesus. Deste modo, elaborou uma filosofia da luz que reúne em si a reciprocidade própria da palavra e abre um espaço à liberdade própria do olhar para a luz: tal como à palavra corresponde uma resposta livre, assim também a luz encontra como resposta uma imagem que a reflecte. Deste modo, associando escuta e visão, Santo Agostinho pôde referir-se à « palavra que resplandece no interior do homem ».[29] A luz torna-se, por assim dizer, a luz de uma palavra, porque é a luz de um Rosto pessoal, uma luz que, ao iluminar-nos, nos chama e quer reflectir-se no nosso rosto para resplandecer a partir do nosso íntimo. Por outro lado, o desejo da visão do todo, e não apenas dos fragmentos da história, continua presente e cumprir-se-á no fim, quando o homem — como diz o Santo de Hipona — poderá ver e amar;[30] e isto, não por ser capaz de possuir a luz toda, já que esta será sempre inexaurível, mas por entrar, todo inteiro, na luz.

34. A luz do amor, própria da fé, pode iluminar as perguntas do nosso tempo acerca da verdade. Muitas vezes, hoje, a verdade é reduzida a autenticidade subjectiva do indivíduo, válida apenas para a vida individual. Uma verdade comum mete-nos medo, porque a identificamos — como dissemos atrás — com a imposição intransigente dos totalitarismos; mas, se ela é a verdade do amor, se é a verdade que se mostra no encontro pessoal com o Outro e com os outros, então fica livre da reclusão no indivíduo e pode fazer parte do bem comum. Sendo a verdade de um amor, não é verdade que se impõe pela violência, não é verdade que esmaga o indivíduo; nascendo do amor pode chegar ao coração, ao centro pessoal de cada homem; daqui resulta claramente que a fé não é intransigente, mas cresce na convivência que respeita o outro. O crente não é arrogante; pelo contrário, a verdade torna-o humilde, sabendo que, mais do que possuirmo-la nós, é ela que nos abraça e possui. Longe de nos endurecer, a segurança da fé põe-nos a caminho e torna possível o testemunho e o diálogo com todos.

Por outro lado, enquanto unida à verdade do amor, a luz da fé não é alheia ao mundo material, porque o amor vive-se sempre com corpo e alma; a luz da fé é luz encarnada, que dimana da vida luminosa de Jesus. A fé ilumina também a matéria, confia na sua ordem, sabe que nela se abre um caminho cada vez mais amplo de harmonia e compreensão. Deste modo, o olhar da ciência tira benefício da fé: esta convida o cientista a permanecer aberto à realidade, em toda a sua riqueza inesgotável. A fé desperta o sentido crítico, enquanto impede a pesquisa de se deter, satisfeita, nas suas fórmulas e ajuda-a a compreender que a natureza sempre as ultrapassa. Convidando a maravilhar-se diante do mistério da criação, a fé alarga os horizontes da razão para iluminar melhor o mundo que se abre aos estudos da ciência.

A fé e a busca de Deus

35. A luz da fé em Jesus ilumina também o caminho de todos aqueles que procuram a Deus e oferece a contribuição própria do cristianismo para o diálogo com os seguidores das diferentes religiões. A Carta aos Hebreus fala-nos do testemunho dos justos que, antes da Aliança com Abraão, já procuravam a Deus com fé; lá se diz, a propósito de Henoc, que « tinha agradado a Deus », sendo isso impossível sem a fé, porque « quem se aproxima de Deus tem de acreditar que Ele existe e recompensa aqueles que O procuram » (Heb 11, 5.6). Deste modo, é possível compreender que o caminho do homem religioso passa pela confissão de um Deus que cuida dele e que Se pode encontrar. Que outra recompensa poderia Deus oferecer àqueles que O buscam, senão deixar-Se encontrar a Si mesmo? Ainda antes de Henoc, encontramos a figura de Abel, de quem se louva igualmente a fé, em virtude da qual foram agradáveis a Deus os seus dons, a oferenda dos primogénitos dos seus rebanhos (cf. Heb 11, 4). O homem religioso procura reconhecer os sinais de Deus nas experiências diárias da sua vida, no ciclo das estações, na fecundidade da terra e em todo o movimento do universo. Deus é luminoso, podendo ser encontrado também por aqueles que O buscam de coração sincero.

Imagem desta busca são os Magos, guiados pela estrela até Belém (cf. Mt 2, 1-12). A luz de Deus mostrou-se-lhes como caminho, como estrela que os guia ao longo duma estrada a descobrir. Deste modo, a estrela fala da paciência de Deus com os nossos olhos, que devem habituar-se ao seu fulgor. Encontrando-se a caminho, o homem religioso deve estar pronto a deixar-se guiar, a sair de si mesmo para encontrar o Deus que não cessa de nos surpreender. Este respeito de Deus pelos olhos do homem mostra-nos que, quando o homem se aproxima d’Ele, a luz humana não se dissolve na imensidão luminosa de Deus, como se fosse um estrela absorvida pela aurora, mas torna-se tanto mais brilhante quanto mais perto fica do fogo gerador, como um espelho que reflecte o resplendor. A confissão de Jesus, único Salvador, afirma que toda a luz de Deus se concentrou n’Ele, na sua « vida luminosa », em que se revela a origem e a consumação da história.[31] Não há nenhuma experiência humana, nenhum itinerário do homem para Deus que não possa ser acolhido, iluminado e purificado por esta luz. Quanto mais o cristão penetrar no círculo aberto pela luz de Cristo, tanto mais será capaz de compreender e acompanhar o caminho de cada homem para Deus.

Configurando-se como caminho, a fé tem a ver também com a vida dos homens que, apesar de não acreditar, desejam-no fazer e não cessam de procurar. Na medida em que se abrem, de coração sincero, ao amor e se põem a caminho com a luz que conseguem captar, já vivem — sem o saber — no caminho para a fé: procuram agir como se Deus existisse, seja porque reconhecem a sua importância para encontrar directrizes firmes na vida comum, seja porque sentem o desejo de luz no meio da escuridão, seja ainda porque, notando como é grande e bela a vida, intuem que a presença de Deus ainda a tornaria maior. Santo Ireneu de Lião refere que Abraão, antes de ouvir a voz de Deus, já O procurava « com o desejo ardente do seu coração » e « percorria todo o mundo, perguntando-se onde pudesse estar Deus », até que « Deus teve piedade daquele que, sozinho, O procurava no silêncio ».[32] Quem se põe a caminho para praticar o bem, já se aproxima de Deus, já está sustentado pela sua ajuda, porque é próprio da dinâmica da luz divina iluminar os nossos olhos, quando caminhamos para a plenitude do amor.

Fé e teologia

36. Como luz que é, a fé convida-nos a penetrar nela, a explorar sempre mais o horizonte que ilumina, para conhecer melhor o que amamos. Deste desejo nasce a teologia cristã; assim, é claro que a teologia é impossível sem a fé e pertence ao próprio movimento da fé, que procura a compreensão mais profunda da auto-revelação de Deus, culminada no Mistério de Cristo. A primeira consequência é que, na teologia, não se verifica apenas um esforço da razão para perscrutar e conhecer, como nas ciências experimentais. Deus não pode ser reduzido a objecto; Ele é Sujeito que Se dá a conhecer e manifesta na relação pessoa a pessoa. A fé recta orienta a razão para se abrir à luz que vem de Deus, a fim de que ela, guiada pelo amor à verdade, possa conhecer Deus de forma mais profunda. Os grandes doutores e teólogos medievais declararam que a teologia, enquanto ciência da fé, é uma participação no conhecimento que Deus tem de Si mesmo. Por isso, a teologia não é apenas palavra sobre Deus, mas, antes de tudo, acolhimento e busca de uma compreensão mais profunda da palavra que Deus nos dirige: palavra que Deus pronuncia sobre Si mesmo, porque é um diálogo eterno de comunhão, no âmbito do qual é admitido o homem.[33] Assim, é própria da teologia a humildade, que se deixa « tocar » por Deus, reconhece os seus limites face ao Mistério e se encoraja a explorar, com a disciplina própria da razão, as riquezas insondáveis deste Mistério.

Além disso, a teologia partilha a forma eclesial da fé; a sua luz é a luz do sujeito crente que é a Igreja. Isto implica, por um lado, que a teologia esteja ao serviço da fé dos cristãos, vise humildemente preservar e aprofundar o crer de todos, sobretudo dos mais simples; e por outro, dado que vive da fé, a teologia não considera o magistério do Papa e dos Bispos em comunhão com ele como algo de extrínseco, um limite à sua liberdade, mas, pelo contrário, como um dos seus momentos internos constitutivos, enquanto o magistério assegura o contacto com a fonte originária, oferecendo assim a certeza de beber na Palavra de Cristo em toda a sua integridade.

CAPÍTULO III

TRANSMITO-VOS AQUILO QUE RECEBI
(cf. 1 Cor 15, 3)

A Igreja, mãe da nossa fé

37. Quem se abriu ao amor de Deus, acolheu a sua voz e recebeu a sua luz, não pode guardar este dom para si mesmo. Uma vez que é escuta e visão, a fé transmite-se também como palavra e como luz; dirigindo-se aos Coríntios, o apóstolo Paulo utiliza precisamente estas duas imagens. Por um lado, diz: « Animados do mesmo espírito de fé, conforme o que está escrito: Acreditei e por isso falei, também nós acreditamos e por isso falamos » (2 Cor 4, 13); a palavra recebida faz-se resposta, confissão, e assim ecoa para os outros, convidando-os a crer. Por outro, São Paulo refere-se também à luz: « E nós todos que, com o rosto descoberto, reflectimos a glória do Senhor, somos transfigurados na sua própria imagem » (2 Cor 3, 18); é uma luz que se reflecte de rosto em rosto, como sucedeu com Moisés cujo rosto reflectia a glória de Deus depois de ter falado com Ele: « [Deus] brilhou nos nossos corações, para irradiar o conhecimento da glória de Deus, que resplandece na face de Cristo » (2 Cor 4, 6). A luz de Jesus brilha no rosto dos cristãos como num espelho, e assim se difunde chegando até nós, para que também nós possamos participar desta visão e reflectir para outros a sua luz, da mesma forma que a luz do círio, na liturgia de Páscoa, acende muitas outras velas. A fé transmite-se por assim dizer sob a forma de contacto, de pessoa a pessoa, como uma chama se acende noutra chama. Os cristãos, na sua pobreza, lançam uma semente tão fecunda que se torna uma grande árvore, capaz de encher o mundo de frutos.

38. A transmissão da fé, que brilha para as pessoas de todos os lugares, passa também através do eixo do tempo, de geração em geração. Dado que a fé nasce de um encontro que acontece na história e ilumina o nosso caminho no tempo, a mesma deve ser transmitida ao longo dos séculos. É através de uma cadeia ininterrupta de testemunhos que nos chega o rosto de Jesus. Como é possível isto? Como se pode estar seguro de beber no « verdadeiro Jesus » através dos séculos? Se o homem fosse um indivíduo isolado, se quiséssemos partir apenas do « eu » individual, que pretende encontrar em si mesmo a firmeza do seu conhecimento, tal certeza seria impossível; não posso, por mim mesmo, ver aquilo que aconteceu numa época tão distante de mim. Mas, esta não é a única maneira de o homem conhecer; a pessoa vive sempre em relação: provém de outros, pertence a outros, a sua vida torna-se maior no encontro com os outros; o próprio conhecimento e consciência de nós mesmos são de tipo relacional e estão ligados a outros que nos precederam, a começar pelos nossos pais que nos deram a vida e o nome. A própria linguagem, as palavras com que interpretamos a nossa vida e a realidade inteira chegam-nos através dos outros, conservadas na memória viva de outros; o conhecimento de nós mesmos só é possível quando participamos duma memória mais ampla. O mesmo acontece com a fé, que leva à plenitude o modo humano de entender: o passado da fé, aquele acto de amor de Jesus que gerou no mundo uma vida nova, chega até nós na memória de outros, das testemunhas, guardado vivo naquele sujeito único de memória que é a Igreja; esta é uma Mãe que nos ensina a falar a linguagem da fé. São João insistiu sobre este aspecto no seu Evangelho, unindo conjuntamente fé e memória e associando as duas à acção do Espírito Santo que, como diz Jesus, « há-de recordar-vos tudo » (Jo 14, 26). O Amor, que é o Espírito e que habita na Igreja, mantém unidos entre si todos os tempos e faz-nos contemporâneos de Jesus, tornando-Se assim o guia do nosso caminho na fé.

39. É impossível crer sozinhos. A fé não é só uma opção individual que se realiza na interioridade do crente, não é uma relação isolada entre o « eu » do fiel e o « Tu » divino, entre o sujeito autónomo e Deus; mas, por sua natureza, abre-se ao « nós », verifica-se sempre dentro da comunhão da Igreja. Assim no-lo recorda a forma dialogada do Credo, que se usa na liturgia baptismal. O crer exprime-se como resposta a um convite, a uma palavra que não provém de mim, mas deve ser escutada; por isso, insere-se no interior de um diálogo, não pode ser uma mera confissão que nasce do indivíduo: só é possível responder « creio » em primeira pessoa, porque se pertence a uma comunhão grande, dizendo também « cremos ». Esta abertura ao « nós » eclesial realiza-se de acordo com a abertura própria do amor de Deus, que não é apenas relação entre o Pai e o Filho, entre « eu » e « tu », mas, no Espírito, é também um « nós », uma comunhão de pessoas. Por isso mesmo, quem crê nunca está sozinho; e, pela mesma razão, a fé tende a difundir-se, a convidar outros para a sua alegria. Quem recebe a fé, descobre que os espaços do próprio « eu » se alargam, gerando-se nele novas relações que enriquecem a vida. Assim o exprimiu vigorosamente Tertuliano ao dizer do catecúmeno que, tendo sido recebido numa nova família « depois do banho do novo nascimento », é acolhido na casa da Mãe para erguer as mãos e rezar, juntamente com os irmãos, o Pai Nosso.[34]

Os sacramentos e a transmissão da fé

40. Como sucede em cada família, a Igreja transmite aos seus filhos o conteúdo da sua memória. Como se deve fazer esta transmissão de modo que nada se perca, mas antes que tudo se aprofunde cada vez mais na herança da fé? É através da Tradição Apostólica, conservada na Igreja com a assistência do Espírito Santo, que temos contacto vivo com a memória fundadora. E aquilo que foi transmitido pelos Apóstolos, como afirma o Concílio Ecuménico Vaticano II, « abrange tudo quanto contribui para a vida santa do Povo de Deus e para o aumento da sua fé; e assim a Igreja, na sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo aquilo que ela é e tudo quanto acredita ».[35]

De facto, a fé tem necessidade de um âmbito onde se possa testemunhar e comunicar, e que o mesmo seja adequado e proporcionado ao que se comunica. Para transmitir um conteúdo meramente doutrinal, uma ideia, talvez bastasse um livro ou a repetição de uma mensagem oral; mas aquilo que se comunica na Igreja, o que se transmite na sua Tradição viva é a luz nova que nasce do encontro com o Deus vivo, uma luz que toca a pessoa no seu íntimo, no coração, envolvendo a sua mente, vontade e afectividade, abrindo-a a relações vivas na comunhão com Deus e com os outros. Para se transmitir tal plenitude, existe um meio especial que põe em jogo a pessoa inteira: corpo e espírito, interioridade e relações. Este meio são os sacramentos celebrados na liturgia da Igreja: neles, comunica-se uma memória encarnada, ligada aos lugares e épocas da vida, associada com todos os sentidos; neles, a pessoa é envolvida, como membro de um sujeito vivo, num tecido de relações comunitárias. Por isso, se é verdade que os sacramentos são os sacramentos da fé,[36] há que afirmar também que a fé tem uma estrutura sacramental; o despertar da fé passa pelo despertar de um novo sentido sacramental na vida do homem e na existência cristã, mostrando como o visível e o material se abrem para o mistério do eterno.

41. A transmissão da fé verifica-se, em primeiro lugar, através do Baptismo. Poderia parecer que este sacramento fosse apenas um modo para simbolizar a confissão de fé, um acto pedagógico para quem precise de imagens e gestos, e do qual seria possível fundamentalmente prescindir. Mas não é assim, como no-lo recorda uma palavra de São Paulo: « Pelo Baptismo fomos sepultados com Cristo na morte, para que, tal como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos pela glória do Pai, também nós caminhemos numa vida nova » (Rm 6, 4); nele, tornamo-nos nova criatura e filhos adoptivos de Deus. E mais adiante o Apóstolo diz que o cristão foi confiado a uma « forma de ensino » (typos didachés), a que obedece de coração (cf. Rm 6, 17): no Baptismo, o homem recebe também uma doutrina que deve professar e uma forma concreta de vida que requer o envolvimento de toda a sua pessoa, encaminhando-a para o bem; é transferido para um novo âmbito, confiado a um novo ambiente, a uma nova maneira comum de agir, na Igreja. Deste modo, o Baptismo recorda-nos que a fé não é obra do indivíduo isolado, não é um acto que o homem possa realizar contando apenas com as próprias forças, mas tem de ser recebida, entrando na comunhão eclesial que transmite o dom de Deus: ninguém se baptiza a si mesmo, tal como ninguém vem sozinho à existência. Fomos baptizados.

42. Quais são os elementos baptismais que nos introduzem nesta nova « forma de ensino »? Sobre o catecúmeno é invocado, em primeiro lugar, o nome da Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. E deste modo se oferece, logo desde o princípio, uma síntese do caminho da fé: o Deus que chamou Abraão e quis chamar-Se seu Deus, o Deus que revelou o seu nome a Moisés, o Deus que, ao entregar-nos o seu Filho, nos revelou plenamente o mistério do seu Nome, dá à pessoa baptizada uma nova identidade filial. Desta forma, se evidencia o sentido da imersão na água que se realiza no Baptismo: a água é, simultaneamente, símbolo de morte, que nos convida a passar pela conversão do « eu » tendo em vista a sua abertura a um « Eu » maior, e símbolo de vida, do ventre onde renascemos para seguir Cristo na sua nova existência. Deste modo, através da imersão na água, o Baptismo fala-nos da estrutura encarnada da fé. A acção de Cristo toca-nos na nossa realidade pessoal, transformando-nos radicalmente, tornando-nos filhos adoptivos de Deus, participantes da natureza divina; e assim modifica todas as nossas relações, a nossa situação concreta na terra e no universo, abrindo-as à própria vida de comunhão d’Ele. Este dinamismo de transformação próprio do Baptismo ajuda-nos a perceber a importância do catecumenato, que hoje — mesmo em sociedades de antigas raízes cristãs, onde um número crescente de adultos se aproxima do sacramento baptismal — se reveste de singular relevância para a nova evangelização. É o itinerário de preparação para o Baptismo, para a transformação da vida inteira em Cristo.

Para compreender a ligação entre o Baptismo e a fé, pode ajudar-nos a recordação de um texto do profeta Isaías, que já aparece associado com o Baptismo na literatura cristã antiga: « Terá o seu refúgio em rochas elevadas, terá (…) água em abundância » (Is 33, 16).[37] Resgatado da morte pela água, o baptizado pode manter-se de pé sobre « rochas elevadas », porque encontrou a solidez à qual confiar-se; e, assim, a água de morte transformou-se em água de vida. O texto grego descrevia-a como água pistòs, água « fiel »: a água do Baptismo é fiel, podendo confiar-nos a ela porque a sua corrente entra na dinâmica de amor de Jesus, fonte de segurança para o nosso caminho na vida.

43. A estrutura do Baptismo, a sua configuração como renascimento no qual recebemos um nome novo e uma vida nova, ajuda-nos a compreender o sentido e a importância do Baptismo das crianças. Uma criança não é capaz de um acto livre que acolha a fé: ainda não a pode confessar sozinha e, por isso mesmo, é confessada pelos seus pais e pelos padrinhos em nome dela. A fé é vivida no âmbito da comunidade da Igreja, insere-se num « nós » comum. Assim, a criança pode ser sustentada por outros, pelos seus pais e padrinhos, e pode ser acolhida na fé deles que é a fé da Igreja, simbolizada pela luz que o pai toma do círio na liturgia baptismal. Esta estrutura do Baptismo põe em evidência a importância da sinergia entre a Igreja e a família na transmissão da fé. Os pais são chamados — como diz Santo Agostinho — não só a gerar os filhos para a vida, mas a levá-los a Deus, para que sejam, através do Baptismo, regenerados como filhos de Deus, recebam o dom da fé.[38] Assim, juntamente com a vida, é-lhes dada a orientação fundamental da existência e a segurança de um bom futuro; orientação esta, que será ulteriormente corroborada no sacramento da Confirmação com o selo indelével do Espírito Santo.

44. A natureza sacramental da fé encontra a sua máxima expressão na Eucaristia. Esta é alimento precioso da fé, encontro com Cristo presente de maneira real no seu acto supremo de amor: o dom de Si mesmo que gera vida. Na Eucaristia, temos o cruzamento dos dois eixos sobre os quais a fé percorre o seu caminho. Por um lado, o eixo da história: a Eucaristia é acto de memória, actualização do mistério, em que o passado, como um evento de morte e ressurreição, mostra a sua capacidade de se abrir ao futuro, de antecipar a plenitude final; no-lo recorda a liturgia com o seu hodie, o « hoje » dos mistérios da salvação. Por outro lado, encontra-se aqui também o eixo que conduz do mundo visível ao invisível: na Eucaristia, aprendemos a ver a profundidade do real. O pão e o vinho transformam-se no Corpo e Sangue de Cristo, que Se faz presente no seu caminho pascal para o Pai: este movimento introduz-nos, corpo e alma, no movimento de toda a criação para a sua plenitude em Deus.

45. Na celebração dos sacramentos, a Igreja transmite a sua memória, particularmente com a profissão de fé. Nesta, não se trata tanto de prestar assentimento a um conjunto de verdades abstractas, como sobretudo fazer a vida toda entrar na comunhão plena com o Deus Vivo. Podemos dizer que, no Credo, o fiel é convidado a entrar no mistério que professa e a deixar-se transformar por aquilo que confessa. Para compreender o sentido desta afirmação, pensemos em primeiro lugar no conteúdo do Credo. Este tem uma estrutura trinitária: o Pai e o Filho unem-Se no Espírito de amor. Deste modo o crente afirma que o centro do ser, o segredo mais profundo de todas as coisas é a comunhão divina. Além disso, o Credo contém uma confissão cristológica: repassam-se os mistérios da vida de Jesus até à sua morte, ressurreição e ascensão ao Céu, na esperança da sua vinda final na glória. E, consequentemente, afirma-se que este Deus-comunhão, permuta de amor entre o Pai e o Filho no Espírito, é capaz de abraçar a história do homem, de introduzi-lo no seu dinamismo de comunhão, que tem, no Pai, a sua origem e meta final. Aquele que confessa a fé sente-se implicado na verdade que confessa; não pode pronunciar, com verdade, as palavras do Credo, sem ser por isso mesmo transformado, sem mergulhar na história de amor que o abraça, que dilata o seu ser tornando-o parte de uma grande comunhão, do sujeito último que pronuncia o Credo: a Igreja. Todas as verdades, em que cremos, afirmam o mistério da vida nova da fé como caminho de comunhão com o Deus Vivo.

Fé, oração e Decálogo

46. Há mais dois elementos que são essenciais na transmissão fiel da memória da Igreja. O primeiro é a Oração do Senhor, o Pai Nosso; nela, o cristão aprende a partilhar a própria experiência espiritual de Cristo e começa a ver com os olhos d’Ele. A partir d’Aquele que é Luz da Luz, do Filho Unigénito do Pai, também nós conhecemos a Deus e podemos inflamar outros no desejo de se aproximarem d’Ele.

Igualmente importante é ainda a ligação entre a fé e o Decálogo. Dissemos já que a fé se apresenta como um caminho, uma estrada a percorrer, aberta pelo encontro com o Deus vivo; por isso, à luz da fé, da entrega total ao Deus que salva, o Decálogo adquire a sua verdade mais profunda, contida nas palavras que introduzem os Dez Mandamentos: « Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fiz sair da terra do Egipto » (Ex 20, 2). O Decálogo não é um conjunto de preceitos negativos, mas de indicações concretas para sair do deserto do « eu » auto-referencial, fechado em si mesmo, e entrar em diálogo com Deus, deixando-se abraçar pela sua misericórdia a fim de a irradiar. Deste modo, a fé confessa o amor de Deus, origem e sustentáculo de tudo, deixa-se mover por este amor para caminhar rumo à plenitude da comunhão com Deus. O Decálogo aparece como o caminho da gratidão, da resposta de amor, que é possível porque, na fé, nos abrimos à experiência do amor de Deus que nos transforma. E este caminho recebe uma luz nova de tudo aquilo que Jesus ensina no Sermão da Montanha (cf. Mt 5 - 7).

Toquei assim os quatro elementos que resumem o tesouro de memória que a Igreja transmite: a confissão de fé, a celebração dos sacramentos, o caminho do Decálogo, a oração. À volta deles se estruturou tradicionalmente a catequese da Igreja, como se pode ver no Catecismo da Igreja Católica, instrumento fundamental para aquele acto com que a Igreja comunica o conteúdo inteiro da fé, « tudo aquilo que ela é e tudo quanto acredita ».[39]

A unidade e a integridade da fé

47. A unidade da Igreja, no tempo e no espaço, está ligada com a unidade da fé: « Há um só Corpo e um só Espírito, (...) uma só fé » (Ef 4, 4-5). Hoje poderá parecer realizável a união dos homens com base num compromisso comum, na amizade, na partilha da mesma sorte com uma meta comum; mas sentimos muita dificuldade em conceber uma unidade na mesma verdade; parece-nos que uma união do género se oporia à liberdade do pensamento e à autonomia do sujeito. Pelo contrário, a experiência do amor diz-nos que é possível termos uma visão comum precisamente no amor: neste, aprendemos a ver a realidade com os olhos do outro e isto, longe de nos empobrecer, enriquece o nosso olhar. O amor verdadeiro, à medida do amor divino, exige a verdade e, no olhar comum da verdade que é Jesus Cristo, torna-se firme e profundo. Esta é também a alegria da fé: a unidade de visão num só corpo e num só espírito. Neste sentido, São Leão Magno podia afirmar: « Se a fé não é una, não é fé ».[40]

Qual é o segredo desta unidade? A fé é una, em primeiro lugar, pela unidade de Deus conhecido e confessado. Todos os artigos de fé se referem a Ele, são caminhos para conhecer o seu ser e o seu agir; por isso, possuem uma unidade superior a tudo quanto possamos construir com o nosso pensamento, possuem a unidade que nos enriquece, porque se comunica a nós e nos torna um.

Depois, a fé é una, porque se dirige ao único Senhor, à vida de Jesus, à história concreta que Ele partilha connosco. Santo Ireneu de Lião deixou isto claro, contrapondo-o aos hereges gnósticos. Estes sustentavam a existência de dois tipos de fé: uma fé rude, a fé dos simples, imperfeita, que se mantinha ao nível da carne de Cristo e da contemplação dos seus mistérios; e outro tipo de fé mais profunda e perfeita, a fé verdadeira reservada para um círculo restrito de iniciados, que se elevava com o intelecto para além da carne de Jesus rumo aos mistérios da divindade desconhecida. Contra esta pretensão, que ainda em nossos dias continua a ter o seu encanto e os seus seguidores, Santo Ireneu reafirma que a fé é uma só, porque passa sempre pelo ponto concreto da encarnação, sem nunca superar a carne e a história de Cristo, dado que Deus Se quis revelar plenamente nela. É por isso que não há diferença, na fé, entre « aquele que é capaz de falar dela mais tempo » e « aquele que fala pouco », entre aquele que é mais dotado e quem se mostra menos capaz: nem o primeiro pode ampliar a fé, nem o segundo diminuí-la.[41]

Por último, a fé é una, porque é partilhada por toda a Igreja, que é um só corpo e um só Espírito: na comunhão do único sujeito que é a Igreja, recebemos um olhar comum. Confessando a mesma fé, apoiamo-nos sobre a mesma rocha, somos transformados pelo mesmo Espírito de amor, irradiamos uma única luz e temos um único olhar para penetrar na realidade.

48. Dado que a fé é uma só, deve-se confessar em toda a sua pureza e integridade. Precisamente porque todos os artigos da fé estão unitariamente ligados, negar um deles — mesmo dos que possam parecer menos importantes — equivale a danificar o todo. Cada época pode encontrar pontos da fé mais fáceis ou mais difíceis de aceitar; por isso, é importante vigiar para que se transmita todo o depósito da fé (cf. 1 Tm 6, 20) e para que se insista oportunamente sobre todos os aspectos da confissão de fé. De facto, visto que a unidade da fé é a unidade da Igreja, tirar algo à fé é fazê-lo à verdade da comunhão. Os Padres descreveram a fé como um corpo, o corpo da verdade, com diversos membros, analogamente ao que se passa no corpo de Cristo com o seu prolongamento na Igreja.[42] A integridade da fé foi associada também com a imagem da Igreja virgem, com o seu amor esponsal fiel a Cristo: danificar a fé significa danificar a comunhão com o Senhor.[43] A unidade da fé é, por conseguinte, a de um organismo vivo, como bem evidenciou o Beato John Henry Newman, quando enumera, entre as notas características para distinguir a continuidade da doutrina no tempo, o seu poder de assimilar em si tudo o que encontra, nos diversos âmbitos em que se torna presente, nas diversas culturas que encontra,[44] tudo purificando e levando à sua melhor expressão. É assim que a fé se mostra universal, católica, porque a sua luz cresce para iluminar todo o universo, toda a história.

49. Como serviço à unidade da fé e à sua transmissão íntegra, o Senhor deu à Igreja o dom da sucessão apostólica. Por seu intermédio, fica garantida a continuidade da memória da Igreja, e é possível beber, com certeza, na fonte pura donde surge a fé; assim a garantia da ligação com a origem é-nos dada por pessoas vivas, o que equivale à fé viva que a Igreja transmite. Esta fé viva assenta sobre a fidelidade das testemunhas que foram escolhidas pelo Senhor para tal tarefa; por isso, o magistério fala sempre em obediência à Palavra originária, sobre a qual se baseia a fé, e é fiável porque se entrega à Palavra que escuta, guarda e expõe.[45] No discurso de despedida aos anciãos de Éfeso, em Mileto, referido por São Lucas nos Actos dos Apóstolos, São Paulo atesta que cumpriu o encargo, que lhe foi confiado pelo Senhor, de lhes anunciar toda a vontade de Deus (cf. Act 20, 27); é graças ao magistério da Igreja que nos pode chegar, íntegra, esta vontade e, com ela, a alegria de a podermos cumprir plenamente.

CAPÍTULO IV

DEUS PREPARA
PARA ELES UMA CIDADE
(cf. Heb 11, 16)

A fé e o bem comum

50. Ao apresentar a história dos patriarcas e dos justos do Antigo Testamento, a Carta aos Hebreus põe em relevo um aspecto essencial da sua fé; esta não se apresenta apenas como um caminho, mas também como edificação, preparação de um lugar onde os homens possam habitar uns com os outros. O primeiro construtor é Noé, que, na arca, consegue salvar a sua família (cf. Heb 11, 7). Depois aparece Abraão, de quem se diz que, pela fé, habitara em tendas, esperando a cidade de alicerces firmes (cf. Heb 11, 9-10). Vemos assim surgir, relacionada com a fé, uma nova fiabilidade, uma nova solidez, que só Deus pode dar. Se o homem de fé assenta sobre o Deus-Amen, o Deus fiel (cf. Is 65, 16), tornando-se assim firme ele mesmo, podemos acrescentar que a firmeza da fé se refere também à cidade que Deus está a preparar para o homem. A fé revela quão firmes podem ser os vínculos entre os homens, quando Deus Se torna presente no meio deles. Não evoca apenas uma solidez interior, uma convicção firme do crente; a fé ilumina também as relações entre os homens, porque nasce do amor e segue a dinâmica do amor de Deus. O Deus fiável dá aos homens uma cidade fiável.

51. Devido precisamente à sua ligação com o amor (cf. Gl 5, 6), a luz da fé coloca-se ao serviço concreto da justiça, do direito e da paz. A fé nasce do encontro com o amor gerador de Deus que mostra o sentido e a bondade da nossa vida; esta é iluminada na medida em que entra no dinamismo aberto por este amor, isto é, enquanto se torna caminho e exercício para a plenitude do amor. A luz da fé é capaz de valorizar a riqueza das relações humanas, a sua capacidade de perdurarem, serem fiáveis, enriquecerem a vida comum. A fé não afasta do mundo, nem é alheia ao esforço concreto dos nossos contemporâneos. Sem um amor fiável, nada poderia manter verdadeiramente unidos os homens: a unidade entre eles seria concebível apenas enquanto fundada sobre a utilidade, a conjugação dos interesses, o medo, mas não sobre a beleza de viverem juntos, nem sobre a alegria que a simples presença do outro pode gerar. A fé faz compreender a arquitectura das relações humanas, porque identifica o seu fundamento último e destino definitivo em Deus, no seu amor, e assim ilumina a arte da sua construção, tornando-se um serviço ao bem comum. Por isso, a fé é um bem para todos, um bem comum: a sua luz não ilumina apenas o âmbito da Igreja nem serve somente para construir uma cidade eterna no além, mas ajuda também a construir as nossas sociedades de modo que caminhem para um futuro de esperança. A Carta aos Hebreus oferece um exemplo disto mesmo, ao nomear entre os homens de fé Samuel e David, a quem a fé permitiu « exercerem a justiça » (11, 33). A expressão refere-se aqui à sua justiça no governar, àquela sabedoria que traz a paz ao povo (cf. 1 Sm 12, 3-5; 2 Sm 8, 15). As mãos da fé levantam-se para o céu, mas fazem-no ao mesmo tempo que edificam, na caridade, uma cidade construída sobre relações que têm como alicerce o amor de Deus.

A fé e a família

52. No caminho de Abraão para a cidade futura, a Carta aos Hebreus alude à bênção que se transmite dos pais aos filhos (cf. 11, 20-21). O primeiro âmbito da cidade dos homens iluminado pela fé é a família; penso, antes de mais nada, na união estável do homem e da mulher no matrimónio. Tal união nasce do seu amor, sinal e presença do amor de Deus, nasce do reconhecimento e aceitação do bem que é a diferença sexual, em virtude da qual os cônjuges se podem unir numa só carne (cf. Gn 2, 24) e são capazes de gerar uma nova vida, manifestação da bondade do Criador, da sua sabedoria e do seu desígnio de amor. Fundados sobre este amor, homem e mulher podem prometer-se amor mútuo com um gesto que compromete a vida inteira e que lembra muitos traços da fé: prometer um amor que dure para sempre é possível quando se descobre um desígnio maior que os próprios projectos, que nos sustenta e permite doar o futuro inteiro à pessoa amada. Depois, a fé pode ajudar a individuar em toda a sua profundidade e riqueza a geração dos filhos, porque faz reconhecer nela o amor criador que nos dá e nos entrega o mistério de uma nova pessoa; foi assim que Sara, pela sua fé, se tornou mãe, apoiando-se na fidelidade de Deus à sua promessa (cf. Heb 11, 11).

53. Em família, a fé acompanha todas as idades da vida, a começar pela infância: as crianças aprendem a confiar no amor de seus pais. Por isso, é importante que os pais cultivem práticas de fé comuns na família, que acompanhem o amadurecimento da fé dos filhos. Sobretudo os jovens, que atravessam uma idade da vida tão complexa, rica e importante para a fé, devem sentir a proximidade e a atenção da família e da comunidade eclesial no seu caminho de crescimento da fé. Todos vimos como, nas Jornadas Mundiais da Juventude, os jovens mostram a alegria da fé, o compromisso de viver uma fé cada vez mais sólida e generosa. Os jovens têm o desejo de uma vida grande; o encontro com Cristo, o deixar-se conquistar e guiar pelo seu amor alarga o horizonte da existência, dá-lhe uma esperança firme que não desilude. A fé não é um refúgio para gente sem coragem, mas a dilatação da vida: faz descobrir uma grande chamada — a vocação ao amor — e assegura que este amor é fiável, que vale a pena entregar-se a ele, porque o seu fundamento se encontra na fidelidade de Deus, que é mais forte do que toda a nossa fragilidade.

Uma luz para a vida em sociedade

54. Assimilada e aprofundada em família, a fé torna-se luz para iluminar todas as relações sociais. Como experiência da paternidade e da misericórdia de Deus, dilata-se depois em caminho fraterno. Na Idade Moderna, procurou-se construir a fraternidade universal entre os homens, baseando-se na sua igualdade; mas, pouco a pouco, fomos compreendendo que esta fraternidade, privada do referimento a um Pai comum como seu fundamento último, não consegue subsistir; por isso, é necessário voltar à verdadeira raiz da fraternidade. Desde o seu início, a história de fé foi uma história de fraternidade, embora não desprovida de conflitos. Deus chama Abraão para sair da sua terra, prometendo fazer dele uma única e grande nação, um grande povo, sobre o qual repousa a Bênção divina (cf. Gn 12, 1-3). À medida que a história da salvação avança, o homem descobre que Deus quer fazer a todos participar como irmãos da única bênção, que encontra a sua plenitude em Jesus, para que todos se tornem um só. O amor inexaurível do Pai é-nos comunicado em Jesus, também através da presença do irmão. A fé ensina-nos a ver que, em cada homem, há uma bênção para mim, que a luz do rosto de Deus me ilumina através do rosto do irmão.

Quantos benefícios trouxe o olhar da fé cristã à cidade dos homens para a sua vida em comum! Graças à fé, compreendemos a dignidade única de cada pessoa, que não era tão evidente no mundo antigo. No século II, o pagão Celso censurava os cristãos por algo que lhe parecia uma ilusão e um engano: pensar que Deus tivesse criado o mundo para o homem, colocando-o no vértice do universo inteiro. « Porquê pretender que [a verdura] cresça para os homens, em vez de crescer para os mais selvagens dos animais sem razão? »[46] « Se olhássemos a terra do alto do céu, que diferença se nos ofereceria entre as nossas actividades e as das formigas e das abelhas? »[47] No centro da fé bíblica, há o amor de Deus, o seu cuidado concreto por cada pessoa, o seu desejo de salvação que abraça toda a humanidade e a criação inteira e que atinge o clímax na encarnação, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Quando se obscurece esta realidade, falta o critério para individuar o que torna preciosa e única a vida do homem; e este perde o seu lugar no universo, extravia-se na natureza, renunciando à própria responsabilidade moral, ou então pretende ser árbitro absoluto, arrogando-se um poder de manipulação sem limites.

55. Além disso a fé, ao revelar-nos o amor de Deus Criador, faz-nos olhar com maior respeito para a natureza, fazendo-nos reconhecer nela uma gramática escrita por Ele e uma habitação que nos foi confiada para ser cultivada e guardada; ajuda-nos a encontrar modelos de progresso, que não se baseiem apenas na utilidade e no lucro mas considerem a criação como dom, de que todos somos devedores; ensina-nos a individuar formas justas de governo, reconhecendo que a autoridade vem de Deus para estar ao serviço do bem comum. A fé afirma também a possibilidade do perdão, que muitas vezes requer tempo, canseira, paciência e empenho; um perdão possível quando se descobre que o bem é sempre mais originário e mais forte que o mal, que a palavra com que Deus afirma a nossa vida é mais profunda do que todas as nossas negações. Aliás, mesmo dum ponto de vista simplesmente antropológico, a unidade é superior ao conflito; devemos preocupar-nos também com o conflito, mas vivendo-o de tal modo que nos leve a resolvê-lo, a superá-lo, como elo duma cadeia, num avanço para a unidade.

Quando a fé esmorece, há o risco de esmorecerem também os fundamentos do viver, como advertia o poeta Thomas Sterls Eliot: « Precisais porventura que se vos diga que até aqueles modestos sucessos / que vos permitem ser orgulhosos de uma sociedade educada / dificilmente sobreviveriam à fé, a que devem o seu significado? »[48] Se tiramos a fé em Deus das nossas cidades, enfraquecer-se-á a confiança entre nós, apenas o medo nos manterá unidos, e a estabilidade ficará ameaçada. Afirma a Carta aos Hebreus: « Deus não Se envergonha de ser chamado o `seu Deus`, porque preparou para eles uma cidade » (Heb 11, 16). A expressão « não se envergonha » tem conotado um reconhecimento público: pretende-se afirmar que Deus, com o seu agir concreto, confessa publicamente a sua presença entre nós, o seu desejo de tornar firmes as relações entre os homens. Porventura vamos ser nós a envergonhar-nos de chamar a Deus « o nosso Deus »? Seremos por acaso nós a recusar-nos a confessá-Lo como tal na nossa vida pública, a propor a grandeza da vida comum que Ele torna possível? A fé ilumina a vida social: possui uma luz criadora para cada momento novo da história, porque coloca todos os acontecimentos em relação com a origem e o destino de tudo no Pai que nos ama.

Uma força consoladora no sofrimento

56. São Paulo, falando aos cristãos de Corinto das suas tribulações e sofrimentos, coloca a sua fé em relação com a pregação do Evangelho. De facto, diz que nele se cumpre esta passagem da Escritura: « Acreditei e por isso falei » (2 Cor 4, 13). O Apóstolo refere-se a uma frase do Salmo 116, onde o salmista exclama: « Eu tinha confiança, mesmo quando disse: `A minha aflição é muito grande!` » (v. 10). Falar da fé comporta frequentemente falar também de provas dolorosas, mas é precisamente nelas que São Paulo vê o anúncio mais convincente do Evangelho, porque é na fraqueza e no sofrimento que sobressai e se descobre o poder de Deus que supera a nossa fraqueza e o nosso sofrimento. O próprio Apóstolo se encontra numa situação de morte que redunda em vida para os cristãos (cf. 2 Cor 4, 7-12). Na hora da prova, a fé ilumina-nos; e é precisamente no sofrimento e na fraqueza que se torna claro como « não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor » (2 Cor 4, 5). O capítulo 11 da Carta aos Hebreus termina com a referência a quantos sofreram pela fé, entre os quais ocupa um lugar particular Moisés que tomou sobre si a humilhação de Cristo (cf. vv. 26.35-38). O cristão sabe que o sofrimento não pode ser eliminado, mas pode adquirir um sentido: pode tornar-se acto de amor, entrega nas mãos de Deus que não nos abandona e, deste modo, ser uma etapa de crescimento na fé e no amor. Contemplando a união de Cristo com o Pai, mesmo no momento de maior sofrimento na cruz (cf. Mc 15, 34), o cristão aprende a participar no olhar próprio de Jesus; até a morte fica iluminada, podendo ser vivida como a última chamada da fé, o último « Sai da tua terra » (cf. Gn 12, 1), o último « Vem! » pronunciado pelo Pai, a quem nos entregamos com a confiança de que Ele nos tornará firmes também na passagem definitiva.

57. A luz da fé não nos faz esquecer os sofrimentos do mundo. Os que sofrem foram mediadores de luz para tantos homens e mulheres de fé; tal foi o leproso para São Francisco de Assis, ou os pobres para a Beata Teresa de Calcutá. Compreenderam o mistério que há neles; aproximando-se deles, certamente não cancelaram todos os seus sofrimentos, nem puderam explicar todo o mal. A fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho. Ao homem que sofre, Deus não dá um raciocínio que explique tudo, mas oferece a sua resposta sob a forma duma presença que o acompanha, duma história de bem que se une a cada história de sofrimento para nela abrir uma brecha de luz. Em Cristo, o próprio Deus quis partilhar connosco esta estrada e oferecer-nos o seu olhar para nela vermos a luz. Cristo é aquele que, tendo suportado a dor, Se tornou « autor e consumador da fé » (Heb 12, 2).

O sofrimento recorda-nos que o serviço da fé ao bem comum é sempre serviço de esperança que nos faz olhar em frente, sabendo que só a partir de Deus, do futuro que vem de Jesus ressuscitado, é que a nossa sociedade pode encontrar alicerces sólidos e duradouros. Neste sentido, a fé está unida à esperança, porque, embora a nossa morada aqui na terra se vá destruindo, há uma habitação eterna que Deus já inaugurou em Cristo, no seu corpo (cf. 2 Cor 4, 16 — 5, 5). Assim, o dinamismo de fé, esperança e caridade (cf. 1 Ts 1, 3; 1 Cor 13, 13) faz-nos abraçar as preocupações de todos os homens, no nosso caminho rumo àquela cidade, « cujo arquitecto e construtor é o próprio Deus » (Heb 11, 10), porque « a esperança não engana » (Rm 5, 5).

Unida à fé e à caridade, a esperança projecta-nos para um futuro certo, que se coloca numa perspectiva diferente relativamente às propostas ilusórias dos ídolos do mundo, mas que dá novo impulso e nova força à vida de todos os dias. Não deixemos que nos roubem a esperança, nem permitamos que esta seja anulada por soluções e propostas imediatas que nos bloqueiam no caminho, que « fragmentam » o tempo transformando-o em espaço. O tempo é sempre superior ao espaço: o espaço cristaliza os processos, ao passo que o tempo projecta para o futuro e impele a caminhar na esperança.

FELIZ DAQUELA QUE ACREDITOU
(cf. Lc 1, 45)

58. Na parábola do semeador, São Lucas refere estas palavras com que o Senhor explica o significado da « terra boa »: « São aqueles que, tendo ouvido a palavra com um coração bom e virtuoso, conservam-na e dão fruto com a sua perseverança » (Lc 8, 15). No contexto do Evangelho de Lucas, a menção do coração bom e virtuoso, em referência à Palavra ouvida e conservada, pode constituir um retrato implícito da fé da Virgem Maria; o próprio evangelista nos fala da memória de Maria, dizendo que conservava no coração tudo aquilo que ouvia e via, de modo que a Palavra produzisse fruto na sua vida. A Mãe do Senhor é ícone perfeito da fé, como dirá Santa Isabel: « Feliz de ti que acreditaste » (Lc 1, 45).

Em Maria, Filha de Sião, tem cumprimento a longa história de fé do Antigo Testamento, com a narração de tantas mulheres fiéis a começar por Sara; mulheres que eram, juntamente com os Patriarcas, o lugar onde a promessa de Deus se cumpria e a vida nova desabrochava. Na plenitude dos tempos, a Palavra de Deus dirigiu-se a Maria, e Ela acolheu-a com todo o seu ser, no seu coração, para que n’Ela tomasse carne e nascesse como luz para os homens. O mártir São Justino, na obra Diálogo com Trifão, tem uma expressão significativa ao dizer que Maria, quando aceitou a mensagem do Anjo, concebeu « fé e alegria ».[49] De facto, na Mãe de Jesus, a fé mostrou-se cheia de fruto e, quando a nossa vida espiritual dá fruto, enchemo-nos de alegria, que é o sinal mais claro da grandeza da fé. Na sua vida, Maria realizou a peregrinação da fé seguindo o seu Filho.[50] Assim, em Maria, o caminho de fé do Antigo Testamento foi assumido no seguimento de Jesus e deixa-se transformar por Ele, entrando no olhar próprio do Filho de Deus encarnado.

59. Podemos dizer que, na Bem-aventurada Virgem Maria, se cumpre aquilo em que insisti anteriormente, isto é, que o crente se envolve todo na sua confissão de fé. Pelo seu vínculo com Jesus, Maria está intimamente associada com aquilo que acreditamos. Na concepção virginal de Maria, temos um sinal claro da filiação divina de Cristo: a origem eterna de Cristo está no Pai — Ele é o Filho em sentido total e único — e por isso nasce, no tempo, sem intervenção do homem. Sendo Filho, Jesus pode trazer ao mundo um novo início e uma nova luz, a plenitude do amor fiel de Deus que Se entrega aos homens. Por outro lado, a verdadeira maternidade de Maria garantiu, ao Filho de Deus, uma verdadeira história humana, uma verdadeira carne na qual morrerá na cruz e ressuscitará dos mortos. Maria acompanhá-Lo-á até à cruz (cf. Jo 19, 25), donde a sua maternidade se estenderá a todo o discípulo de seu Filho (cf. Jo 19, 26-27). Estará presente também no Cenáculo, depois da ressurreição e ascensão de Jesus, para implorar com os Apóstolos o dom do Espírito (cf. Act 1, 14). O movimento de amor entre o Pai e o Filho no Espírito percorreu a nossa história; Cristo atrai-nos a Si para nos poder salvar (cf. Jo 12, 32). No centro da fé, encontra-se a confissão de Jesus, Filho de Deus, nascido de mulher, que nos introduz, pelo dom do Espírito Santo, na filiação adoptiva (cf. Gl 4, 4-6).

60. A Maria, Mãe da Igreja e Mãe da nossa fé, nos dirigimos, rezando-Lhe:

Ajudai, ó Mãe, a nossa fé.

Abri o nosso ouvido à Palavra, para reconhecermos a voz de Deus e a sua chamada.

Despertai em nós o desejo de seguir os seus passos, saindo da nossa terra e acolhendo a sua promessa.

Ajudai-nos a deixar-nos tocar pelo seu amor, para podermos tocá-Lo com a fé.

Ajudai-nos a confiar-nos plenamente a Ele, a crer no seu amor, sobretudo nos momentos de tribulação e cruz, quando a nossa fé é chamada a amadurecer.

Semeai, na nossa fé, a alegria do Ressuscitado.

Recordai-nos que quem crê nunca está sozinho.

Ensinai-nos a ver com os olhos de Jesus, para que Ele seja luz no nosso caminho. E que esta luz da fé cresça sempre em nós até chegar aquele dia sem ocaso que é o próprio Cristo, vosso Filho, nosso Senhor.

Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 29 de Junho, solenidade dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, do ano 2013, primeiro de Pontificado.

FRANCISCUS

  CRISE DO COMPROMISSO COMUNITÁRIO

Por Dom Vilson Dias de Oliveira, DC

(Cap. II da Exortação Apostólica “Evangellii Gaudium”)

1.    CRISE DO COMPROMISSO COMUNITÁRIO

Para se entender “a crise do compromisso comunitário” é preciso analisar alguns aspectos de nosso tempo. Os estudiosos têm usado a expressão “mudança de época” para nos alertar que é mais profunda do que simplesmente algumas transformações culturais; a mudança de época tange as estruturas sociais, os critérios de julgamento, os valores que permeiam nossas relações, as formas do pensamento, a maneira como compreendemos o mundo, a vida, a economia, a sociedade. É uma mudança de paradigma, as respostas que tínhamos para as questões que nos intrigavam não servem mais. Não se admite que haja uma única resposta para os problemas, serão sempre “respostas”, no plural, que variam conforme o ponto de vista do autor, de suas escolhas ideológicas, seus interesses. Cada um terá a “sua” verdade, a “sua” interpretação dos fatos, o “seu” pensamento sobre os quais ninguém pode confrontar, descredenciar. É direito adquirido. “Eu penso assim e ponto!”O papa Bento XVI já havia nos advertido a respeito do “relativismo” que tomou conta de nossas escolas, famílias, tvs, internet, comunidades…. “cada um escolhe o que lhe convêm, a resposta que mais lhe agrada…”. É a impotência da objetividade diante da avalanche do subjetivismo e da hiper valorização do indivíduo. Se cada pessoa faz suas escolhas a partir de seus interesses, do “que lhe agrada”, então é a derrocada das relações interpessoais, o “outro” só é necessário na medida em que me serve, me ajuda, me favorece. Qualquer tentativa de criar relações só funcionará na medida em que me “agradarem” ou me servirem. É uma faceta da crise da vida comunitária.

Diz o Papa Francisco na Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium”:

 “A humanidade vive, neste momento, uma viragem histórica, que podemos constatar nos progressos que se verificam em vários campos. São louváveis os sucessos que contribuem para o bem-estar das pessoas, por exemplo, no âmbito da saúde, da educação e da comunicação. Todavia não podemos esquecer que a maior parte dos homens e mulheres do nosso tempo vive o seu dia a dia precariamente, com funestas consequências. Aumentam algumas doenças. O medo e o desespero apoderam-se do coração de inúmeras pessoas, mesmo nos chamados países ricos. A alegria de viver frequentemente se desvanece; crescem a falta de respeito e a violência, a desigualdade social torna-se cada vez mais patente. É preciso lutar para viver, e muitas vezes viver com pouca dignidade. Esta mudança de época foi causada pelos enormes saltos qualitativos, quantitativos, velozes e acumulados que se verificam no progresso científico, nas inovações tecnológicas e nas suas rápidas aplicações em diversos âmbitos da natureza e da vida. Estamos na era do conhecimento e da informação, fonte de novas formas dum poder muitas vezes anônimo.” (EG 52)

  São várias as dimensões da crise comunitária, vamos olhar pelo menos três delas: a dimensão econômica, social e religiosa. Elas se implicam umas nas outras, somente a título de estudo e que as separamos:

                1. Dimensão econômica: as relações humanas estão marcadamente condicionadas pelas relações de poder econômico. Os interesse financeiros se sobrepõem aos direitos de viver, de ir e vir, de estudar, de cuidar da saúde… Subordinada ao dinheiro a vida vira mercadoria. Se uma vida não gera lucros, torna-se dispensável, descartável. Neste sentido se fala de “massas sobrantes”. É o “horror econômico”!  Com isto aumentam-se as divisões sociais, a miséria, os conflitos urbanos e a violência.

“Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras. Além disso, a dívida e os respectivos juros afastam os países das possibilidades viáveis da sua economia, e os cidadãos do seu real poder de compra. A tudo isto vem juntar-se uma corrupção ramificada e uma evasão fiscal egoísta, que assumiram dimensões mundiais. A ambição do poder e do ter não conhece limites. Neste sistema que tende a fagocitar tudo para aumentar os benefícios, qualquer realidade que seja frágil, como o meio ambiente, fica indefesa face aos interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta.” (EG 56)

 

PARA PENSAR:

 

Como catequistas,qual nossa opinião a respeito dessa economia que exclui e gera competições desumanas? Não é comum as pessoas dizerem: “amigos, amigos; negócios à parte”? O que Jesus diria disso? É possível viver num mundo do “salve-se quem puder”? O quanto tudo isto afeta nossa vida de comunidade?

O Papa Francisco, em sua exortação apostólica Evangelii Gaudium, sugere que digamos: não à essa economia de exclusão! Não à idolatria do dinheiro! Não à um dinheiro que governa em vez de servir!

            2. Dimensão social: com a globalização da economia, também globalizou-se a pobreza e a miséria. As sociedades se estratificaram ainda mais. Há cada vez menos ricos com mais dinheiro e mais pobres com menos recursos. Cria-se o fosso social. Esta desigualdade de oportunidades revela-se no mundo do trabalho, de estudo, de condições de vida. Isto gera insegurança e violência. Gasta-se mais tempo indo e vindo do trabalho e menos na convivência familiar, na educação dos filhos. O subemprego leva a ter “que se virar nos trinta” para conseguir sobreviver.  Compreende-se aqui o aliciamento do mundo das drogas que introduzem os jovens no mundo do crime com a esperança de uma vida melhor, o tráfico humano, a prostituição juvenil em troca de favores, o trabalho escravo e infantil. Os conflitos sociais aumentam à medida em que cresce a desigualdade de oportunidades. A ideologia “do ter para ser feliz” seduz também os empobrecidos, que inventam formas de se projetar: rollezinhos, baile funk…

Também aqui o Papa Francisco sugere: não à desigualdade social que gera violência!

              3. Dimensão religiosa: um mundo marcadamente desigual, violento e excludente favorece o aparecimento de “vários discursos religiosos”, com uma infinidade de ofertas e busca de fieis. Há um mercado religioso, no qual nos tornamos “uma igreja” em meio a centenas. Neste mercado oferece-se cura, milagres, salvação, enriquecimento, prosperidade…

             Diz o papa nos números 63 e 64 da “Evangelii Gaudium”:

(63) “A fé católica de muitos povos encontra-se hoje perante o desafio da proliferação de novos movimentos religiosos, alguns tendentes ao fundamentalismo e outros que parecem propor uma espiritualidade sem Deus. Isto, por um lado, é o resultado duma reação humana contra a sociedade materialista, consumista e individualista e, por outro, um aproveitamento das carências da população que vive nas periferias e zonas pobres, sobrevive no meio de grandes preocupações humanas e procura soluções imediatas para as suas necessidades. Estes movimentos religiosos, que se caracterizam pela sua penetração sutil, vêm colmar, dentro do individualismo reinante, um vazio deixado pelo racionalismo secularista. Além disso, é necessário reconhecer que, se uma parte do nosso povo batizado não sente a sua pertença à Igreja, isso deve-se também à existência de estruturas com clima pouco acolhedor nalgumas das nossas paróquias e comunidades, ou à atitude burocrática com que se dá resposta aos problemas, simples ou complexos, da vida dos nossos povos. Em muitas partes,  predomina o aspecto administrativo sobre o pastoral, bem como uma sacramentalização sem outras formas de evangelização.

 

O processo de secularização tende a reduzir a fé e a Igreja ao âmbito privado e íntimo. Além disso, com a negação de toda a transcendência, produziu-se uma crescente e deformação ética, um enfraquecimento do sentido do pecado pessoal e social e um aumento progressivo do relativismo; e tudo isso provoca uma desorientação generalizada, especialmente na fase tão vulnerável às mudanças da adolescência e juventude” (EG 64).

É claro que é preciso ressaltar o quanto, apesar de tantas críticas e ataques,a Igreja Católica é ainda uma instituição de muita credibilidade, confiável pela maioria da opinião pública sobretudo no que diz respeito à solidariedade e preocupação com os miseráveis, como medianeira em soluções de conflitos e defesa dos direitos humanos, como aquela que favorece o conhecimento através de universidade e escolas católicas.

          PARA PENSAR:

 

           Os nossos catequistas percebem essa realidade desafiadora para a vida comunitária? Quepoderíamos fazer para fortalecer nosso compromisso comunitário diante dessas forças contrárias?

1.    AS TENTAÇÕES QUE OS CATEQUISTAS PRECISAM ADQUIRIR:

São muitas qualidades que uma pessoa tem de ter para ser catequista. A seguir elenco algumas dessas características:

1.    Pessoa que fez uma experiência de Deus, encontrou e continua encontrando-o nos irmãos e nos acontecimentos da História

2.    Pessoa de fé

3.    Pessoa que busca um equilíbrio psíquico-espiritual

4.    Pessoa aberta ao novo

5.    Pessoa solidária

6.    Pessoa que busca crescer sempre, num processo contínuo de evolução

7.    Pessoa estudiosa e praticante da Palavra de Deus

8.    Pessoa que tem esperança

9.    Pessoa que gosta de gente

10.  Pessoa que respeita a cultura popular

11.  Pessoa alegre, disponível

12.  Pessoa que procura ama e vive para amar gratuitamente

13.  Pessoa que se sente parte do Corpo de Cristo

14.  Pessoa de igreja

15.  Pessoa que gosta de servir

16.  Pessoa que perdoa

17.  Pessoahonesta

18.  Mistagogo

PARA PENSAR:

Diante de uma visão tão idealizada, quais são astentações dos catequistas hoje? E como resisti-las e superá-las?

São muitas as tentações dos catequistas hoje. A seguir vou apresentar 7 tentações, não porque sejam as mais importantes, mas porque para um processo de superação deve-se começar aos poucos. Se dermos conta de 7, depois veremos outras 7 e assim por diante.

1.    Individualismo da fé.

              A preocupação com a felicidade pessoal chegou a tal ponto que as pessoas buscam atingir espaços de gratificação, de relaxamento, de conforto, de autonomia, de tranquilidade, de alívio… Dessa forma a vida espiritual boa é aquela que conduz o fiel à essa experiência gratificante. Busca-se uma religião que satisfaça essas necessidades imediatamente, que cumpra esse papel gratificador, que não seja exigente, nem comprometedora, aonde se possa receber “boas energias”, “bons fluidos”… uma religião que se torna um apêndice da vida e não compromete a pessoa, nem a leva a um encontro definitivo e profundo com Deus, com os irmãos. Uma religião light. Aqui há um declínio do fervor, uma miscelânea de doutrinas e ideias teológicas, uma confusão de identidades. Apregoa-se o crer em Deus, sem Igreja.

“A cultura midiática e alguns ambientes intelectuais transmitem às vezes, uma acentuada desconfiança quanto à mensagem da Igreja, e um certo desencanto. Em consequência disso, embora rezando, muitos agentes de pastorais desenvolvem uma espécie de complexo dei inferioridade que os leva a relativizar ou esconder a sua identidade cristã e as suas convicções. Gera-se então um círculo vicioso, porque assim não se sentem felizes com o que são nem com o que fazem, não se sentem identificados com a missão evangelizadora, e isto debilita a entrega. Acabam assim por sufocar a alegria da missão numa espécie de obsessão por serem como todos os outros e terem o que possuem os demais. Deste modo, a tarefa da evangelização torna-se forçada e dedicasse-lhe pouco esforço e um tempo muito limitado.” (EG 79)

            O universo das comunicações, com seus tantos recursos midiáticos, os ambientes intelectuais (universidades, escolas…) cooperam para aumentar uma certa desconfiança com relação ao papel da igreja, de seus representantes. Muitas vezes há um esforço para descredenciar o discurso religioso e eclesial. Em consequência disto muitos catequistas, quando enfrentam esses ambientes, sentem-se inferiorizados, envergonhados e não se encorajam para defender sua identidade. Às vezes porque não se sentem preparados, outras porque ficam confusos em meio a tantas informações. Passam assim a esconder sua identidade cristã-católica e convicções.

            Há ainda o risco de um afastamento cada vez maior entre fé e vida, como se uma realidade não implicasse na outra. O “ser catequista” não interfere na vida pessoal, não há ponto de encontro entre uma coisa e outra, assim é possível encontrarmos catequistas que não se importam com os pobres, que passam por sobre os colegas para galgar vantagens, que se deixam seduzir pelas novelas, que não rezam, que não participam das missas na comunidade, que se agarram a seguranças econômicas ou a espaços de poder e glória humana, que buscam mais a si do que a Deus. É preciso resistir a essa tentação! Não deixemos que nos roubem o entusiasmo missionário! Ou que nos separem de Cristo!

2.    Não ao desânimo egoísta

               A segunda tentação que precisamos estar atentos é o desânimo que brota do egoísmo. Hoje em dia é muito difícil encontrar pessoas para trabalharem na igreja, ninguém tem tempo! Na verdade não se quer dispor do tempo livre para realizar tarefas apostólicas, ser catequista. Há uma consciência muito grande do direito ao descanso, ao lazer, ao cuidar de si que beira ao egoísmo. As pessoas gastam a maior parte do seu tempo obsessivamente atrás de si, por isto resistem a tudo o que ameace esses espaços “sagrados” de autonomia e centralização em si, é como se a tarefa da catequese ou da evangelização, os trabalhos pastorais roubassem esse precioso tempo! Não veem essa doação como uma resposta alegre ao amor de Deus, que nos plenifica e fecunda. Este fechamento leva ao desânimo paralisador!

                   A dificuldade está na falta de uma espiritualidade que impregne a ação e a torne desejável. O cansaço não é feliz, mas tenso, desagradável, irritante. Muitas vezes a catequese é vista como obrigação, sem motivação. São várias as causas desse mal estar: idealização excessiva, irrealizável; imediatismo que desconsidera o processo histórico numa pressa em obter resultados; vaidades, desorganização, falta de planejamento, apego ao passado, falta de sensibilidade pastoral, interesses pessoais acima dos interesses comunitários, intolerância com os erros dos irmãos, excesso de ideias e burocracias que inoperantes…

 

“Assim se gera a maior ameaça, que «é o pragmatismo cinzento da vida quotidiana da Igreja, no qual aparentemente tudo procede dentro da normalidade, mas na realidade a fé vai-se deteriorando e degenerando na mesquinhez». Desenvolve-se a psicologia do túmulo, que pouco a pouco transforma os cristãos em múmias de museu. Desiludidos com a realidade, com a Igreja ou consigo mesmos, vivem constantemente tentados a apegar-se a uma tristeza melosa, sem esperança, que se apodera do coração como «o mais precioso elixir do demónio». Chamados para iluminar e comunicar vida, acabam por se deixar cativar por coisas que só geram escuridão e cansaço interior e corroem o dinamismo apostólico. Por tudo isto, permite que insista: Não deixemos que nos roubem a alegria da evangelização!” (EG 83).

É preciso dizer não ao pessimismo estéril! Resistir a esta tentação!

3.    Não ao pessimismo estéril

A terceira tentação para os catequistas é perder a força e o ânimo diante das mazelas operantes no mundo e na igreja. Coisas ruins acontecem. Muitas vezes fracassamos. Contudo isto não deve tirar nossa esperança. Aquele que crê é capaz de ver o trigo no meio do joio, a água que se transforma em vinho, a luz na escuridão.  Há os profetas da desgraça, que apregoam o fim da fé, da igreja, a morte de Deus; não podemos nos deixar levar pelas suas palavras. É preciso lembrar o que Jesus diz a S. Paulo “Basta-te a minha graça; pois é na fraqueza que a força se realiza plenamente” (2Cor 12,9). Não se trata de tapar o sol com a peneira, as dificuldades existentes devem ser enfrentadas. O mal existe, mas nossa esperança está em Deus, que não nos abandona e nos encoraja para a luta!

É preciso vencer o pessimismo! Não deixemos que nos roubem a esperança!

“Uma das tentações mais sérias que sufoca o fervor e a ousadia é a sensação de derrota que nos transforma em pessimistas lamurientos e desencantados com cara de vinagre. Ninguém pode empreender uma luta, se de antemão não está plenamente confiado no triunfo. Quem começa sem confiança, perdeu de antemão metade da batalha e enterra os seus talentos. Embora com a dolorosa consciência das próprias fraquezas, há que seguir em frente, sem se dar por vencido, e recordar o que disse o Senhor a São Paulo: «Basta-te a minha graça, porque a força manifesta-se na fraqueza» (2 Cor 12, 9). O triunfo cristão é sempre uma cruz, mas cruz que é, simultaneamente, estandarte de vitória, que se empunha com ternura batalhadora contra as investidas do mal. O mau espírito da derrota é irmão da tentação de separar prematuramente o trigo do joio, resultado de uma desconfiança ansiosa e egocêntrica” (EG 85).

4.    Não ao isolamento

            Em tempos de desconfiança, violência e individualismo, cada vez mais as pessoas se fecham. A falta de tempo, a intolerância, levam as pessoas a acreditarem no “cada um por si e Deus por todos!”. Com istovalores que são essenciais para os seguidores de Jesus, como solidariedade, amizade, compaixão, entram em desuso. O catequista deve esforçar-se para combater esse isolamento, descobrindo a mística que nasce do viver juntos, da comunidade, do mútuo apoio em horas difíceis, da experiência de fraternidade, de ser povo de Deus, peregrino….assim o catequista é aquele que faz o caminho com os outros, que vai junto com os irmãos, numa alegre e difícil travessia da vida, fazendo história comunitária.

                O isolamento quase sempre desemboca num individualismo doentio, deprimente e num uso da religião como mercadoria, remédio para as tristezas pessoais. Em nosso tempo nem sempre busca-se a religião por causa de Deus, muitas vezes é por causa egoísta e humana, simplesmente, quer-se um Deus que sirva e realize as vontades individuais.

                 Jesus ensina os catequistas a criar e manter relacionamentos novos, a enxergar em cada irmão um próximo a ser servido e amado.

“Nisto está a verdadeira cura: de fato, o modo de nos relacionarmos com os outros que, em vez de nos adoecer, nos cura é uma fraternidade mística, contemplativa, que sabe ver a grandeza sagrada do próximo, que sabe descobrir Deus em cada ser humano, que sabe tolerar as moléstias da convivência agarrando-se ao amor de Deus, que sabe abrir o coração ao amor divino para procurar a felicidade dos outros como a procura o seu Pai bom. Precisamente nesta época, inclusive onde são um «pequenino rebanho» (Lc12, 32), os discípulos do Senhor são chamados a viver como comunidade que seja sal da terra e luz do mundo (cf. Mt5, 13-16). São chamados a testemunhar, de forma sempre nova, uma pertença evangelizadora. Não deixemos que nos roubem a comunidade!” (EG 92).

                   Os catequistas devem resistir ao isolamento! Dizer sim à vida em comunidade, às relações fraternas.

5.    Não ao mundanismo espiritual

            Talvez essa seja, das tentações, a mais difícil de lidar, porque ela vem “maquiada” com cara de boa, é “lobo vestido de cordeiro!”.  Podemos vê-la quandoum grupo de catequistas se põe de guarda fiel da doutrina da igreja, dos ensinamentos de Jesus e assim julga e condena  os demais. Do alto de suas “verdades”ele analisa, classifica, aprova, exclui, condena os demais. Está sempre de vigilância, apegado a certos tradicionalismos ou seguranças a um estilo antigo de igreja, vive querendo repetir o passado, não percebe, nem aceita a ação inovadora do Espírito. Com medo do novo ele impõe os velhos esquemas. Cheio de ideias, perito em dar ordem aos demais, de dizer como deveriam ser as coisas, não se mexe, nem mexe uma “palha com a ponta de seus dedos!” Muitas vezes é rigorista, mostra-se zeloso com as coisas da Igreja, envaidece-se com suas liturgias, com os rituais, com a sabedoria da doutrina, mas esquecem-se do Evangelho! No fundo é uma busca de glória, de reconhecimento quer de si mesmo ou da Igreja, em prejuízo da mensagem de Jesus, do Evangelho! É bom lembrar: a igreja é servidora do Evangelho e não o contrário!

Quem caiu neste mundanismo olha de cima e de longe, rejeita a profecia dos irmãos, desqualifica quem o questiona, faz ressaltar constantemente os erros alheios e vive obcecado pela aparência. Circunscreveu os pontos de referência do coração ao horizonte fechado da sua imanência e dos seus interesses e, consequentemente, não aprende com os seus pecados nem está verdadeiramente aberto ao perdão. É uma tremenda corrupção, com aparências de bem. Devemos evitá-lo, pondo a Igreja em movimento de saída de si mesma, de missão centrada em Jesus Cristo, de entrega aos pobres. Deus nos livre de uma Igreja mundana sob vestes espirituais ou pastorais! Este mundanismo asfixiante cura-se saboreando o ar puro do Espírito Santo, que nos liberta de estarmos centrados em nós mesmos, escondidos numa aparência religiosa vazia de Deus. Não deixemos que nos roubem o Evangelho!” (EG 97).

6.    Não à guerra entre nós

Há no mundo muitos conflitos, países guerreando entre si, agora mesmo estamos acompanhando a questão da Ucrânia, Rússia e Estados Unidos. A guerra é um mal, é a incompetência humana, a falência do diálogo, do perdão.

“O mundo está dilacerado pelas guerras e a violência, ou ferido por um generalizado individualismo que divide os seres humanos e põe-nos uns contra os outros visando o próprio bem-estar. Em vários países, ressurgem conflitos e antigas divisões que se pensavam em parte superados. Aos cristãos de todas as comunidades do mundo, quero pedir-lhes de modo especial um testemunho de comunhão fraterna, que se torne fascinante e resplandecente. Que todos possam admirar como vos preocupais uns pelos outros, como mutuamente vos encorajais animais e ajudais: «Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 35). Foi o que Jesus, com uma intensa oração, Jesus pediu ao Pai: «Que todos sejam um só (…) em nós [para que] o mundo creia» (Jo 17, 21). Cuidado com a tentação da inveja! Estamos no mesmo barco e vamos para o mesmo porto! Peçamos a graça de nos alegrarmos com os frutos alheios, que são de todos” (EG 99)

 

Infelizmente,às vezes, esse espírito de contenda e disputa penetra a vida das comunidades cristãs. Não é raro vermos catequistas disputando atenção, competindo pelo reconhecimento de seus trabalhos, movidas pela inveja, ciúme, vaidades. Neste contexto é importante que tomemos consciência do que significa participar da Igreja, aonde todos os membros são importantes, cada um com seus dons e qualidades, que não anulam, nem ofuscam os dos demais. O mandamento do amor deve permear nossas relações e findar as guerras. Somente quem compreendeu o que significa “vede como se amam!” é que é capaz de lançar mão do perdão, do resgate do diálogo, da paciência com os erros e quedas dos outros, da libertação de se ter novas chances sendo perdoado!  Rezar por aqueles que nos ofenderam.

Resistamos às guerras e não deixemos que nos roubem o amor fraterno!

7.    Não ao clericalismo

 

O Concílio Vaticano II nos ajudou a compreender a Igreja como Povo de Deus e a resgatar o papel dos leigos na comunidade. Contudo, por falta de formação, por busca de poder, muitas vezes alguns catequistas exercem uma liderança autoritária. Por serem competentes, muitas vezes com qualidades que se sobressaem, ocupam lugares de relevância nas comunidades e, infelizmente, exercem o serviço como poder, querem que suas ideias prevaleçam, que as coisas aconteçam segundo sua determinação. Normalmente são pessoas competitivas, vaidosas e dominadoras.  É preciso voltar a Jesus e reparar na sua maneira de servir, lavando os pés. A autoridade não brota da força da dominação, mas do exemplo daqueles que amam. Quando isto não é percebido muitos se afastam da comunidade, passa-se a espelhar não o rosto de Jesus, mas do fulano ou fulana que mandam na igreja. É uma reprodução ruim dos esquemas de poder vigente no mundo e na história. A comunidade servidora não está fechada nela mesma, está disposta a sair de si e servir e transformar a sociedade.

“A configuração do sacerdote com Cristo Cabeça – isto é, como fonte principal da graça – não comporta uma exaltação que o coloque por cima dos demais. Na Igreja, as funções «não dão justificação à superioridade de uns sobre os outros». Com efeito, uma mulher, Maria, é mais importante do que os Bispos. Mesmo quando a função do sacerdócio ministerial é considerada «hierárquica», há que ter bem presente que «se ordena integralmente à santidade dos membros do corpo místico de Cristo». A sua pedra de fecho e o seu fulcro não são o poder entendido como domínio, mas a potestade de administrar o sacramento da Eucaristia; daqui deriva a sua autoridade, que é sempre um serviço ao povo. Aqui está um grande desafio para os Pastores e para os teólogos, que poderiam ajudar a reconhecer melhor o que isto implica no que se refere ao possível lugar das mulheres onde se tomam decisões importantes, nos diferentes âmbitos da Igreja” (EG 104).

No espaço comunitário e catequético os jovens, as crianças, as mulheres e os anciãos deveriam reconhecer-se, tornando-o como espaço seu de convivência, de experiência de amor desinteressado, gratuito. Neste sentido é preciso abolir qualquer tipo de ditadura e promover a inserção, a acolhida generosa de todos! Digamos não ao poder centralizador e autoritário! Busquemos a formação de lideranças democráticas, capazes de diálogo e serviço.

O Papa Francisco traz uma palavra aos jovens e sua importância na comunidade cristã, recordando a importância do seu papel e do seu engajamento nas comunidades e paróquias e na busca de caminhos novos para os mesmos:

“A pastoral juvenil, tal como estávamos habituados a desenvolvê-la, sofreu o impacto das

mudanças sociais. Nas estruturas ordinárias, os jovens habitualmente não encontram respostas para as suas preocupações, necessidades, problemas e feridas. A nós, adultos, custa-nos ouvi-los com paciência, compreender as suas preocupações ou as suas reivindicações, e aprender a falar-lhes na linguagem que eles entendem. Pela mesma razão,

as propostas educacionais não produzem os frutos esperados. A proliferação e o crescimento de associações e movimentos predominantemente juvenis podem ser interpretados como uma ação do Espírito que abre caminhos novos em sintonia com as suas expectativas e a busca de espiritualidade profunda e dum sentido mais concreto de pertença. Todavia é necessário tornar mais estável a participação destas agregações no âmbito da pastoral de conjunto da Igreja” (EG 105).

Finalmente recorda a escassez das vocações sacerdotais e religiosas em nossa igreja, recorda-nos que é preciso um grande ardor apostólico para suscitar o chamado de Cristo à muitos jovens presentes em nossas comunidades, bem como nossas orações ao Senhor da messe que envie trabalhadores à sua messe:

 

“Em muitos lugares, há escassez de vocações ao sacerdócio e à vida consagrada. Frequentemente isso se fica a dever à falta de ardor apostólico contagioso nas comunidades, pelo que estas não entusiasmam nem fascinam. Onde há vida, fervor, paixão de levar Cristo aos outros, surgem vocações genuínas. Mesmo em paróquias onde os sacerdotes não são muito disponíveis nem alegres, é a vida fraterna e fervorosa da comunidade que desperta o desejo de se consagrar inteiramente a Deus e à evangelização, especialmente se essa comunidade vivente reza insistentemente pelas vocações e tem a coragem de propor aos seus jovens um caminho de especial consagração. Por outro lado, apesar da escassez vocacional, hoje temos noção mais clara da necessidade de melhor seleção dos candidatos ao sacerdócio. Não se podem encher os seminários com qualquer tipo de motivações, e menos ainda se estas estão relacionadas com insegurança afetiva, busca de formas de poder, glória humana ou bem-estar económico” (EG 107).

 

CONCLUSÃO

 

 

                Somos muitos catequistas, no Brasil estamos do Oiapoque ao Chuí, dos rincões amazônicos, com os ribeirinhos e as comunidades indígenas, aos prédios e casas nas grandes cidades. Estamos em nossa Diocese, com suas comunidades e paróquias. Somos jovens, adultos, velhos, mulheres e homens, pobres e ricos, letrados e analfabetos, contudo temos um só desejo: anunciar o Reino de Deus a todos, testemunhar que o amor é mais forte que o ódio, que a vida vence a morte. Que esta mensagem é para todos, de todos os lugares e culturas. Por causa do Reino nós deixamos nossas casas, nossas famílias, nosso conforto; por causa do Reino nós estudamos, nos preparamos e rezamos em comunidade; por causa do Reino suportamos chuva, frio e sol, humilhações e perseguições. Por causa do Reino nós encontramos alegria em meio as tristezas, força diante do medo, luz nas trevas. Tudo por causa do Reino prometido por Jesus. Não esmorecemos, nem desistimos. Porque sabemos que Deus está conosco, caminha conosco, nos encoraja e anima. Com Ele somos corajosos, capazes de vencer todo individualismo e tentações.

“Os desafios existem para ser superados. Sejamos realistas, mas sem perder a alegria, a audácia e a dedicação cheia de esperança. Não deixemos que nos roubem a força missionária!“ (EG 109).

+ Dom Vilson Dias de Oliveira, DC

Bispo Diocesano de Limeira

 




 

Bíblia nos tempos de Rede

*Entrevista de Liliane Borges (Canção Nova) com Dom Vilson Dias de Oliveira, DC – Bispo da Diocese de Limeira, SP

 

1-Como o senhor vê a utilização das novas tecnologias para o acesso a Bíblia e seu estudo? (por exemplo, os aplicativos no celular; fóruns de debate nas redes sociais, Bíblia on-line)

As novas tecnologias são fantásticas. Elas facilitam o acesso ao texto bíblico, estimulam a leitura, abrem portas para que as pessoas possam crescer no amor a Palavra de Deus... Além dos aplicativos, dos fóruns e das bíblias on-line, creio que não podemos deixar de citar os inúmeros sites e blogs que divulgam a liturgia diária, desenhos bíblicos animados para as crianças e até mesmo aqueles sites que oferecem subsídios para a Leitura Orante da Bíblia. Sob um ponto de vista, precisamos ter certo cuidado com tantas ofertas. Sob outro ponto de vista, tudo isso é riquíssimo!

 

2- Isso popularizou mais a Bíblia?

Certamente. Nas décadas de 1950 e 1960, poucas pessoas tinham acesso ao texto completo da Bíblia. Era um livro enorme e caro! Os mais velhos lembram: na catequese tínhamos pequenos livros ilustrados que apresentavam resumos da Sagrada Escritura. Os mais ricos compravam os livros coloridos. Aos poucos, as editoras conseguiram desenvolver exemplares a um custo menor, e as tiragens foram crescendo. Mas nada que possa ser comparado aos dias de hoje. Conheço inúmeros jovens que carregam a Bíblia, o Catecismo e muitos outros documentos da Igreja em seus smartphones! Isso é fantástico.

 

3- Quais os perigos que essa sociedade vive diante de tantas possibilidades? A Bíblia pode se tornar apenas uma das inúmeras opções?

Vejamos se entendi sua pergunta. Diante de tantas possibilidades, pode existir uma grande confusão? Sim, pode. Com tantas ofertas no mercado, como saber o que realmente merece nossa atenção e o que realmente foi produzido por uma equipe honesta e competente? Quando não sabemos o que escolher, corremos o risco de não escolher coisa alguma. Outras pessoas, diante das mesmas ofertas, acreditam que nenhuma diferença existe entre elas, que é tudo a mesma coisa, que tudo tem o mesmo valor. Em todas essas circunstâncias existe um risco, um perigo. É preciso ter cuidado para acolher e promover esses serviços on-line, essas tecnologias. É preciso saber quem produz o conteúdo e quem oferece determinado serviço: se é um grupo sério, competente, em verdadeira comunhão com a Igreja. Se é um grupo disposto a servir na caridade. Sem esses cuidados, conteúdo e tecnologia perdem seus valores, deixam de ser eficazes. Não atingem os fiéis e atingem menos ainda os afastados e não-crentes.

 

4- Como o senhor avalia a utilização da Bíblia, liturgia diária, em dispositivos móveis nas missas, catequeses e outras celebrações ?

De modo geral, acredito que tudo tem sua validade. Mas é preciso levar em conta os objetivos pretendidos, o público que pretendemos alcançar, o contexto em que se está inserido. Posso tomar contato com a liturgia diária através do meu smartphone. Mas devo fazer isso antes de ir à missa, ou logo que chegar na igreja. Mas no momento em que a missa começa... No momento em que a assembleia começa a cantar, acolhendo o presidente da celebração, minha atenção deve estar voltada para aquele momento. E durante a liturgia da Palavra, devo exercitar meus ouvidos, por toda minha atenção e meu coração naquela Palavra que é proclamada. E, por sua vez, a equipe de liturgia deve ter preparado bem a celebração: bons leitores, bons salmistas, boa homilia... Na catequese, no encontro de jovens, posso usar os aplicativos para atrair a atenção da garotada, mas durante um retiro será conveniente? Não sei dizer... O ser humano se distrai facilmente, perde o foco... É preciso pensar com carinho, com cuidado...

 

5- Por fim, qual a `dica` que o senhor dá para um bom conhecimento bíblico nestes tempos?

As tecnologias facilitam o acesso, a leitura, estimulam o aprendizado. A editora Paulus, por exemplo, oferece a edição on-line da Bíblia Edição Pastoral; e, melhor ainda, eles disponibilizam uma ferramenta de busca que é perfeita para quem prepara um encontro, um texto, uma homilia... É simples e eficiente. Mas não bastam as tecnologias e as facilidades de acesso. Estudo, oração e acompanhamento são necessários e bem-vindos. Não adianta você ter o melhor carro e não saber dirigir, como não resolve ter a melhor cozinha do mundo, a mais equipada, e não saber cozinhar. Assim, é importante que as pessoas interessadas em conhecer melhor a Palavra estejam ligadas à comunidade, ao corpo da Igreja. É importante que os fiéis organizem encontros de estudo bíblicos e busquem orientação com um padre, ou com uma religiosa, diácono, seminarista ou um leigo bem preparado em teologia e em catequese. Aqueles que tiverem possibilidade devem frequentar uma escola diocesana de catequese ou de teologia, uma casa especializada em retiros espirituais, grupos especializados na Leitura Orante da Bíblia. Sem esses cuidados, tudo pode tornar-se um caminho sem orientação.

 

 

 

 

“ALEGRAI-VOS COMIGO, ENCONTREI O QUE TINHA PERDIDO”

 

Amados irmãos:

Tradicionalmente, setembro é conhecido em nossas comunidades como o mês da Bíblia. Trata-se de uma proposta para que renovemos algo que deve ser uma constante em nossas vidas e na pastoral da Igreja: o contato direto com a Palavra de Deus, a fim de que ela ilumine nossos passos de discípulos e missionários de Jesus Cristo pelos caminhos da história e sempre tendo os olhos fixos no horizonte do Reino.

Neste ano, o tema apresentado é “Discípulos Missionários a partir do Evangelho de Lucas” e o lema “Alegrai-vos comigo, encontrei o eu tinha perdido”. Trata-se de um lema muito importante, que vem nortear nosso pensamento neste período. Por isso são de grande valor todas as iniciativas que, nas comunidades, ajudem nosso povo a aprofundar seu conhecimento da Palavra e a criar maior familiaridade com a mesma, tornando-a cada vez mais presente em sua caminhada.

Olhando para o evangelho segundo Lucas na perspectiva do lema apresentado, somos impulsionados a manifestar a alegria, uma das características mais salientes do discípulo que caminha com o Ressuscitado, o Mestre. Além de lançar um olhar para todo o Evangelho segundo Lucas, centramos a reflexão no seu capítulo 15, que traz três parábolas: a ovelha perdida e encontrada, a moeda perdida e encontrada e o filho perdido e encontrado. Todas abordam o tema da alegria por encontrar o que estava perdido, mediante um contexto marcado pelo contraste entre os pecadores e publicanos com fariseus e escribas, respondendo assim a murmurações dos que faziam oposição a Jesus, sobretudo em virtude de sua convivência com os dois primeiros grupos, muitas vezes tratados de forma hostil pelos demais. Essas parábolas são, por assim dizer, o coração do Evangelho de Lucas, e estão em total sintonia com um dito sapiencial, que afirmava que o “Filho do Homem veio buscar e salvar o que estava perdido” (cf. 19,10).

Alguns elementos de grande importância são reconhecidos nessas parábolas, como a misericórdia divina, que é tão grande e atenciosa que, além de oferecer o perdão, não mede esforços e empenha-se com todos os seus recursos para encontrar o que estava partido. A primeira parábola, que reporta, por exemplo, a uma tradição veterotestamentária do rei pastor que luta para resgatar uma ovelha (1Sm 17,34-36), expressa com muita clareza esta face de Deus.

A mesma ideia continua a ser apresentada na parábola da moeda perdida e encontrada, com poucas diferenças. Aqui o que se perde não é uma ovelha de um rebanho composto por cem animais, mas um dracma, que representa 1/10 do que a mulher possuía. Ela faz de tudo, cuidadosamente, para recuperar o que perdeu. Fica evidente o grande esforço e empenho pela moeda.

A terceira parábola, mais longa, trata do filho perdido e encontrado. O foco está na atitude do pai em relação aos dois filhos. O Pai vai ao encontro do filho mais novo que, depois de gastar toda sua herança com futilidades, volta para sua casa. O pai também se dirige para o mais velho, que está incomodado com seu amor para o irmão que cometeu tantos erros. A parábola enfatiza o amor desmedido do pai, o que é expresso na ordem dada aos empregados em favor de seu filho (as vestes, o anel, o calçado...). Oxalá não nos sintamos injustiçados por sermos bons cristãos quando percebemos que Deus é assim para com todos os seus filhos(as), e não somente ou exclusivamente conosco, por sermos bons católicos, participantes e cheios de “méritos”! Jamais fechemos os olhos para não reconhecer a gratuidade do amor misericordioso de Deus.

Não pode ficar despercebida a incontida alegria nas três parábolas, ou seja, pela ovelha, pela moeda e pelo filho encontrados.  Eis a alegria de Deus. Nisto devemos também nos alegrar de modo que irradiemos este estado de espírito em forma de testemunho para os demais. Sim, pois este capítulo só pode ser compreendido à luz de todo o Evangelho de Lucas e da própria história da salvação.

Tudo se trata de uma catequese que tem por objetivo nos levar, a exemplo dos primeiros cristãos, à uma experiência com o Ressuscitado, lembrando suas palavras, suas ações e os acontecimentos em Jerusalém, pois o que agora vive é o mesmo que sofreu a paixão e morte. Não dá pra negar o “escândalo” da cruz, caso contrário teremos dificuldades em reconhecê-lo, como os discípulos do caminho de Emaús. O plano salvífico de Deus para com a humanidade é assim. Ele salva, não por nossos méritos, mas por seu amor. A alegria de Deus é a vida dos seus e, por sermos assim tão amados, podemos também nos alegrar.

Que este mês da Bíblia nos faça recordar que, no discipulado de Jesus, é preciso conhecê-lo intimamente, na comunhão com Deus e com os irmãos, o que se expressa de forma maior na celebração da Eucaristia, o “lugar” por excelência do reconhecimento de Jesus Ressuscitado, como os discípulos de Emaús, depois de ouvir sua palavra e de ver o pão partido. De certo modo esta parábola resume a obra de Lucas e nos ensina a relacionar a vida, morte e ressurreição de Jesus e ler as Escrituras à luz dos eventos pascais. Sem estabelecer estas relações, fica difícil encontrar o sentido verdadeiro destes próprios acontecimentos.

Sejamos capazes de, munidos com a Palavra de Deus, reconhecer que o Senhor verdadeiramente ressuscitou e nos resgatou quando estávamos perdidos no pecado e na morte. Deixemo-nos transformar por esta constatação, que para nós é uma certeza: Jesus vive e, por isso, nos alegremos!

 

Dom Vilson Dias de Oliveira, DC

Bispo Diocesano de Limeira/SP

 


 

RENÚNCIA DO PAPA BENTO XVI

 

Dom Vilson Dias de Oliveira, DC

Bispo Diocesano de Limeira - SP

 

Como filho e devoto da Virgem Maria, o Papa Bento XVI escolheu a manhã da segunda-feira, dia 11 de fevereiro de 2013, memória litúrgica de Nossa Senhora de Lourdes, para convocar um consistório – reunião de cardeais - e anunciar sua renúncia ao papado. O Sumo Pontífice, bem verdade, surpreendeu não só os cardeais que se encontravam no Vaticano, mas as pessoas do mundo inteiro. Contudo, às vésperas de iniciar a Quaresma, período forte na Igreja em preparação a Páscoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Santo Padre com o seu gesto, deu-nos uma lição de vida e manifestou mais uma vez, a humildade prefigurada desde o início de seu pontificado e vivenciada nesses sete anos e dez meses: “Sou um simples trabalhador da vinha do Senhor!” (afirmação feita na sua primeira aparição como Papa eleito em 19 de abril de 2005). Desse modo, o Papa Bento 16 ficará no governo da Igreja até dia 28 de fevereiro, quando, então, será convocado um conclave para eleição do seu sucessor.

O Papa Bento XVI anunciou a renúncia pessoalmente, falando em latim, entre as 11h30 e 11h40 locais (8h30 e 8h40 do horário brasileiro de verão). Com 85 anos, ele fez o surpreendente discurso consciente e afirmou não ter mais condições físicas nem espirituais para acompanhar todas as atividades da Igreja neste mundo moderno ativista e em constante transformação. “Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idôneas para exercer adequadamente o ministério de São Pedro. Estou bem consciente de que este ministério, pela sua essência espiritual, deve ser cumprido não só com as obras e com as palavras, mas também e igualmente sofrendo e rezando”, disse o Papa.

O anúncio repercutiu nos quatro cantos do mundo e foi destaque nos meios de comunicação que noticiaram o fato inédito. Há quase 600 anos um Papa não renunciava ao governo da Igreja. Bento XVI é o quarto Papa a renunciar ao cargo. Antes dele, o Papa Ponciano deixou a liderança da Igreja Católica no ano de 235. Depois vieram Celestino V, em 1294; e Gregório XII, em 1415.

Um dia antes de divulgar sua renúncia, Bento XVI fez um post em seu perfil no Twitter no domingo, no qual dizia que “somos todos pecadores”. O religioso foi o primeiro pontífice a usar as redes sociais, criando o seu perfil no Twitter em 3 de dezembro de 2012. “Devemos confiar no poder da misericórdia de Deus. Somos todos pecadores, mas Sua graça nos transforma e renova”, afirma a mensagem.

O Sumo Pontífice recebeu na quarta-feira, 13 de fevereiro, na Sala Paulo VI cerca de 10 mil fiéis e peregrinos para a Audiência Geral – o primeiro evento público depois do anúncio de sua renúncia. No início da Audiência, o Papa Bento XVI dirigiu aos presentes e foi interrompido por aplausos contínuos. Ele agradeceu a oração dos fieis.

“Agradeço a todos pelo amor e pela oração com os quais me acompanharam. Obrigado, senti quase fisicamente nesses dias para mim nada fáceis, a força da oração que o amor da Igreja, a vossa oração, me oferece. Continuem a rezar por mim, pela Igreja, pelo futuro Papa. O Senhor nos guiará”, disse o sucessor de Pedro.

O Papa Bento XVI enviou uma mensagem para o início da Quaresma e da Campanha da Fraternidade e falou sobre a importância da Igreja acolher os jovens como oportunidade de renovação frente os sinais dos tempos. “Se os jovens forem o presente, serão também o futuro. Queremos os jovens protagonistas, integrados na comunidade que os acolhe, demonstrando a confiança que a Igreja deposita em cada um deles. Isto requer guias – padres, consagrados ou leigos – que permaneçam novos por dentro, mesmo que o não sejam de idade, mas capazes de fazer caminho sem impor rumos, de empatia solidária, de dar testemunho de salvação, que a fé e o seguimento de Jesus Cristo cada dia alimentam”.

Com votos de uma Quaresma frutuosa na vida de cada brasileiro, especialmente das novas gerações, sob a proteção maternal de Nossa Senhora Aparecida, O Papa concedeu a todos uma especial Bênção Apostólica.

Porta-voz do Vaticano

                “O Papa está bem e muito sereno, não renunciou porque está doente, mas somente por conta da fragilidade decorrente do envelhecimento”, foi o que reiterou o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Padre Federico Lombardi, na coletiva da terça-feira, 12, concedida aos jornalistas um dia após o anúncio de renúncia do Santo Padre.

                Bento XVI foi recentemente submetido a uma intervenção de rotina para a substituição da bateria do marca-passo, mas isso não tem peso em sua decisão.

Padre Lombardi confirmou todo o calendário de atividades do Papa até o dia 28 de fevereiro, último dia do Pontificado de Bento XVI, com os encontros com os bispos italianos em visita `ad Limina`, com os presidentes da Romênia e da Guatemala, os Ângelus e as audiências gerais, a última destas, dia 27 de fevereiro, deverá realizar-se na Praça São Pedro em previsão de um considerável afluxo de fiéis. Não haverá a encíclica sobre a Fé.

                Padre Lombardi explicou também – como dito pelo L`Osservatore Romano – que a viagem ao México e a Cuba constituiu para Bento 16, por causa do cansaço, uma etapa de amadurecimento em relação à renúncia ao ministério, mas não uma decisão definitiva nesse sentido.

                Em seguida, o religioso jesuíta ressaltou que não haverá nenhum problema para o sucessor de Bento XVIpor causa da presença, no Vaticano, de outro Papa, embora como bispo emérito de Roma.

                Conhecemos Bento XVI como uma pessoa de discrição e rigor extremos – afirmou –, não é uma pessoa da qual se possa esperar interferências ou mesmo o mínimo incômodo para o seu sucessor. O problema não existe, embora seja uma situação nova, reconheceu. Aliás, o sucessor se sentirá apoiado pela oração, pelo amor e pela participação de uma pessoa que mais do que ninguém no mundo pode entender as preocupações de quem veio depois.

Seu irmão, Georg Ratzinger, contou aos jornais alemães que o irmão quer repouso nos seus últimos anos, e que o seu médico já o havia aconselhado a não viajar para fora da Europa.

 

O que muda na Igreja?

A Igreja é um pilar de firmeza e fé há mais de 2 mil anos e tem suportado muitas crises e atravessado muitas guerras. O Papa disse também que, no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças, é necessário vigor do corpo e do espírito, e que nos últimos meses ele sentiu que suas forças se deterioravam ao ponto de ter que reconhecer a incapacidade de cumprir o trabalho que lhe foi confiado.

Até 28 de fevereiro, o Papa Bento XVI segue no comando da Igreja Católica. Em 1º de março, todas as autoridades da cúpula da igreja serão destituídas. Começa então o período da Sé Vacante, entre a morte ou renuncia de um Papa e a escolha do sucessor. O conclave, a reunião que escolhe o Papa, deverá ser aberto ainda em março. Só os cardeais com menos de 80 anos poderão votar. Atualmente o colégio de eleitores tem 117 cardeais, entre eles cinco brasileiros.

Vai ser uma situação inédita na Era Moderna. Na prática, um ex-Papa nunca deixa de ser Papa. Portanto, o mundo moderno vai conviver com dois: um, sem poder, que se retira em clausura para meditar; e o outro que será eleito até a Páscoa, no dia 31 de março. Ele é quem vai guiar a Igreja Católica nos caminhos do Evangelho de Cristo, imersa no mundo contemporâneo.

Conclave

 

Segundo o porta-voz do Vaticano, Padre Federico Lombardi, o Conclave para escolher o novo papa começará entre 15 e 20 de março.

 

Bento XVI renunciará oficialmente ao Pontificado em 28 de fevereiro às 20h de Roma (17h de Brasília) e imediatamente terá início a Sé Vacante, por isso não se descarta que o Conclave comece em 15 de março, detalhou Lombardi.

 

A lei vaticana estabelece que o Conclave de cardeais deve começar entre 15 e 20 dias depois do início da chamada Sé Vacante, o tempo que vai desde a morte ou renúncia de um papa até a eleição do seguinte, com o objetivo de permitir que todos os cardeais do mundo compareçam a Roma.

 

Voltando ao Conclave, reiterou que o mesmo poderia ter início, se todos os cardeais já tiverem chegado ao Vaticano, antes do anunciado 15-20 de março; prazo este sucessivo ao início da sé vacante, estabelecido no caso de morte de um Pontífice: `Na Constituição se diz entre 15 e 20 dias, porém o prazo é `é de espera`, ou seja, para dar àqueles que precisassem, o tempo necessário para chegar ao Vaticano. Na eventualidade de os cardeais estarem todos aqui, se poderia interpretar a Constituição de modo diferente`.

Perguntado sobre a renúncia do Papa e sobre a nota editorial para a Rádio Vaticano em que o próprio Pe. Lombardi falou de `ato de governo do Santo Padre`,especificou:

`Porque se coloca numa perspectiva, como ele disse repetidamente, em que a Igreja segue adiante, em que a Igreja tem as suas energias. O Papa olha para a eleição de um sucessor que tenha – como ele disse - vigor no corpo e no ânimo, e uma personalidade que possa enfrentar os desafios do nosso tempo no modo adequado, o que ele sentia mais difícil com o passar do tempo e com o diminuir das forças`.

 

Novo Papa

O cardeal dom Cláudio Hummes, 78, arcebispo emérito de São Paulo disse, em entrevista para Filha de São Paulo online, que dificilmente o papa que substituirá Bento 16 mudará a forma como a Igreja lida com temas considerados polêmicos, como o uso de métodos contraceptivos, a união civil entre homossexuais e as pesquisas com células-tronco.

“A igreja não pode mudar o Evangelho que recebeu de Jesus Cristo. Ela deve procurar interpretá-lo e pôr em prática nas situações diferenciadas da história. Sabemos que hoje existem muitos desafios novos nos campos da ciência, da medicina, da biologia. São campos sobre os quais a gente tem que dialogar. Mas acredito que será difícil simplesmente dizer sim àquilo que é proposto pela sociedade ou pelos legisladores hoje em dia”, afirmou o cardeal Hummes, também prefeito emérito da Congregação para o Clero e um dos cinco brasileiros que participarão do conclave para eleger o próximo papa e poderão ser escolhidos como substituto de Bento XVI.

JMJ 2013

Logo após a apresentação da renúncia do Papa Bento 16 ao pontificado, o Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani João Tempesta, concedeu uma entrevista coletiva à imprensa na Basílica Nossa Senhora de Lourdes.

                “Nós tivemos várias vezes com o Santo Padre e quando falávamos sobre a Jornada Mundial da Juventude para o ano de 2015 ele nos dizia que estaria muito longe, distante, e o Papa já estaria muito idoso. Quando fechamos a data para o ano de 2013 o Papa Bento XVI disse: ‘O Papa irá a Jornada Mundial da Juventude (JMJ). Eu ou o meu sucessor’. (...) Isso já ocorreu quando a JMJ foi realizada em Colônia, na Alemanha, quando o Papa João Paulo II organizou tudo, mas quem participou e conduziu, inclusive, como sua primeira viagem apostólica foi Bento XVI. (...) Reafirmamos que o nosso trabalho continua e que a Jornada será realizada. Neste momento convido a todos a rezarem pelo Papa que tomou uma atitude muito corajosa”, afirmou Dom Orani.

                O Arcebispo do Rio falou também sobre a vinda do sucessor de Bento XVI durante a JMJ Rio2013, destacando que o Rio de Janeiro poderá ser uma das primeiras cidades visitadas pelo novo Pontífice.

                “Sem dúvida o tempo é curto, pois além de um líder religioso o Papa é um chefe de Estado, mas creio que vai depender de quem for eleito e não podemos adiantar nada. É costume que o Papa continue a rotina do antecessor pelo menos é o que nós vemos sempre e caso isso aconteça seremos uma das primeiras cidades que o novo pontífice irá visitar”.

Novas informações

O porta-voz do Vaticano, Padre Lombardi explicou que após deixar o cargo em 28 de fevereiro, Bento XVI, acompanhado de Dom Georg e da família pontifícia, irá a Castel Gandolfo e posteriormente a um Convento de Clausura, dentro do Vaticano. Os Cardeais que vierem a Roma para o Conclave não se hospedarão na Casa Santa Marta antes do dia 1º de março.

Não existe nenhum estudo em andamento sobre a modificação da Constituição Universi dominicis gregis após a renúncia. (n.d.r. – Esta constituição apostólica, de 22 de fevereiro de 1996, foi promulgada pelo então Papa João Paulo II, criando, alterando e revogando normas relativas ao período de vacância da Sé Apostólica, inclusive no que tange à eleição do novo Pontífice).

Padre Lombardi destacou que nem uma possível queda do Santo Padre durante a viagem ao México e nem o Caso Vatileaks tem qualquer ligação com a decisão de renunciar ao cargo.

A Comissão Cardinalícia para a Supervisão do Instituto para as Obras de Religião (I.O.R.) nomeou, de acordo com os Estatutos, o novo Presidente do Conselho de Administração da Superintendência, na pessoa do Sr. Ernst Von Freyberg. Os outros quatro membros do Conselho para a Supervisão mantém os seus cargos.

 

Respondendo a perguntas de diversos jornalistas, Padre Lombardi afirmou o que segue:

- Não existe antecipação do Conclave, que deverá iniciar entre os dias 15 e 20 de março.

- Dom Georg Gaenswein continuará a exercer a função de Prefeito da Casa Pontifícia e acompanhará o Papa após sua renúncia.

- Não existe nenhuma mudança em relação às leis e regras para a sucessão.

- O Código Canônico prevê a renúncia de um Papa. O Código não prevê, no entanto, como se chamará o Papa após 28 de fevereiro.

- A Segurança do Vaticano continua a cargo da Gendarmeria.

- Não estão previstos compromissos do Papa Bento XVIapós 28 de fevereiro.

- Para o último dia do Pontificado, 28 de fevereiro, não está previsto nenhum grande discurso, mas todos esperam palavras específicas de Bento XVI.

- Ainda não está claro se o pontífice será bispo emérito de Roma. Sobre a questão do nome Bento XVI, Padre Lombardi respondeu: `Acho que posso reiterar que BentoXVI é um título ao qual não pode renunciar. É o seu nome como Papa que ele levou a toda a Igreja e ao mundo oficialmente por oito anos. Então, certamente, continuaremos a chamá-lo de Bento XVI. Isso não muda e não pode obviamente mudar`.

- Não é de responsabilidade de Bento XVI estabelecer o dia do Conclave. Cabe ao Camerlengo e aos cardeais tomar decisões deste tipo.

 

Os últimos compromissos de Bento XVI

Na quinta-feira, 14 de fevereiro, o Papa Bento XVIse encontrou com o clero de Roma, na “Sala Paulo VI”. Depois, nos próximos dias, haverá encontros e audiências marcadas com alguns grupos de bispos italianos, com o Presidente da Romênia e com o Presidente da Guatemala, respectivamente sexta-feira e sábado de manhã, encontros que já tinham sido marcados há algum tempo.

No final da semana ainda há espaço para receber dois políticos italianos, Mário Monti e o Presidente Giorgio Napolitano, audiências que terão lugar, praticamente, a uma semana das eleições italianas.

No dia 17 de fevereiro aconteceu ainda o Ângelus ao meio-dia e depois, o Papa entra em retiro durante toda a semana, não havendo, por isso, audiência geral na quarta-feira. O retiro já estava previsto e tem o Cardeal Ravasi como pregador. Quando terminar o retiro, BentoXVI volta, pela última vez, à janela do seu apartamento para o seu último Ângelus de domingo dia 24 de fevereiro de 2013.

Na segunda-feira seguinte, o Papa recebe os cardeais da Cúria Romana em audiência privada. Terça-feira, dia 26/02, é dia livre e a grande despedida está prevista para a audiência geral de quarta-feira, dia 27/02. Excepcionalmente, esta audiência realiza-se na Praça de São Pedro para poder acolher todos os fiéis que se quiserem despedir do Papa.

E chegamos ao seu último dia de Papa. No dia 28 de Fevereiro às 11h00 (hora de Roma) saúda todos os Cardeais que se encontrarem em Roma e pelas 17h00 locais parte de helicóptero para Castel Gandolfo, onde provavelmente ficará até o novo Papa ser eleito.

Renúncia do Papa na imprensa

Organismos, instituições e autoridades civis, militares e eclesiásticas de todas as partes do mundo se manifestaram, após o comunicado do Papa.  

Logo depois do anúncio da saída de Bento XVI, o governo da Alemanha divulgou nota dizendo que lamenta a decisão de Ratzinger e se sente “tocado” pelo fato. O teólogo Leonardo Boff considerou um ato digno a saída do Papa.  

O afastamento do Papa foi qualificado de um ato espiritualmente exemplar pelo jornal do Vaticano, o Observatório Romano. Segundo o jornal, a decisão foi tomada há um ano, durante uma viagem de Bento XVI aoMéxico e a Cuba. Foi a primeira vez que o Papa apareceu apoiado numa bengala, demonstrando fragilidade.

A rede americana de televisão “CNN” levanta a discussão para uma possível mudança na Igreja Católica com a sucessão do Papa. O jornal “The Washington Post” também fala do futuro do catolicismo e o que a Igreja pode esperar do Papa no século XXI. O também americano “The Wall Street Journal” destaca o que chamou de “ato histórico”.

Na Europa, o francês Le Monde lembra os quase oito anos do pontificado de Bento 16 como um período polêmico devido às denúncias e investigações. O também francês “Le Figaro” fala dos próximos passos da Igreja até o dia 28, data marcada para o afastamento do Papa.

O espanhol “El País” traz na primeira página uma foto curiosa: o momento em que um raio atinge a Basílica de São Pedro na tempestade que começou logo depois do comunicado da renúncia. Já o italiano “Corriere Della Sera” analisa a atitude do Papa como um gesto humilde, mas levanta três perguntas: por que o anúncio foi feito ontem? Por que em uma reunião de rotina? E por que o Papa quer se aposentar?

Na Alemanha, país natal de Bento XVI, a revista “Spiegel” destaca a situação inédita de um ex-Papa e chama a renúncia de crise na Igreja.

Depoimentos de líderes e instituições religiosas

                A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou nota na tarde da segunda-feira, 11 de fevereiro, sobre o anúncio da renúncia do Papa Bento 16. Em nota, a CNBB disse receber com surpresa o anúncio feito pelo Papa, mas acolhe com amor filial as razões apresentadas por ele, como sinal de sua humildade e grandeza, que caracterizam os oito anos de seu pontificado.

                “Teólogo brilhante, Bento XVI entrará para a história como o ‘Papa do amor’ e o ‘Papa do Deus Pequeno’, que fez do Reino de Deus e da Igreja a razão de sua vida e de seu ministério. O curto período de seu pontificado foi suficiente para ajudar a Igreja a intensificar a busca da unidade dos cristãos e das religiões através de um eficaz diálogo ecumênico e inter-religioso, bem como para chamar a atenção do mundo para a necessidade de voltar-se ao Deus criador e Senhor da vida” (trecho da nota da CNBB).

                No final da carta, os Bispos do Brasil agradeceram ao Papa pelo carinho e apreço que sempre manifestou para com a Igreja no Brasil, desde a visita ao País para abrir a V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe e da escolha do Rio de Janeiro para sediar a Jornada Mundial da Juventude em julho desse ano. “Conclamamos a Igreja no Brasil a acompanhar com oração e serenidade o legítimo processo de eleição do sucessor de Bento 16. Confiamos na assistência do Espírito Santo e na proteção de Nossa Senhora Aparecida, neste momento singular da vida da Igreja de Cristo”, concluiu a carta assinada pelo Presidente da CNBB, Cardeal Raymundo Damasceno Assis.

                O Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, Dom Murilo Krieger, scj, afirmou que recebeu com fé a notícia sobre a renúncia do Papa Bento 16. Para o Arcebispo, esse foi um ato de lealdade à Igreja. “Esse foi um gesto de amor. Quando ele aceitou ser Papa, foi com a missão de servir à Igreja. Agora, viu que lhe faltam forças e não tem condições de continuar exercendo o ministério. Ele demonstra confiar em Jesus Cristo, que vai nos dar um novo pastor para conduzir Seu rebanho”, declarou.

                Também o episcopado em toda a América se pronunciou. A Conferência Episcopal dos Estados Unidos considerou a decisão do Papa como uma `nova prova de sua grande entrega à Igreja`.

                O Cardeal cubano Jaime Ortega y Alamino também classificou de `inestimável lição de humildade` e de `coragem` a decisão do Papa.

                A renúncia `nos fortalece na fé`, disse o Secretário-Geral da Conferência Episcopal Mexicana, Eugenio Lira.

                `É um momento de consternação e de grande tristeza`, declarou o bispo argentino Marcelo Sánchez Sorondo, enquanto a Conferência Episcopal Equatoriana manifestou seu `respeito e veneração` ao Papa.

                O Presidente da Conferência Episcopal do Chile, Dom Ricardo Ezzati, disse que o pontificado de Bento 16 foi `uma bênção para a Igreja Católica`.

                Para o Cardeal nicaraguense Miguel Obano y Bravo, Bento XVI deixa `uma estrela luminosa no caminho`.

                O Cardeal hondurenho Oscar Andrés Rodríguez vê a renúncia papal como `uma decisão de fé`, enquanto o arcebispo metropolitano da Guatemala, Dom Oscar Julio Vián, lamentou que um `grande Papa sai de cena`.

                O presidente da Conferência Episcopal da Bolívia (CEB), Dom Oscar Aparicio, é um ato a ser valorizado.

                Segundo o cardeal colombiano Rubén Salazar Gomez, `a herança que Bento XVI deixa é imensa sobretudo no campo da doutrina`.

                Bento XVI sofreu `golpes muito fortes` e os assumiu `com enorme fortaleza`, afirmou o Arcebispo de Lima, Card. Juan Luis Cipriani.

                O Presidente da Conferência Episcopal da Venezuela (CEV), Arcebispo Diego Padrón, considerou a atitude do Papa como “um bom exemplo”.

                O Arcebispo metropolitano de Cidade do Panamá, Dom José Domingo Ulloa, disse que o Pontífice demonstrou sua `grandeza e humildade`.

                Por fim, o Arcebispo de San Salvador, Dom José Luis Escobar, é necessário que todos peçamos para que o Senhor proveja a sua Igreja de um papa santo e sábio como Bento 16.

                O Congresso Judaico Mundial e o Congresso Judaico Latino-americano, na pessoa de seus presidentes, Ronald Lauder e Jack Terpins, respectivamente, também emitiram um comunicado sobre o anúncio da renúncia do papa Bento XVI. A nota destaca que o Pontificado deBento XVI “elevou as relações católico-judaicas a um nível sem precedentes”. “Não só ele manteve as conquistas de seu predecessor, o papa João Paulo II, mas também sustentou uma sólida relação teológica e, o mais importante, a preencheu com sentido e com a vida”.

                O comunicado também ressalta que “nenhum Papa antes dele visitou tantas sinagogas” e reuniu-se tão seguidamente com “representantes de várias comunidades judaicas nos locais em que visitou ao redor do mundo”. E acrescenta que foi o Papa que mais avançou “no aprimoramento das relações com os judeus, e isto em vários níveis”.

                A renúncia de Bento 16 foi acolhida com respeito e apreço pelo Secretário-Geral do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), Rev. Olav Fykse Tveit. `Respeitamos totalmente a decisão de Sua Santidade Bento XVI de renunciar`, disse o pastor na sede do CMI, em Nova York, onde se encontra em visita.

                `Com profundo respeito, vimos como ele assumiu a responsabilidade e o peso de seu ministério em idade avançada, num momento difícil para a Igreja. Manifesto meu apreço pelo seu amor e compromisso com a Igreja e com o movimento ecumênico. Pedimos a Deus que o abençoe neste momento e nesta fase de sua vida e que guie a Igreja Católica neste período importante de transição`, sublinhou Tveit.

O novo arcebispo de Cantuária, Dr. Justin Welby, primaz da Igreja Anglicana, após a notícia da renúncia deBento XVI ao pontificado, disse que `o Papa Bento 16 nos mostrou o que pode ser concretamente a vocação à Sé de Pedro, um testemunho universal do Evangelho e um mensageiro da esperança”. E completou: `Nós, que pertencemos à família cristã estamos cientes da importância deste testemunho e nos unimos aos nossos irmãos católicos no agradecimento a Deus pela inspiração e o desafio do ministério do Papa Bento XVI”.

Dom Fouad Twal, Patriarca Latino de Jerusalém, com os bispos auxiliares, sacerdotes e fiéis da Terra Santa saúdam com gratidão a coragem, sabedoria moral e humildade de Bento XVI que serviu com dedicação à Igreja por quase 8 anos. Por meio de nota, afirmam que foi com grande alegria e esperança que “receberam a Exortação Apostólica Ecclesia in Medio. Através dela os cristãos do Oriente Médio apreciaram os conselhos e instruções a fim de serem nesta região e no mundo comunhão e testemunho”. O texto termina dizendo que `com emoção, oração e recolhimento agradece de coração a Bento XVIpelo afeto paterno e compromisso pela paz na Terra Santa e deseja ao Santo Padre que a Virgem Maria o acompanhe nessa decisão e no tempo de descanso que o espera`.

O presidente da União das Comunidades Judaicas Italianas, Renzo Gattegna, declarou que os “judeus italianos manifestaram proximidade e respeito ao Papa Bento 16 pela decisão dolorosa e corajosa tomada neste momento`. Ele recordou foi extremamente significativo, ao longo do magistério do papa, “os passos dados em favor da aproximação entre judeus e cristãos, na esteira de valores comuns`.

 

NOTA SOBRE A RENÚNICA DO PAPA BENTO 16 DO BISPO DIOCESANO DE LIMEIRA, DOM VILSON DIAS DE OLIVEIRA, DC

 

Limeira, 10 de fevereiro de 2013.

 

Estou repassando a todos vocês o comunicado da Rádio Vaticano acerca da renúncia do Papa Bento XVI que deverá ocorrer no dia 28 de fevereiro de 2013. Eis o texto integral do anúncio abaixo recordando com suas palavras que: “a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idôneas para exercer adequadamente o ministério petrino...a partir de 28 de Fevereiro de 2013, às 20h00, a sede de Roma, a sede de São Pedro, ficará vacante e deverá ser convocado, por aqueles a quem tal compete, o Conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice”. O Colégio dos Cardeais, portanto, deverá ser convocado, para que escolha seu novo sucessor. É uma decisão inédita e corajosa, e acima de tudo cheia de humanidade. Rezemos, portanto, para que ele possa encerrar seu ministério petrino com dedicação e amor cada vez maiores. Rezemos para que o processo sucessório do futuro papa seja sereno e traga novas luzes e esperanças para a Igreja e para o mundo. Continuemos rezando pelo nosso querido Papa Bento XVI e pela sua saúde. Deus abençoe e guarde a todos em seu amor.

 

Dom Vilson Dias de Oliveira, DC

Bispo Diocesano de Limeira, SP.

 

CARTA DE RENÚNCIA DO PAPA BENTO 16

 

Caríssimos Irmãos, convoquei-vos para este Consistório não só por causa das três canonizações, mas também para vos comunicar uma decisão de grande importância para a vida da Igreja. Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idôneas para exercer adequadamente o ministério petrino. Estou bem consciente de que este ministério, pela sua essência espiritual, deve ser cumprido não só com as obras e com as palavras, mas também e igualmente sofrendo e rezando. Todavia, no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado. Por isso, bem consciente da gravidade deste acto, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de Bispo de Roma, Sucessor de São Pedro, que me foi confiado pela mão dos Cardeais em 19 de Abril de 2005, pelo que, a partir de 28 de Fevereiro de 2013, às 20,00 horas, a sede de Roma, a sede de São Pedro, ficará vacante e deverá ser convocado, por aqueles a quem tal compete, o Conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice. Caríssimos Irmãos, verdadeiramente de coração vos agradeço por todo o amor e a fadiga com que carregastes comigo o peso do meu ministério, e peço perdão por todos os meus defeitos. Agora confiemos a Santa Igreja à solicitude do seu Pastor Supremo, Nosso Senhor Jesus Cristo, e peçamos a Maria, sua Mãe Santíssima, que assista, com a sua bondade materna, os Padres Cardeais na eleição do novo Sumo Pontífice. Pelo que me diz respeito, nomeadamente no futuro, quero servir de todo o coração, com uma vida consagrada à oração, a Santa Igreja de Deus.

 

Vaticano, 10 de Fevereiro de 2013.

 

BENEDICTUS PP XVI

 

Biografia

A liderança de Bento 16 começou no dia 19 de abril de 2005. Ele permaneceu sete anos e dez meses no posto.Ratzinger, de 85 anos, nasceu em Marktl am Inn, na Alemanha, no dia 16 de Abril de 1927, e foi batizado no mesmo dia. O pai, comissário da polícia, provinha duma antiga família de agricultores da Baixa Baviera, de modestas condições econômicas. A mãe era filha de artesãos de Rimsting, no lago de Chiem, e antes de casar trabalhara como cozinheira em vários hotéis.

Ratzinger passou a infância e a adolescência em Traunstein, uma pequena localidade perto da fronteira com a Áustria, a 30 quilômetros de Salisburgo. Foi neste ambiente que recebeu a sua formação cristã, humana e cultural.

 

 

 

 

Cardeal Francis Arinze Fala para Liturgistas

Traduzido por Leonardo Jose Silvestre

© Copyright sobre a tradução: Sociedade Católica

`O povo de Deus tem o direito de que a liturgia seja celebrada como a Igreja quer`.

1 - Introdução

A Sagrada Eucaristia ocupa um lugar central no culto público da Igreja e na sua vida. Sua celebração deve, então, receber de todos nós a maior atenção. Por essa razão, estou feliz de saber que esta `Gateway Liturgical Conference` está consagrada especialmente para a atenção com a celebração digna da Sagrada Eucarisita, de acordo com a encíclica do Santo Padre, Ecclesia de Eucharistia, e a instrução Redemptionis Sacramentum, da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos. Isso também está no sentido do presente Ano da Eucaristia.

 

No desenvolvimento do tema atribuído para mim, `Normas Litúrgicas e Piedade Litúrgica`, eu tenho a intenção de começar examinando por que devem existir normas litúrgicas, como o que a Igreja acredita e como ela reza estão relacionados, e quem tem autoridade para emitir normas para a liturgia. Este será o momento para explicar claramente o que entendemos por piedade litúrgica. Criatividade é uma questão que surge freqüentemente, no que se refere à liturgia. Ela deve ser examinada. O desejo para fazer celebrações litúrgicas interessantes também merece ser analisado.

Algumas pessoas querem introduzir danças na liturgia. A discussão dessa tendência não pode ser evitada. Nós vamos concluir perguntando-nos se a observação das normas litúrgicas é uma chamada para o formalismo ou rubricismo, ou um promotor da fé e da piedade.

2. Razões para Normas Litúrgicas

A sagrada liturgia é um exercício do ofício sacerdotal de Jesus Cristo. É o culto público realizado pelo Corpo Místico de Cristo, pela Cabeça e por Seus membros (cf Sacrosanctum Concilium [SC] 7).

Celebrações litúrgicas possuem alguns elementos que são de instituição divina. Esses são os aspectos mais importantes dos sete sacramentos. Existem elementos que são de instituição eclesial. Ao decidir sobre esses elementos, a Igreja tem um grande cuidado para ser fiel à Sagrada Escritura, para honrar a tradição transmitida através dos séculos, para manifestar sua fé e alegrar-se nela, e para levar todos os fiéis para o culto de Deus, seguindo o exemplo de Cristo, e mostrando amor e serviço para seu próximo. Entre esses dois, podemos falar de um terceiro: aqueles elementos da liturgia que são encontrados desde os primeiros anos em todas ou praticamente todas as grandes tradições litúrgicas e que devem, portanto, retornar pelo menos a um período muito próximo dos apóstolos, e talvez mesmo a Nosso Senhor. O fato de podermos não ter conhecimento certo sobre isso em um dado caso é uma forte razão para evitar inovações ou negligências precipitadas. (cf Varietates Legitimae [VL] 26-27, Instrução Geral para o Missal Romano [IGMR] 397, Liturgiam authenticam [LA] 4-5, Redemptionis Sacramentum [RS] 9)

Celebrações litúrgicas devem ser experiência da fé tradicional que é confessada, celebrada e comunicada, da esperança que é expressada e confirmada, e da caridade que é cantada e vivida.

Como as celebrações litúrgicas são atos públicos realizados em nome da Igreja universal, com o próprio Jesus Cristo como o Sacerdote-Chefe, segue-se que ao longo dos séculos, a Igreja necessariamente desenvolveu normas de acordo com as quais seu culto público é expressado. Normas litúrgicas protegem esse tesouro que é o culto Cristão. Elas manifestam a fé da Igreja, promovem-na, celebram-na e comunicam-na. Elas também manifestam a fé da Igreja como uma família constituída hierarquicamente, uma comunidade de culto, amor e serviço, e um corpo que promove união com Deus e santidade de vida e dá aos pecadores esperança de conversão, perdão e vida nova em Cristo.

Além disso, normas litúrgicas ajudam a proteger a celebração dos mistérios sagrados, especialmente a Sagrada Eucaristia, de serem danificados por adições ou subtrações que danificam a fé e podem, por vezes, até tornar uma celebração sacramental inválida. O povo de Deus tem, assim, celebrações garantidas na linha da fé tradicional da fé Católica e não é deixado à mercê de idéias pessoais, sentimentos, teorias ou idiossincrasias.

O Papa João Paulo II é muito insistente no papel importante das normas relativas à celebração da Eucaristia. `Essas normas são uma expressão concreta da natureza eclesial da Eucaristia; este é seu significado mais profundo. Liturgia nunca é propriedade privada de alguém, seja ele o celebrante ou a comunidade na qual os mistérios são celebrados` (Ecclesia de Eucharistia [EE] 52). O amor à Igreja leva a pessoa a observar essas normas: `Sacerdotes que, com fé, celebram a Missa de acordo com as normas litúrgicas, e a comunidade que às mesmas adere, demonstram de modo silencioso mas expressivo seu amor à Igreja` (ibid). Nosso respeito pelos mistérios de Cristo nos leva a respeitar essas normas: `A ninguém é permitido aviltar esse mistério confiado a nossas mãos: é demasiado grande para que alguém possa permitir-se tratá-lo a seu livre arbítrio, não respeitando seu caráter sagrado nem a sua dimensão universal` (ibid).

3. Lex orandi, lex credendi

Os sacramentos estão ordenados à santificação dos homens, à edificação do Corpo de Cristo e, por fim, a prestar culto a Deus; como sinais, têm também a função de instruir. Não só supõem a fé, mas também a alimentam, fortificam e exprimem por meio de palavras e coisas, razão pela qual se chamam `sacramentos da fé`. (cf SC 59)

A fé da Igreja manifestou-se na forma como a Igreja reza e especialmente em como ela celebra a Sagrada Eucaristia e os outros sacramentos. Existem palavras e conceitos que adquiriram um significado profundo na vida, fé e oração da Igreja ao longo dos séculos. Exemplos são pessoa, trindade, majestade divina, encarnação, paixão, ressurreição, salvação, mérito, graça, intercessão, redenção, pecado, arrependimento, perdão, propiciação, misericórdia, penitência, reconciliação, comunhão e serviço. Existem gestos e posturas que ajudam a expressar o que a Igreja acredita. Exemplos são o Sinal da Cruz, inclinar a cabeça, ajoelhar-se, sentar-se, ouvir e ir em procissão.

`A fé da Igreja é anterior à fé do fiel, que é convidado a aderir a ela. Quando a Igreja celebra os sacramentos, confessa a fé recebida dos apóstolos.` (Catecismo da Igreja Católica, 1124). Esse é um argumento forte em favor do grande cuidado na formulação, nos gestos e nas normas das celebrações litúrgicas.

A relação entre a fé da Igreja e sua celebração litúrgica foi encapsulada em um dito antigo, lex orandi, lex credendi (a lei da oração é a lei da fé), ou legem credendi lex statuat supplicandi (deixar a lei da oração determinar a regra da fé). Essa afirmação da fé Católica é creditada a Prosper de Aquitaine, do 5º século (Ep. 8). Ela é citada no Indiculus ou Capítulos Pseudo-Celestinos. O Papa Celestino reinou de 422 a 432 (cf. Ds 246).

A Igreja crê como ela reza. A liturgia é um elemento constitutivo da santa e viva tradição da Igreja (cf. Dei Verbum 8). É por isso que a Igreja não permite ao ministro ou à comunidade modificar ou manipular qualquer sacramental ou mesmo o rito litúrgico geral. `Mesmo a suprema autoridade da Igreja não deve mudar a liturgia arbitrariamente, mas tão somente em obediência à fé e com respeito religioso ao mistério da liturgia` (Catecismo da Igreja Católica, 1125)

A Redemptionis Sacramentum é incisiva nesse ponto: `A mesma Igreja não tem nenhum poderio sobre aquilo que tem sido estabelecido por Cristo, e que constitui a parte imutável da Liturgia. Posto que, caso seja rompido este vínculo que os sacramentos têm com o mesmo Cristo que os tem instituído e com os acontecimentos que a Igreja tem sido fundada, nada seria vantajoso aos fiéis, mas sim poderia ser gravemente danoso. De fato, a sagrada Liturgia está estreitamente ligada com os princípios doutrinais por que o uso de textos e ritos que não têm sido aprovados leva a uma diminuição ou desaparecimento do nexo necessário entre a lex orandi e a lex credendi.` (RS 10)

4. Autoridade sobre a Liturgia

As reflexões acima nos levam a perguntar quem tem autoridade sobre a sagrada liturgia. Quem decide sobre os textos, as cerimônias, as normas? Nós não podemos nos dar o luxo de ser vagos nisso.

O Concílio Vaticano Segundo não é ambíguo: `Regular a sagrada Liturgia compete unicamente à autoridade da Igreja, a qual reside na Sé Apostólica e, segundo as normas do direito, no Bispo. Em virtude do poder concedido pelo direito, pertence também às assembléias episcopais territoriais competentes, de vários gêneros, legitimamente constituídas, regular, dentro dos limites estabelecidos, a Liturgia.` Então o Concílio adiciona a advertência: `Por isso, ninguém mais, mesmo que seja sacerdote, ouse, por sua iniciativa, acrescentar, suprimir ou mudar seja o que for em matéria litúrgica`. (SC 22)

Essas regras não são um sinal de falta de respeito por quem quer que seja. Elas derivam do fato de que a liturgia é uma celebração da Igreja universal. `As orações dirigidas a Deus pelo sacerdote que preside, na pessoa de Cristo, à assembléia, são ditas em nome de todo o Povo santo e de todos os que estão presentes. Os próprios sinais visíveis que a sagrada Liturgia utiliza para simbolizar as realidades invisíveis foram escolhidos por Cristo ou pela Igreja.` (SC33)

Dessas considerações segue que uma atitude de `faça por si mesmo` não é aceitável no culto público da Igreja. Ela causa dano ao culto da Igreja e à fé das pessoas. O povo de Deus tem o direito de que a liturgia seja celebrada como a Igreja quer que ela seja (cf RS 12). Os mistérios de Cristo não podem ser celebrados de acordo com gosto ou capricho pessoal. ` O `tesouro` é demasiado grande e precioso para se correr o risco de o empobrecer ou prejudicar com experimentações ou práticas introduzidas sem uma cuidadosa verificação pelas competentes autoridades eclesiásticas` (EE 51).

5. Piedade Litúrgica

Quando nós dizemos piedade, nós pensamos em geral em honra e reverência dada a alguém que é, de alguma forma, responsável por nossa existência e bem estar. Entretanto, a virtude da piedade refere-se, antes de tudo, a Deus, que é nosso criador e constante provedor. Mas nós podemos também falar de piedade para nossos pais, parentes próximos, país, tribo ou povo.

Como uma virtude Cristã, a piedade é um dos dons do Espírito Santo. Ela nos move ao culto de Deus, que é o Pai de todos nós, e também a fazer o bem a outros como reverência a Deus. Com o salmista, nós cantamos: `Como são amáveis as vossas moradas, Senhor dos exércitos! Minha alma desfalecida se consome suspirando pelos átrios do Senhor. Meu coração e minha carne exultam pelo Deus vivo.`(Salmo 83(84):2-3). Celebrações litúrgicas tornam-se atraentes para pessoas piedosas. O sino da igreja que toca para a Missa é um som bem-vindo: `Que alegria quando me vieram dizer: `Vamos subir à casa do Senhor...`.Eis que nossos pés se estacam diante de tuas portas, ó Jerusalém!` (Salmo 121(122):1-2). A alma piedosa tem alegria pura em estar na igreja e mais ainda em juntar-se ao culto divino: `Verdadeiramente, um dia em vossos átrios vale mais que milhares fora deles. Prefiro deter-me no limiar da casa de meu Deus a morar nas tendas dos pecadores.` (Salmo 83(84):11)

A piedade litúrgica, como uma bela manifestação de virtude da religião, é ao mesmo tempo um composto de amor a Deus, fé nEle, adoração, respeito, reverência, alegria pura em Seu serviço, e desejo de servi-Lo da melhor forma que pudermos. O espírito da fé e reverência que se mostra, por si próprio, na fiel observância das normas litúrgicas, é mais favorável à promoção da piedade litúrgica.

6. Criatividade nas Celebrações Litúrgicas

Alguém pode perguntar se existe algum espaço para a criatividade na liturgia. A resposta é que existe, mas ela deve ser entendida corretamente.

Antes de tudo, é necessário ter em mente que o culto público da Igreja é algo que recebemos na fé através da Igreja. Não é algo que inventamos. Na verdade, a essência dos sacramentos foi estabelecida pelo próprio Cristo. E os ritos detalhados, incluindo palavras e ações, foram cuidadosamente elaborados, guardados e transmitidos pela Igreja ao longo dos séculos. Portanto, não seria uma atitude própria para um indivíduo ou comitê ficar pensando e planejando a cada semana como inventar uma nova forma de celebrar a Missa.

Além disso, a prioridade na Missa e em outros atos litúrgicos é o culto a Deus. A liturgia não é um campo para auto-expressão, livre criação e demonstração de habilidades pessoais. Idiossincrasias tendem a atrair atenção à pessoa no lugar dos mistérios de Cristo que estão sendo celebrados. Elas também podem perturbar, complicar, molestar, enganar ou confundir os fiéis.

No entanto, também é verdade que as normas litúrgicas permitem alguma flexibilidade. Com referência à ação litúrgica central e mais importante, a Missa, por exemplo, nós podemos falar de três níveis de flexibilidade. Primeiramente, existem no Missal e no Lecionário alguns textos alternativos, ritos, cantos, leituras e bênçãos, a partir das quais o sacerdote pode escolher (cf. IGMR 24, RS 39). Depois, existem escolhas que são de competência do Bispo diocesano ou da Conferência dos Bispos. Exemplos são a regulação da celebração, normas relativas à distribuição da comunhão sob ambas espécies, construção e ordenamento ordenamento de igrejas, traduções e alguns gestos (cf. SC 38, 40; IGMR 387, 390). Algumas dessas alternativas requerem recognitio da Santa Sé. Os mais exigentes níveis de variabilidade dizem respeito à inculturação no sentido mais estrito. Ela envolve ação pela Conferência dos Bispos, após a realização de profundos estudos interdisciplinares e recognitio da Santa Sé.

A Redemptionis Sacramentum é, portanto, capaz de dizer que `se tem dado um amplo espaço a uma adequada liberdade de adaptação, fundamentada sobre o princípio de que toda celebração responda à necessidade, à capacidade, à mentalidade e à índole dos participantes, conforme às faculdades estabelecidas nas normas litúrgicas` (RS 39). A última frase é importante: `conforme às faculdades estabelecidas nas normas litúrgicas`. O parágrafo da Redemptionis Sacramentum conclui com uma observação crucial, recordando que `também se deve recordar que a força da ação litúrgica não está na mudança freqüente dos ritos, mas sim, verdadeiramente, em aprofundar na palavra de Deus e no mistério que se celebra`. O que as pessoas estão procurando todo Domingo no seu pastor não é uma novidade, mas uma celebração dos sagrados mistérios que nutra a fé, manifeste devoção, desperte piedade, conduza a oração e incite a caridade ativa na vida quotidiana.

7. Tornando a Missa Interessante

Muitos sacerdotes estão preocupados em tornar a celebração da Eucaristia interessante. E eles não estão errados. A Missa não é uma monótona realização de rituais. É uma celebração vital dos mistérios centrais da nossa salvação.

Deve-se tomar cuidado para preparar-se bem para cada celebração. Os textos a serem lidos, cantados ou proclamados devem ser bem estudados em tempo suficiente. As vestimentas e todos os acessórios e mobiliários do altar devem estar em bom estado. As pessoas que exercem as tarefas de sacerdotes celebrantes, servidores de altar, líder de canto, leitores etc. devem estar no seu melhor. A homilia deve dar às pessoas sólido alimento litúrgico, teológico e espiritual. Se tudo isso é feito, a Missa não será monótona.

Mas quando tudo isso é dito e feito, nós temos que voltar ao fato de que a Missa não é para entreter as pessoas. Tal horizontalismo está fora de lugar. As pessoas não vão à Missa para admirar o pregador, ou o coro, ou os leitores. O movimento prioritário ou direção da Missa é vertical, em direção a Deus, não horizontal, um em direção ao outro. O que as pessoas necessitam é uma celebração cheia de fé, uma experiência espiritual que lhes chama a Deus e, portanto, também ao seu próximo. Como um subproduto, tal celebração vai capturar o interesse e a atenção das pessoas.

Também é útil observar que a repetição de fórmulas e símbolos da fé, ou de palavras e gestos familiares, não necessariamente tornam a celebração desinteressante. Isso importa, entretanto, até o ponto no qual essas fórmulas são compreendidas, daí a importância da catequese. Nas nossas vidas diárias, é desinteressante para nós repetir nossos nomes ou os nomes daqueles que amamos? Nós não amamos nosso hino nacional e o cantamos com piedade? Quanto mais quando isso tem a ver com nossa identidade Cristã!

Se ajuda repetir, eu posso lembrar que as celebrações litúrgicas permitem flexibilidade, que pode ser feita de acordo com normas aprovadas. A Redemptionis Sacramentum exorta o Bispo a não asfixiar as opções previstas pelas normas litúrgicas: `o Bispo deve ter sempre presente que não se impeça a liberdade prevista nas normas dos livros litúrgicos, adaptando a celebração, de modo inteligente, seja à igreja, seja ao grupo de fiéis, seja às circunstâncias pastorais, para que todo o rito sagrado universal esteja verdadeiramente acomodado ao caráter dos fiéis`. (RS 21) É por essa razão que o Bispo faz bem em não ser tentado a introduzir restrições desnecessárias em sua diocese, como ordenar que apenas uma particular Oração Eucarística seja usada na Missa. A autoridade do Bispo nunca é mais firme do que quando ele a usa para garantir que as normas gerais que salvaguardam a tradição são observadas.

Um conselho geral sobre se a celebração litúrgica é interessante ou não é simplesmente celebrar com fé e devoção e de acordo com as normas aprovadas, e deixar o resto para a graça de Deus e para a cooperação das pessoas com ela.

8. Dança na Liturgia

Algumas pessoas querem introduzir dança na sagrada liturgia. A liturgia do Rito Latino nunca possuiu tal prática. Nós temos, portanto, que perguntar quem quer trazer a dança para comprovar o motivo pelo qual eles querem introduzi-la.

Se nós dizemos que a razão é tornar a Missa interessante, a resposta é aquela que acabamos de considerar. Nós vamos à Missa para cultuar a Deus, não para ver um espetáculo. Nós temos o salão paroquial e o teatro para shows.

Outros podem dizer que é bem-vinda alguma dança para expressar plenamente nossa oração, pois nós somos corpo e alma. A resposta é que a liturgia, de fato, aprecia gestos e posturas corporais, e cuidadosamente incorporou muitos deles, como ficar de pé, ajoelhar, genufletir, cantar e dar o sinal da paz. Mas o Rito Latino não inclui a dança.

Não é fácil para os dançarinos não chamar atenção para si. Apesar de algumas danças muito requintadas em algumas culturas poderem ajudar a elevar a mente, não é verdade que, para muitas pessoas, as danças são uma distração, em vez de ajuda à oração?

Danças facilmente apelam aos sentidos e tendem a insistir na necessidade de aprovação, diversão, desejo de repetição, e à premiação dos artistas com aplausos da platéia. É para experimentar isso que vamos à Missa? Nós não temos teatros e salões paroquiais, presumindo que a dança em questão é aceitável, que podem lugar para elas?

É verdade que em muitas partes da África e da Ásia pode haver um hábito cultural de um gracioso movimento corporal que, com o devido estudo e aprovação da Igreja local, pode ser aceito em uma celebração litúrgica. O rito Etíope possui conhecidos movimentos rítmicos graciosos e procissão para o Evangelho. O Rito Romano da Missa aprovado para a República Democrática do Congo possui movimentos de entrada similares.

Mas isso é muito diferente do que as pessoas na Europa ou América do Norte pensam quando o conceito de dança é evocado. Será que nós podemos culpar as pessoas que associam dança com Sábado à noite, baile, teatro ou, simplesmente, diversão inocente? Os livros litúrgicos aprovados pelos Bispos e pela Santa Sé para a Europa e América do Norte compreensivelmente não autorizam a importação da dança para a igreja, deixando apenas a celebração do Sacrifício Eucarístico. (veja o artigo no boletim oficial da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos: Notitiae 106-107, June-July 1975, pp. 202-205).

9. Formalismo e Ritualismo não são o Objetivo

De tudo o que nós dissemos acima, segue que uma exortação para ser fiel às normas litúrgicas não é um convite para formalismo, ritualismo ou rubricismo. As pessoas não estão sendo convidadas para uma realização de ações externas secas e sem alma. Jesus, nosso Salvador, citando o profeta Isaías, já condenou aqueles que não internalizam no seu espírito os ritos externos que efetuam:

Este povo somente me honra com os lábios; seu coração, porém, está longe de mim. Vão é o culto que me prestam, porque ensinam preceitos que só vêm dos homens (Mt 15:8-9, Is 29,13).

As celebrações litúrgicas não são primariamente a observação de norma, mas a celebração dos mistérios de Cristo pela Igreja e na Igreja, com fé e amor, e com respeito à tradição. A observação das normas é conseqüência e fruto da fé e do respeito. Não é o objeto final do culto. É uma qualidade dele.

Além disso, normas litúrgicas não são leis ou regulamentos arbitrários ajuntados para agradar algum historiador, esteticista ou arqueologista. Elas são manifestações do que nós cremos e do que nós recebemos da tradição, da `norma dos santos Padres` (cf. SC20, IGMR 6), das quais as gerações dos nossos predecessores na fé disseram, observaram e celebraram. Para saber que nós estamos fazendo, dizendo, ouvindo e vendo o que milhões de Cristãos fizeram ao redor do mundo por centenas de anos e estão fazendo hoje, devem nos ajudar a entrar em uma participação empenhada e orante. Além disso, pela conformação da nossa pessoa por inteiro a tudo o que a liturgia representa, nós temos que sofrer uma transformação e tornar-nos cada vez mais próximos de Deus.

Oração interior e sacrifício têm prioridade. Daí a importância, nas celebrações litúrgicas, da preparação tranqüila, do silêncio, da reflexão, do ouvir e da oração pessoal. `A mera observância externa das normas, como resultado evidente, contraria a essência da sagrada Liturgia, com a que Cristo quer congregar a sua Igreja, e com ela formar `um só corpo e um só espírito``. (RS5)

Ao mesmo tempo é necessário repetir que o espírito de rejeição de regras e regulamentos, que passariam então a ser considerados como uma violação da própria autonomia, deve ser corrigido. É errado e não razoável manter um espírito de `Ninguém vai dizer o que eu tenho que fazer`. Esta seria uma falsa compreensão de liberdade. `Deus nos tem concedido, em Cristo, não uma falsa liberdade para fazer o que queremos, mas sim a liberdade para que possamos realizar o que é digno e justo.` (RS 7)

É uma bênção e um privilégio para nós pertencermos à Igreja que, na sua sagrada Liturgia, celebra os mistérios de Cristo e tem Cristo por Si próprio como o Sacerdote Chefe em cada ato litúrgico. Rezemos para a Santíssima Virgem Maria, Mãe do nosso Salvador, para que obtenha para nós uma crescente compreensão das razões para as normas litúrgicas, a disponibilidade para observá-las e a graça de crescer diariamente na piedade litúrgica, amor a Deus e compromisso para amar e servir nosso próximo.

+ Francis Cardinal Arinze
April 8, 2005

Deus é otimista
Ômar Souki*

Ao fazer silêncio em sua mente e em seu coração, ao serenar sua alma, você poderá escutar o doce sussurro do Pai. Ele é otimista e benevolente. Ele quer o seu bem, por mais que você insista em pensar nas coisas que não estão indo bem em sua vida: dívidas, doenças, contrariedades, desilusões, traições e contratempos.
O Pai Celestial, Todo Poderoso, quer única e exclusivamente o seu bem-estar, a sua alegria, a sua saúde e a sua felicidade plena. Portanto, pare agora de focar o que não quer e pense somente naquilo que deseja. Se está com dívidas, pense nos clientes que irá visitar para vender seu produto, nas oportunidades que o mercado pode lhe oferecer no dia de hoje. Se está começando a se resfriar, saia para uma boa caminhada em uma rua tranqüila ou perto de um parque. Se foi vitima de traição e está desiludido, pegue o telefone e ligue para seu melhor amiga, ela poderá não só escutar você mas sugerir novos negócios e novas amizades. Se teve um contratempo—se um acidente colheu você de surpresa, pergunte o que aprendeu com aquela experiência e como poderá ajudar as vitimas de coisas piores
.
Agradeça por tudo, mesmo pelas coisas que não vão bem. Eileen Caddy, autora do livro Abrindo portas interiores (Editora Triom), nos faz a seguinte pergunta: `Por que não ser um otimista nesta vida, sempre esperando pelo melhor, sempre achando o melhor, sempre criando o melhor?`. Ela sugere o remédio para nossas tristezas:
`O otimismo conduz ao poder; o pessimismo conduz à fraqueza e ao fracasso. Deixe que o poder do Espírito brilhe em você e através de você, criando à sua volta um mundo de beleza, paz e harmonia. Se a sua visão do mundo é otimista, você anima as almas que o rodeiam dando-lhes esperança, fé e crença na vida. O seu otimismo vai atrair mais otimismo e crescerá como uma bola de neve. Há sempre uma esperança, mesmo que seja só uma pequena e hesitante chama no começo. Cercada de mais esperança e amor numa atmosfera propícia, a pequena chama se transformará numa fogueira e continuará crescendo até que você esteja inflamado com o combustível do Espírito, que é imperecível e inextinguível. Uma vez ateado, nada poderá evitar que ele se espalhe`.
Descubra essa chama dentro de você, por menor que seja. Alimente esse fogo interior até que se torne irresistível. Daí para frente você vai ver por si mesmo. Encontrará as pessoas certas, no lugar certo, para realizar as melhores coisas para você e para o seu mundo.
Seja otimista, pense sempre que o melhor vai acontecer. É justamente essa atitude, essa expectativa positiva, que se torna uma profecia auto-realizável. Mude agora, pare de pensar no que você não quer. Pense e sinta que tudo aquilo que deseja já está a caminho. Mobilize seus pensamentos, suas emoções, suas palavras e suas ações em uma só direção: do amor pleno por você, pelos seus semelhantes e pelo mundo. E vai perceber, eu lhe garanto, que a sua vida é o maior presente que o Pai lhe deu!

*Ômar Souki, Ph.D. em comunicação pela Ohio University

 

 

 

Ganhar ou perder

Ninguém gosta de perder nada. Ao contrário, nosso impulso instintivo corre na direção da conquista de algo bom. Mas, dependendo da natureza do bem buscado, podemos nos enganar e perder todo o esforço quando erramos o alvo. Se, por exemplo, lutamos para conquistar um prêmio e este for uma quimera ou ilusão, percebemos que não valeu a pena tanto sacrifício e esforço nessa direção. Ao invés de obtermos algo de grande valor, como o de um valioso diamante, percebemos que era apenas um material de vidro lapidado. A decepção é grande! Quantos erros de enfoque estamos sujeitos a cometer, muitas vezes levados pela propaganda enganosa!

Jesus, o Filho de Deus, nos dá verdadeira lição de busca do verdadeiro tesouro. Alcançá-lo exige renúncia, sacrifício, exercício ou contínuo treinamento, boa escolha, remar contra a correnteza dos instintos, da propaganda, espírito crítico adequado, avaliação... Nossos sentidos são continuamente aguçados, provocando apetite para termos atitudes e optarmos por aquilo que é mais cômodo e traz prazer ou bem estar sensível imediato, nem sempre coerente com a busca de valores mais consistentes da vida. Continuamente a mídia nos oferece estímulo para comprarmos ou buscarmos o que é mais atraente no momento. Se não soubermos discernir ou avaliar o que nos oferecem e agradam nossos instintos, podemos não acertar com a boa escolha. Por outro lado, o condicionamento de nossa mente para realizarmos determinadas ações ou planejamento de conduta depende muito de como o aprendemos desde a infância ou influências posteriores. Os exemplos, bons ou maus que nos cercam, podem influenciar nossas opções. Normalmente temos a tendência ao mais cômodo. Se isso for reforçado continuamente em nós, podemos formar a personalidade com o endereçamento à prática dessa tendência.

Muito bem sabendo da busca do comodismo humano, Jesus nos desafia para andarmos pelo caminho do esforço consequente com a boa escolha do ideal, imitando-O: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará” (Lucas 9, 23-24). É justamente a base da sustentação do amor. Dar-se em bem do outro exige renúncia do comodismo. Não se trata de buscar o sofrimento pelo sofrimento e sim o esforço, mesmo com o sofrimento, para se conquistar um bem maior. Afinal, até num bom esporte a pessoa deve passar por um esforço e exercício para conquistar o objetivo do mesmo. Assim, para se conquistar o prêmio absoluto da vida, precisamos ordenar nosso esforço na direção da vida do sentido apresentado por Deus. Caso contrário, nossa vida se torna insípida e sem sentido. Só acumular para si tesouro, vantagens egoístas, prazeres passageiros e títulos, sem compromisso de vida no amor e construção de convivência justa, fraterna e solidária, não nos eleva à dignidade de grandeza de alma. A vida de amor a Deus nos faz sacrificar pelo bem do semelhante, com o ideal de servir. Utilizamos, assim, os dons recebidos de Deus para beneficiarmos a sociedade.

 

 

 

A Divina Eucaristia

Dom José Alberto Moura

É interessante ver que o Senhor realizou as Suas maiores obras nas últimas horas de Sua vida terrena. Sua Paixão, começando com a agonia no Monte das Oliveiras até o Seu último suspiro na cruz, é obra maior do que todos os Seus milagres juntos e, por isso, estas horas foram as mais decisivas da vida do Senhor. Se Ele não tivesse passado estas horas de Sua Paixão, nós ainda não seríamos redimidos. Faltaria o mais importante daquilo que fez em nosso favor.

Afinal, foi no alto da Cruz que Ele consumou a Sua obra, dizendo `Tudo está consumado!`

Por ser obra tão grande, perfeita e importante, a Paixão de Jesus sempre ficará presente na história, como escreve o Catecismo da Igreja Católica: `Quando chegou Sua hora, viveu o único evento da história que não passa: Jesus morre, é sepultado, ressuscita dentre os mortos e está sentado à direita do Pai `uma vez por todas`. É um evento ... único ... (que) abraça todos os tempos e nele se mantém presente` (cf. Cat. 1085). Este texto do Catecismo nos fala claramente: a Paixão, morte e ressurreição do Senhor é algo presente também em nossos dias. E se perguntarmos como isso é possível, devemos olhar para o Mistério da Santíssima Eucaristia. O Senhor não abandonou os Apóstolos sem antes ter deixado o Santíssimo Sacramento, que é a perpetuação de tudo o que Ele tinha feito em favor de Seus amados.

Isto é algo que nós homens nunca conseguiremos imitar. Podemos, por exemplo, filmar um acontecimento e depois ver novamente o que aconteceu no filme. Por exemplo, o filme de Mel Gibson sobre a Paixão de Cristo, mesmo se fosse uma filmagem de Jesus mesmo em Sua Paixão, é muito diferente daquilo que é a Santa Missa. Este filme seria menos real do que aquilo que acontece na Missa, pois mostraria como foi a Paixão, mas na Paixão mesma não mudaria nada, enquanto a celebração da Santa Missa faz presente o acontecido de tal maneira que misteriosamente podemos participar naquilo que Jesus fez nestas horas e receber o fruto de Sua obra maravilhosa.

Ao instituir o Santíssimo Sacramento, o Senhor deu aos homens a possibilidade de viver perto d`Ele e de unir cada instante da vida com a Sua obra e Sua vida, Sua Encarnação, Paixão, morte e ressurreição. Com isso, Ele quis provocar uma mudança radical de toda nossa vida. Em seguida, vamos tentar aplicar isso a nosso trabalho, pois o Senhor quer mudar também o sentido do trabalho humano por meio da Santíssima Eucaristia.

A Santíssima Eucaristia e o trabalho humano


Já no início de Seu discurso sobre o Pão da vida disse: `Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que dura até a vida eterna, que o Filho do Homem vos dará` (Jo 6, 27). Quer dizer que ao instituir o Santíssimo Sacramento, o Senhor quis mudar realmente o sentido de nosso trabalho. `Trabalhai não pela comida que perece` é uma palavra que toca a raiz de nossa existência, pois todo homem tem que trabalhar para ganhar o pão de cada dia, senão vai morrer de fome. E o próprio São Paulo nos exorta: `Quem não quiser trabalhar, não tem o direito de comer` (2 Tess 3, 10).

A Santíssima Eucaristia é algo tão precioso que não pode haver coisa alguma em nossa vida sem relação com este `Santíssimo e Diviníssimo` Mistério. Quando o Senhor nos admoesta `Trabalhai não pela comida que perece`, podemos perceber por detrás destas palavras a Sua preocupação de que, ao começar a trabalhar pelo pão que perece e pelas coisas terrenas - nos esqueçamos do grande Dom da Santíssima Eucaristia. O Senhor não quer que trabalhemos sem nos aproximar mais do Pão celeste por meio deste mesmo trabalho.

E, de fato, o nosso trabalho tem uma ligação íntima com a Santíssima Eucaristia. Não reza o sacerdote no ofertório da Santa Missa: `Bendito sejais, Senhor, Deus do universo, pelo pão que recebemos de Vossa bondade, fruto da terra e do trabalho humano, que agora Vos apresentamos, e para nós se vai tornar Pão da vida`?

Por meio desta prece, o sacerdote oferece todo nosso trabalho ao Pai Celeste. Desta maneira tudo o que fazemos é transformado e é participação na obra do Senhor. Mas não somente isso, até podemos dizer que sem o trabalho humano nem haveria Missa,
pois não teríamos pão se ninguém semeasse o trigo e o colhesse, se outro não fizesse deste trigo farinha, se outro não fizesse da farinha uma massa e desta massa um pão.

Vemos que o sentido de nosso trabalho não é simplesmente ganhar dinheiro, o sustento da vida, por mais necessário que seja isso, mas o trabalho tem um sentido muito mais profundo. E a Santa Missa nos revela este sentido: como o pão é feito por meio do trabalho humano e depois é transformado no Corpo de Cristo, assim todo nosso trabalho deve servir para a edificação do Corpo de Cristo, também pelo Seu Corpo Místico que é a Santa Igreja, o Reino de Deus na terra.

O Senhor poderia ter escolhido outra coisa, por exemplo, uma pedra preciosa para ser transformada em Seu Corpo e uma fruta saborosa a ser transformada em Seu Sangue, mas não quis assim. Usou pão, que desde o paraíso perdido o homem ganha `no suor de seu rosto`, e com isso nos ensina que sem esforço humano, sem trabalho da parte dos homens, Ele não quer realizar o mistério da transubstanciação. O Senhor não quer converter qualquer coisa em Seu Corpo, mas escolheu o pão que exige de nossa parte a colaboração para preparar o Divino Mistério, como também quer a colaboração dos sacerdotes na transformação do pão em Seu Corpo. `Trabalhai, não pela comida que perece` eis a razão de nosso trabalhar: o Pão do céu!

Recebemos um salário pelo trabalho, e assim deve ser. Mas, ao ofertar o nosso trabalho ao Senhor na Missa pelas mãos do sacerdote, Ele aceita também tudo o que fizemos, se foi na reta intenção que o realizamos, e nos `paga` também o salário: nos dá o Pão do céu! Este é o verdadeiro salário de nossas obras. São as moedas celestes, as graças que nos fazem merecer entrar pela porta do céu.

Fonte: Salvemaliturgia.com

 

 

 

SÓ PELO SACRAMENTO SOMOS PERDOADOS?

 

Frei Faustino Paludo, OFMCap

 

                Num encontro com casais, falando sobre o sacramento da Penitência e Reconciliação, um casal levantou a seguinte questão: “quer dizer que um pecador só é perdoado de seus pecados mediante o sacramento da Penitência? Não há outro jeito?” Este questionamento, com certeza, é também o de muitas pessoas em busca de resposta.

 

Em primeiro lugar, é um apena que para a maioria das pessoas este sacramento está vinculado mais ao pecado que ao encontro com o amor misericordioso de Deus. Além do mais, as pessoas que se empenham no cultivo de sua fé e de sua prática cristã  não deveriam se acercar do sacramento apenas para se livrar de um fardo pesado (os pecados), mas para celebrar a alegria da paz que brota do encontro com o Senhor Ressuscitado. Quer dizer, a celebração deste sacramento é, primeiro lugar, ação na qual a Igreja proclama sua fé no amor misericordioso do Pai e lhe rende graças (cf RP 7b). A base do sacramento da Penitência é o amor incondicional do Pai. A celebração do sacramento da Reconciliação tem como fundamento a Páscoa de Jesus, seu mistério Pascal, acontecendo hoje, na vida das pessoas e da sociedade que se coloca no caminho do Reino de Deus (cf Conclusões do Seminário sobre a Reconciliação, coleção Estudos da CNBB, n. 96).

 

            Muita gente se interroga sobre que pecados devemos nos confessar. Desde os primeiros séculos até os nossos dias, a Igreja recomenda aos seus fiéis: “Aquele que quiser obter a reconciliação com Deus e com a Igreja, deve confessar ao sacerdote todos os pecados graves que ainda não confessou e de que se lembra depois de examinar cuidadosamente sua consciência” (CEC 1493, cf. 1456). “Apesar de não ser estritamente necessária, a confissão das faltas cotidianas (pecados veniais) é recomendada pela Igreja (CEC 1458 e 1493)”.

 

           A Igreja também afirma que a vida cristã se renova e se fortalece pela participação nas celebrações penitenciais da comunidade, tidas como “reuniões do povo de Deus para ouvir a sua Palavra, que convida à conversão e à renovação de vida, proclamando também nossa libertação do pecado e pela morte e ressurreição de Cristo” (RP 36). Estas celebrações são recomendadas e úteis para motivar à conversão e à integridade da vida cristã (cf RP 37).

 

           A virtude da penitência, isto é, a atitude de conversão permanente  é sustentada por muitas formas. Conhecemos as três formas clássicas da prática do jejum, da oração e da esmola  (cf Mt 6,2-18). Estas exprimem a conversão com relação a si mesmo, a Deus e aos outros. Ainda, a vida cristã como processo conversão se realiza e se alimenta no cotidiano através de gestos de reconciliação, do cuidado dos pobres, do exercício e da defesa da justiça e do direito, da prática da correção fraterna, da aceitação das provações, da participação ativa na Eucaristia, da leitura da Sagrada Escritura, da oração do Oficio Divino e do Pai-nosso, da observância dos tempos penitenciais e momentos fortes do Ano Litúrgico, das peregrinações e romarias aos santuários, etc. “Todo ato sincero de culto ou de piedade reaviva em nós o espírito de conversão e de penitência e contribui para o perdão dos pecados (CEC 1437)”.

 

           Para concluir a presente reflexão valho-me das palavras do apóstolo Pedro: a sobriedade, a oração e, sobretudo, amor, cobre uma multidão de pecados (cf. 1Pd 4,8).

 Fonte: cnbb liturgia

 

 

 

O QUE SE ENTENDE POR “SACRAMENTO”?

 

Pe. Gregório Lutz, CSSp

 

            Muitos católicos dizem que os sacramentos são sinais de graça. Alguns dizem com mais precisão que são sinais eficazes de graça. Outros acrescentarão que foram instituídos por Jesus Cristo. E certamente não faltará quem diz que existem sete sacramentos, e os enumera: Batismo, confirmação, eucaristia, penitência, unção dos enfermos, ordem e matrimônio. Mas assim é realmente claro o que é um sacramento?

 

            Para conseguirmos mais clareza, olhemos uma vez como se realiza um sacramento, por exemplo, o batismo, um casamento ou uma celebração da eucaristia! Há sempre um grupo grande ou pequeno de pessoas reunidas que ouvem a Palavra de Deus e a ela respondem em oração e canto, e há sempre também um rito, gestos e sinais, acompanhados por palavras que dizem o que este gesto significa. Tal significado vai sempre além da simples ação física. A ação sacramental opera a salvação, leva a ação salvífica de Cristo aqui e agora a efeito nas pessoas que celebram o sacramento. Esta eficácia dos sacramentos é evidentemente obra divina que se dá através das ações simbólicas dos ministros dos sacramentos, e não sem a cooperação da assembléia dos fiéis e, sobretudo, daqueles que recebem um sacramento. Estes devem se abrir para o dom da graça que Deus lhes quer dar no respectivo sacramento. E toda a comunidade reunida participa da ação sacramental, pelo menos ouvindo a Palavra de Deus e respondendo a ela em ação de graças e louvor, assim como em súplica e intercessão.

 

            A instituição dos sacramentos por Jesus Cristo procurava-se - e muitos ainda procuram - prová-la para cada sacramento do Novo Testamento. Isso é possível para o batismo e a eucaristia, talvez ainda para a penitência; para os outros sacramentos é mais difícil ou impossível. Mas, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II, a origem dos sacramentos em Jesus Cristo não se vê como instituição jurídica, mas como um nascimento do próprio Jesus.

 

            Reflexões posteriores mais detalhadas sobre a origem dos sacramentos, sua estrutura em sinais e palavras, e a ação sacramental em conjunto de Deus e da Igreja, nos ajudarão a entender ainda melhor o que é mesmo um sacramento.

 

 


 

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:

 

1.         Que definição ou descrição de “sacramento” você aprendeu na catequese?

2.         Que perguntas esta definição ou descrição deixou em aberto?

3.         O que você diria agora em breves palavras, se alguém perguntasse: o que é um sacramento?

 

 

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:

 

1.         Só pelo sacramento da Penitência somos reconciliados?

2.         Que práticas de vida cristã fortaleceriam relações reconciliadas entre as pessoas?

3.         Em que tempos e momentos do Ano Litúrgico as comunidades deveriam promover celebrações penitenciais?

 

 Fonte: cnbb liturgia


O uso do projetor multimídia na liturgia
 
 
 
Elementos para reflexão

1.    O uso do projetor multimídia na liturgia é hoje uma realidade frequente em nossas comunidades. Por se tratar de uma realidade relativamente recente e ainda pouco refletida em nosso meio, causando discussões e até mesmo divergências de opinião, a Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia da CNBB quer oferecer, com a presente nota, alguns elementos para uma reflexão e futuros aprofundamentos da parte do episcopado nacional, dos liturgistas, dos párocos e todos os agentes de pastoral litúrgica em nosso país e, sobretudo, daqueles que utilizam o projetor multimídia como recurso para a liturgia.

2.    A partir do Concílio Vaticano II e da reforma litúrgica dele derivada, como compreender esta realidade? Seria esta uma simples adaptação à cultura moderna? Apenas uma moda, como foi com o retroprojetor, que depois caiu em desuso? Uma criatividade litúrgica? Quais os motivos da introdução deste meio na liturgia? Seria o projetor multimídia algo a ser realmente necessário na liturgia?

Vendo a realidade do uso do projetor multimídia na liturgia

3.    Em diferentes comunidades, o projetor multimídia vem sendo utilizado como recurso audiovisual para, por exemplo:

•    projetar cantos num telão ou numa parede da igreja, inclusive fazendo correção de textos durante a ação ritual;
•    projetar as orações presidenciais, inclusive a oração eucarística, enquanto o presidente as proclama;
•    projetar as leituras bíblicas enquanto são proclamadas;
•    projetar a homilia ou parte dela, de forma esquemática, enquanto é proferida, chegando até mesmo a ser acompanhada por trilha sonora;
•    projetar, durante a homilia e a oração eucarística, imagens ou vídeo de Jesus retratando ações correspondentes a estes momentos rituais como, por exemplo, cenas da última ceia projetadas durante a narrativa da instituição, no momento em que Jesus parte o pão;
•    projetar ícones em diferentes momentos da celebração, bem como mensagens após a comunhão;
•    e também projetar os textos da liturgia das horas.

Estes exemplos - como outros que poderiam ser citados -, nos servirão de referência para refletirmos sobre a complexa realidade do uso do projetor multimídia na liturgia.

Justificativas comumente dadas para o uso

4.    São várias as justificativas apresentadas por aqueles que se utilizam deste meio. Dentre elas, elencamos algumas:

•    Por questões econômicas e ecológicas (menos custos e gastos de papel), a utilização do projetor multimídia leva a eliminar o uso dos “folhetos litúrgicos” e livros de cantos.
•    É mais prático, tendo os textos em um só lugar e projetá-los, do que multiplicar e distribuir papéis, como aqueles usados para os cantos.
•    O uso do projetor multimídia ajuda e facilita a participação da assembleia na liturgia, porque ela (a assembleia) se vê livre e despreocupada de manter folhas e objetos nas mãos.

Elementos para reflexão sobre essa realidade

5.    É compreensível a iniciativa do uso do projetor multimídia com as suas justificativas, pois revelam zelo e preocupação pastoral em relação à liturgia. No entanto, do ponto de vista teológico-litúrgico, tudo isso demanda revisão, reflexão e aprofundamento, tendo em vista, sempre, a participação plena da assembleia.

6.    Na reflexão sobre esta realidade, um primeiro elemento a ser considerado é a noção de participação ativa na liturgia. O que é mesmo participar de uma ação litúrgica? É participar da salvação (cf. Sacrosanctum Concilium, SC, 2) que sempre de novo nos é dada através dos ritos e sinais sensíveis da liturgia da Igreja (cf. SC 5-7), pelos quais somos incorporados à morte e ressurreição de Cristo em seu mistério pascal (cf. SC 5-7).

7.    Os ritos têm o seu espaço próprio, cujo centro são as duas mesas: a da Palavra e da Eucaristia. A mesa da Eucaristia deve ocupar “um lugar que seja de fato o centro para onde espontaneamente se volte a atenção de toda a assembleia dos fiéis” (Instrução Geral ao Missal Romano, IGMR, n. 299). Isso significa que nada deve nos distrair deste centro. Caso contrário, a participação ativa ficará comprometida.

8.    A ação salvadora de Deus se dá, sobretudo, quando, em torno à mesa eucarística, é proclamada a grande ação de graças da Igreja ao Pai, por Cristo e no Espírito Santo. De fato, a oração eucarística é o “centro e ápice de toda a celebração” (IGMR n. 78), quando a mente e o coração de todos devem se voltar para o alto, isto é, para Deus. Portanto, no momento da sua proclamação, é importante que o foco das atenções esteja no altar para acompanharmos e participarmos deste momento ritual. Por isso, não convém que a assembleia acompanhe o texto da oração eucarística, seja ele impresso ou projetado, mas, com os olhos voltados para o altar, ouça a voz do presidente que proclama a solene ação de graças. Neste momento, não pode a assembleia centrar-se em imagens ou filmes projetados no telão. As aclamações da assembléia poderiam ser proferidas ou cantadas pelo diácono ou outro ministro e repetidas pelo povo.

9.    O que foi dito sobre mesa eucarística, pode-se também dizer sobre a mesa da Palavra, como nos ensina a Igreja: “A dignidade da Palavra de Deus requer na Igreja um lugar condigno de onde possa ser anunciada e para onde se volte espontaneamente a atenção dos fiéis no momento da liturgia da Palavra” (IGMR n. 309). Consequentemente, a Palavra de Deus, quando proclamada e comentada pela homilia, exige de nós a atitude discipular de escuta. Na liturgia, ela está para ser proclamada e ouvida. Assim sendo, estaria muito mais de acordo com a natureza da liturgia a assembleia voltar-se para o ambão, com olhos e ouvidos atentos ao ministro que proclama a Palavra “em voz alta e distinta” (cf. IGMR 38), em vez de acompanhá-la com os olhos fixos num texto impresso ou em projeções no telão.

10.     A participação ativa na liturgia exige uma interação entre quem proclama a Palavra e a assembleia que a escuta, entre a presidência e assembleia, entre esses e o próprio Deus, entre Deus e o seu povo, por força das ações rituais. Ao mesmo tempo, exige o uso cuidadoso dos livros litúrgicos, porque eles “lembram aos fiéis a presença de Deus que fala a seu povo... e são sinais e símbolos das realidades do alto na ação litúrgica” (Introdução ao Lecionário da Missa, ILM, 35), não devendo por isso ser “substituídos por outros subsídios de ordem pastoral” (ILM 37).

11.     O Concílio Vaticano II resgatou a ampla compreensão de presença real de Jesus Cristo na liturgia (no ministro, na Palavra, na assembleia orante, nos sacramentos, sobretudo nas espécies eucarísticas), proclamando que Cristo mesmo age nas ações litúrgicas (cf. SC 7). A Igreja nos convoca, pois, a valorizar estas diversas presenças. Imagens projetadas durante a celebração desviam a nossa atenção da ação de Jesus Cristo, aqui e agora, na própria ação ritual. Além disso, sendo o filme, ou vídeo, um acontecimento em si mesmo, não se destina a ilustrar outro acontecimento que é o mistério de Cristo e da Igreja na própria ação ritual em ato.

12.     O ministro, tanto no momento de proclamar a Palavra como na ação ritual de presidir a Eucaristia, age in persona Christi. O Cristo assume a voz, o olhar, o rosto, os braços, o corpo todo do ministro para, por ele, se comunicar com o povo cristão reunido em assembleia e, na unidade do Espírito Santo, glorificar ao Pai. Então, como fica quando a assembléia se vê obrigada a ter que desviar sua atenção para o telão, exatamente quando teria de contemplar a ação do Cristo vivo na pessoa do ministro? E como fica aí a “participação ativa”, no verdadeiro sentido teológico-litúrgico, pedida com insistência pelo Vaticano II?

13.     O uso do projetor multimídia na liturgia, como estamos vendo, além de interferir na ação ritual, entra em competição com a liturgia, gerando distração.

14.     O uso didático do projetor multimídia, utilizando aparelhos (computador, fiação, projetor, mesa, telão), sem dúvida interfere na composição e na estética do próprio espaço celebrativo enquanto “sinal e símbolo das coisas divinas” (cf. IGMR 288). Dependendo da localização, não seria o projetor multimídia um elemento estranho ao espaço celebrativo, dificultando a execução das ações sagradas e a ativa participação dos fiéis? Na verdade, com o uso desses aparatos corre-se inclusive o risco de tornar o espaço celebrativo em quase “sala de aula”, de “conferência”, ou uma extensão da minha “sala de TV”.

15.     Além do mais, com o uso de projetor multimídia na liturgia, não se corre o risco da acomodação, no sentido de não se precisar mais investir na formação litúrgica e nem mesmo buscar uma melhor qualidade do espaço celebrativo e, sobretudo, dos ministérios?

16.     O problema maior, talvez, está na falta de iniciação litúrgico-ritual. Qual o lugar que a liturgia ocupa na catequese? O que normalmente se ensina aos agentes de pastoral e comunidades? Quem o faz e que metodologia utiliza? Como estão sendo formados os futuros presbíteros e diáconos? A formação litúrgica muitas vezes fica reduzida a teoria, sem a devida formação para a ritualidade conjugada com a espiritualidade. Resultado: Recorre-se a folhetos, ao uso do projetor multimídia etc., desfocando assim a atenção da assembleia daquilo que é central na celebração. Liturgia é eminentemente ação, celebração: ação de Cristo e da Igreja, ação da assembleia em Cristo e no Espírito. Assim sendo, não tem como ser ela acompanhada por outra ação paralela assistida no telão. Não somos expectadores mas participantes.

17.      Enfim, podem as novas tecnologias colaborar em favor de uma liturgia participativa, pascal, simbólica e orante? É possível? Com certeza, e muito! Onde? Na catequese como preparação para o bem celebrar, nos cursos em preparação ao batismo e ao matrimônio, bem como nos cursos de formação litúrgica em geral. Aí, nestes espaços, o projetor multimídia presta, sem dúvida, um notável serviço à sagrada liturgia.

18.      Que o Espírito Santo nos ilumine, para que, a partir de uma séria reflexão sobre o uso do projetor multimídia em nossas liturgias, possamos qualificar sempre mais nossas celebrações e todos os seus ministérios. Tudo para que nossas assembléias litúrgicas, corpo eclesial de Cristo, possam sentir-se plenamente sujeito das ações rituais e, ao mesmo tempo, todas as pessoas que as compõem sintam-se envolvidas pelo mistério da salvação e glorifiquem ao Pai por uma vida santa.

fonte: cnbb


IMPORTÂNCIA DA VOZ 

 

         A voz humana, desde os tempos remotos, foi considerada pelos antigos, “arte sagrada” conforme (Zirmenmam). Para os gregos, a voz falada era pauta de estudo, sobretudo com a prática da declamação, enquanto a voz cantada era desenvolvida de forma coletiva e reservada às mulheres árabes e aos escravos. Entre as mais variadas formas de comunicação do ser humano, a voz é um dos mecanismos considerado mais eficientes e de grande poder, pois, depois da palavra, o silêncio.

                Além da comunicação através de símbolos, expressões corporais, sinais da natureza entre outros, encontra-se centenas de referências bíblicas relacionadas à voz como instrumento de comunicação entre Deus e o seu povo. De forma cantada, falada, gritada, murmurada e gemida, a voz expressou sentimentos de tristezas, alegrias e fé no Deus vivo, o Deus Abraão de Isaac e Moisés.  Para Mara Behlau a voz humana reflete como uma espécie de espelho interior e se constitui num meio para a transmissão da mensagem Divina. A voz é o nosso traço mais marcante, nosso cartão de visitas, capaz de nos distinguir e nos identificar, revelando nossa personalidade e nosso estado emocional. A voz tem o poder de sugestionar, persuadir e seduzir, podendo fascinar o ouvinte despertando nele inúmeras emoções e sentimentos (Nízia Cristina Alves Coelho. Psicóloga e Fonoaudióloga pela PUC MG).

Voz na liturgia antes do Concílio Vaticano II

                    Na tradição da Igreja, no século XX, o Modo próprio- TRA LE SOLLECITUDINI – sobre a música litúrgica, recomenda que “os cantores, embora leigos, realizem, propriamente, as funções de coro eclesiástico, pois cantores têm na Igreja verdadeiro oficio litúrgico”. No contexto eclesial da época, a Igreja, embora, consciente das qualidades vocais agudas, sopranos e contraltos, que são características atribuídas às vozes femininas, de grande importância para a liturgia cantada, não permitia a participação de mulheres nos ofícios litúrgicos. Esta função era atribuída aos meninos por terem um padrão vocal agudo. Anatomicamente falando, (segundo  Silvia Pinho), a voz da criança, devido processo de crescimento e maturação, até os 10 anos de idade,  não difere da voz da menina. Contudo, referente às considerações vocais, o Papa Pio XII, no Musicae Sacrae, ressalta a importância da voz humana considerando-a como “magnífica obra de arte” e afirma que o canto polifônico ganhou mais eficácia porque a voz dos cantores se juntou ao som do órgão e de outros instrumentos. 

Importância da Voz na Liturgia do SC

A função e o papel do canto na liturgia são assim descrita na SC (112): o canto como “parte necessária e integrante da liturgia” por exigência autêntica, deve ser a expressão da fé e da vida cristã de cada assembléia. Uma das principais funções que os documentos conciliares atribuem ao canto é que “pelo canto, a oração se exprime com maior suavidade”. (Doc 7 Cnbb).  Contudo, para “que a Palavra do Senhor se espalhe rapidamente e seja BEM recebida”. (Tess.3,1), O Salmo 150 proclama que: “Nosso Deus merece harmonioso louvor”. Portanto, faz-se necessário aos ministros da Palavra proclamada e cantada, zelar pela voz que tem por função propagar a boa notícia contribuindo com a aliança entre Deus e seu povo.

Cuidados com a voz como parâmetro para a Evangelização

Cuidar da voz, para o profissional é expressão de amor ao projeto que garante saúde e expressividade. Para quem atua na liturgia é zelo pelo mais sublime Dom de Deus em função do seu povo. Para manter a voz saudável é necessário: “evitar gritos e abusos vocais, evitar ingestão de bebidas destiladas e uso de tabagismo; ter uma boa qualidade de vida e saúde mental; hidratar bem a mucosa vocal; manter uma alimentação balanceada e, quanto possível, natural; evitar posturas inadequadas durante a emissão vocal falada e cantada; não se expor à poluição sonora e ambiental; evitar estresse; evitar uso indevido de microfones; fazer periódicas revisões da laringe; evitar cantar fora do seu registro médio, entre outros cuidados. Para melhor contribuir com a liturgia, é necessário cuidados como: não tomar posse de microfones, não usar o espaço litúrgico para “fazer show”, ouvir a voz do outro, ter sintonia com toda a assembléia, gastar tempo em ensaios, considerar que “a voz do povo é voz de Deus”. Santo Agostinho se emocionava ao ouvir os cânticos da igreja de santo Ambrósio, em Milão, no início da sua conversão, “não tanto pelo canto quanto pelo que vem cantado, se a execução é feita por uma bela voz e com adequada modulação” (Bruno Forte. A porta da beleza. p. 11).

Ir. Lúcia Silva, IMC

Especialista em Voz Clínica e Profissional


Alguns fatos referentes à visita do Santo Padre o Papa Francisco ao Brasil

Dom Vilson – Bispo de Limeira

 

1. Uma avaliação da JMJ – Rio 2013?

Os mais de três milhões de pessoas, sobretudo jovens, no magnífico cenário da praia de Copacabana, a presença carismática institucional e pessoal do Papa Francisco, suas palavras simples e diretas, a confraternização entre jovens de 180 nações presentes, o respeito das autoridades civis, a ordem, a paz, a ausência de ocorrências policiais, o clima religioso de oração, o entusiasmo, alegria da juventude e sua comoção até às lágrimas, a disponibilidade e abnegação dos 60 mil voluntários, o testemunho sincero dos estrangeiros, a afluência dos jovens brasileiros do Oiapoque ao Chuí, a calorosa acolhida feita aos visitantes, a presença de 800 Bispos e Cardeais, de milhares de padres, seminaristas e religiosas, as 900 catequeses dadas pelos Bispos nas diferentes Igrejas, as exposições, a belíssima e artística Via-Sacra, as Santas Missas, etc. ficarão para sempre gravadas no coração de todos, católicos ou não. Honra seja feita à Igreja Católica capaz dessa mobilização com tais características!

 

2. Depoimento de uma não católica:

“Não sou católica, mas a passagem do Papa Francisco pelo Rio me comoveu. Mais que uma mensagem de fé e esperança, o Papa Francisco é um exemplo vivo de sabedoria, simplicidade e caridade. Sua Santidade fez um milagre: com seus 76 anos, contagiou todas as faixas etárias, todos os diferentes credos e nos possibilitou viver, em apenas sete das, a Sexta-Feira da Paixão de Cristo, a Páscoa, o Corpus Christi e o Natal. A Jornada Mundial da Juventude é a maior demonstração de esperança que Sua Santidade deposita, em especial no jovem, para um futuro melhor. Tenho 18 anos, e aí eu me enquadro”, escreveu uma leitora de Niterói (O Globo, 29/7/2013, pág. 13).

 

3. A JMJ auxiliou e trouxe benefícios ao nosso país:

No lado material e financeiro, dados do Ministério do Turismo revelam que dois milhões de turistas estiveram no Rio durante a JMJ, movimentando R$1,2 bilhão na economia da cidade, um recorde de visitação no país, o que supera em muito os gastos investidos na Jornada. Além disso, segundo a mesma fonte, 93% dos turistas vindos de 170 países pretendem voltar para conhecer melhor o Rio: grande benefício para o turismo. Os seis mil jornalistas de mais de 70 países que cobriram a Jornada, levaram ao mundo inteiro, assim como os visitantes, o saudável impacto espiritual, religioso, artístico e ordeiro que o Rio de Janeiro lhes ofereceu.

 

O pedido do papa por mais humildade?

O Papa Francisco desde que chegou trouxe lições e acolhida e humildade. Em sua primeiira fala com autoridades brasileiras disse entre outras palavras: “Não tenho ouro nem prata, mas trago o que de mais precioso me foi dado: Jesus Cristo! Venho em seu Nome, para alimentar a chama de amor fraterno que arde em cada coração; e desejo que chegue a todos e a cada um a minha saudação: “A paz de Cristo esteja com vocês!” Vemos aqui o seu pedido de licença pra entrar em nossas casas , em nossa  nação, a trazer uma mensagem de paz e de esperança, a todas as pessoas, especialmente à juventude. Seus gestos falaram mais alto que suaas palavras, na acolhida das ciranças, da juventude, dos enfermos, etc.

 

 

MISSA EM APARECIDA COM O PAPA FRANCISCO

Dom Vilson Dias de Oliveira, DC, Bispo Diocesano de Limeira, SP e diversos padres, diáconos, seminaristas, leigos/as desta Diocese participaram da Eucaristia presidida pelo Papa Francisco em Aparecida.  Um momento ímpar para a Igreja Católica em nosso país. O Santo Padre motivou e encorajou a todos a viverem o seguimento de Cristo. Motivou especialmente os jovens com suas palavras de ânimo e encorajamento. Ofereceu e confiou a JMJ-Rio 2013 à proteção de nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil.

 

Juventude: Janela pela qual o futuro entra no mundo

O Papa ressaltou que a juventude “é a janela pela qual o futuro entra no mundo” e, por isso, impõe grandes desafios. “A nossa geração se demonstrará à altura da promessa contida em cada jovem quando souber abrir-lhe espaço; tutelar as condições materiais e imateriais para o seu pleno desenvolvimento; oferecer a ele fundamentos sólidos, sobre os quais construir a vida; garantir-lhe segurança e educação para que se torne aquilo que ele pode ser; transmitir-lhe valores duradouros pelos quais a vida mereça ser vivida, assegurar-lhe um horizonte transcendente que responda à sede de felicidade autêntica, suscitando nele a criatividade do bem; entregar-lhe a herança de um mundo que corresponda à medida da vida humana; despertar nele as melhores potencialidades para que seja sujeito do próprio amanhã e co-responsável do destino de todos”.

 

O Papa Francisco mostrou-se como pessoa de diálogo:

Delicadeza da atenção e, se possível, a necessária empatia para estabelecer um diálogo de amigos. Nesta hora, os braços do Papa se alargam para abraçar a inteira nação brasileira, na sua complexa riqueza humana, cultural e religiosa. Desde a Amazônia até os pampas, dos sertões até o Pantanal, dos vilarejos até as metrópoles, ninguém se sinta excluído do afeto do Papa”. Assim, a Igreja deve aproximar-se sempre mais das pessoas, da sociedade, no sentido de levar a boa nova da vida a todos os povos, pois segue os ditames do próprio Cristo, de ir e fazer discípulos em todas as noções.

 

 

Sobre a humildade o Papa Francisco nos ensina:

O Papa Francisco quer nos ensinar a humildade, que começa com a confissão de que somos pecadores. Ele é o vigário de Jesus Cristo na terra. Jesus, sendo Deus santíssimo, tomou sobre si os nossos pecados: “Aquele que não cometeu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nos tornássemos justiça de Deus (2 Cor 5, 21). Jesus, inocente e puro, quis passar por pecador. Foi assim que ele juntou-se ao povo para receber o batismo de penitência dado por João no rio Jordão. Nós, ao invés, sendo pecadores, queremos passar por santos. E ficamos indignados quando somos tratados como pecadores! “Se dissermos que não temos pecado, estamos enganando a nós mesmos, e a verdade não está em nós” (1Jo 1, 8). Por isso a Igreja, mãe sábia, na sua sagrada Liturgia, nos ensina sempre a humildade: “Eu, pecador, me confesso... porque pequei muitas vezes..., por minha culpa, minha culpa, minha tão grande culpa”; com muitas súplicas ao perdão e à misericórdia de Deus: “não olheis os nossos pecados, mas a fé que anima a vossa Igreja”.

 

Humildade é fonte de paz! Como a Igreja se aproxima da sociedade?

“Sede discípulos meus, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vós” (Mt 11, 29). A humildade é fonte de paz, de fraternidade e união. É o oposto da hipocrisia.  E para ser humilde é preciso ser forte, corajoso e valente. Assim, a Igreja deve ser próxima das pessoas, como nos ensinou o Papa Francisco, ser próximo como a mãe que acalenta o seu filho. O bispo, o padre, o diácono, a liderança de igreja: leigo/a, deve ser próximo das pessoas, tanto no amor, como no conhecimento, como nos gestos de acolhida e solidariedade. Nossa diocese abriu 32 novas paróquias e ordenou 40 sacerdotes, justamente para estar mais próxima das pessoas. E o trabalho tem gerado muitos frutos.

 

 


HOMILIA NA MISSA NO SANTUÁRIO NACIONAL DE APARECIDA

Quarta-feira, 24 de Julho de 2013

 

Eminentíssimo Senhor Cardeal,

Venerados irmãos no episcopado e no sacerdócio,

Queridos irmãos e irmãs!

Quanta alegria me dá vir à casa da Mãe de cada brasileiro, o Santuário de Nossa Senhora Aparecida. No dia seguinte à minha eleição como Bispo de Roma fui visitar a Basílica de Santa Maria Maior, para confiar a Nossa Senhora o meu ministério. Hoje, eu quis vir aqui para suplicar à Maria, nossa Mãe, o bom êxito da Jornada Mundial da Juventude e colocar aos seus pés a vida do povo latino-americano.

Queria dizer-lhes, primeiramente, uma coisa. Neste Santuário, seis anos atrás, quando aqui se realizou a V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, pude dar-me conta pessoalmente de um fato belíssimo: ver como os Bispos – que trabalharam sobre o tema do encontro com Cristo, discipulado e missão – eram animados, acompanhados e, em certo sentido, inspirados pelos milhares de peregrinos que vinham diariamente confiar a sua vida a Nossa Senhora: aquela Conferência foi um grande momento de vida de Igreja. E, de fato, pode-se dizer que o Documento de Aparecida nasceu justamente deste encontro entre os trabalhos dos Pastores e a fé simples dos romeiros, sob a proteção maternal de Maria. A Igreja, quando busca Cristo, bate sempre à casa da Mãe e pede: “Mostrai-nos Jesus”. É de Maria que se aprende o verdadeiro discipulado. E, por isso, a Igreja sai em missão sempre na esteira de Maria.

Assim, de cara à Jornada Mundial da Juventude que me trouxe até o Brasil, também eu venho hoje bater à porta da casa de Maria, que amou e educou Jesus, para que ajude a todos nós, os Pastores do Povo de Deus, aos pais e aos educadores, a transmitir aos nossos jovens os valores que farão deles construtores de um País e de um mundo mais justo, solidário e fraterno. Para tal, gostaria de chamar à atenção para três simples posturas, três simples posturas: Conservar a esperança; deixar-se surpreender por Deus; viver na alegria.

 

1. Conservar a esperança. A segunda leitura da Missa apresenta uma cena dramática: uma mulher – figura de Maria e da Igreja – sendo perseguida por um Dragão – o diabo - que quer lhe devorar o filho. A cena, porém, não é de morte, mas de vida, porque Deus intervém e coloca o filho a salvo (cfr. Ap 12,13a.15-16a). Quantas dificuldades na vida de cada um, no nosso povo, nas nossas comunidades, mas, por maiores que possam parecer, Deus nunca deixa que sejamos submergidos. Frente ao desânimo que poderia aparecer na vida, em quem trabalha na evangelização ou em quem se esforça por viver a fé como pai e mãe de família, quero dizer com força: Tenham sempre no coração esta certeza! Deus caminha a seu lado, nunca lhes deixa desamparados! Nunca percamos a esperança! Nunca deixemos que ela se apague nos nossos corações! O “dragão”, o mal, faz-se presente na nossa história, mas ele não é o mais forte. Deus é o mais forte, e Deus é a nossa esperança! É verdade que hoje, mais ou menos todas as pessoas, e também os nossos jovens, experimentam o fascínio de tantos ídolos que se colocam no lugar de Deus e parecem dar esperança: o dinheiro, o poder, o sucesso, o prazer. Frequentemente, uma sensação de solidão e de vazio entra no coração de muitos e conduz à busca de compensações, destes ídolos passageiros. Queridos irmãos e irmãs, sejamos luzeiros de esperança! Tenhamos uma visão positiva sobre a realidade. Encorajemos a generosidade que caracteriza os jovens, acompanhando-lhes no processo de se tornarem protagonistas da construção de um mundo melhor: eles são um motor potente para a Igreja e para a sociedade. Eles não precisam só de coisas, precisam sobretudo que lhes sejam propostos aqueles valores imateriais que são o coração espiritual de um povo, a memória de um povo. Neste Santuário, que faz parte da memória do Brasil, podemos quase que apalpá-los: espiritualidade, generosidade, solidariedade, perseverança, fraternidade, alegria; trata-se de valores que encontram a sua raiz mais profunda na fé cristã.

 

2. A segunda postura: Deixar-se surpreender por Deus. Quem é homem e mulher de esperança – a grande esperança que a fé nos dá – sabe que, mesmo em meio às dificuldades, Deus atua e nos surpreende. A história deste Santuário serve de exemplo: três pescadores, depois de um dia sem conseguir apanhar peixes, nas águas do Rio Parnaíba, encontram algo inesperado: uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. Quem poderia imaginar que o lugar de uma pesca infrutífera, tornar-se-ia o lugar onde todos os brasileiros podem se sentir filhos de uma mesma Mãe? Deus sempre surpreende, como o vinho novo, no Evangelho que ouvimos. Deus sempre nos reserva o melhor. Mas pede que nos deixemos surpreender pelo seu amor, que acolhamos as suas surpresas. Confiemos em Deus! Longe d’Ele, o vinho da alegria, o vinho da esperança, se esgota. Se nos aproximamos d’Ele, se permanecemos com Ele, aquilo que parece água fria, aquilo que é dificuldade, aquilo que é pecado, se transforma em vinho novo de amizade com Ele.

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3. A terceira postura: Viver na alegria. Queridos amigos, se caminhamos na esperança, deixando-nos surpreender pelo vinho novo que Jesus nos oferece, há alegria no nosso coração e não podemos deixar de ser testemunhas dessa alegria. O cristão é alegre, nunca está triste. Deus nos acompanha. Temos uma Mãe que sempre intercede pela vida dos seus filhos, por nós, como a rainha Ester na primeira leitura (cf. Est 5, 3). Jesus nos mostrou que a face de Deus é a de um Pai que nos ama. O pecado e a morte foram derrotados. O cristão não pode ser pessimista! Não pode ter uma cara de quem parece num constante estado de luto. Se estivermos verdadeiramente enamorados de Cristo e sentirmos o quanto Ele nos ama, o nosso coração se “incendiará” de tal alegria que contagiará quem estiver ao nosso lado. Como dizia Bento XVI, aqui neste Santuário: “O discípulo sabe que sem Cristo não há luz, não há esperança, não há amor, não há futuro” (Discurso inaugural da Conferência de Aparecida [13 de maio de 2007]: Insegnamenti III/1 [2007], 861).

Queridos amigos, viemos bater à porta da casa de Maria. Ela abriu-nos, fez-nos entrar e nos aponta o seu Filho. Agora Ela nos pede: “Fazei o que Ele vos disser” (Jo 2,5). Sim, Mãe, nos comprometemos a fazer o que Jesus nos disser! E o faremos com esperança, confiantes nas surpresas de Deus e cheios de alegria. Assim seja.

 


Texto: Mitos Liturgicos 

Autor: Francisco Dockhorn

Revisão teológica: Dom Antonio Carlos Rossi Keller, Bispo da Diocese de Frederico Westphalen-RS

Publicação original: 11 de Fevereiro de 2009, 151º aniversário das aparições da Santíssima Virgem em Lourdes

Fonte: 
http://www.reinodavirgem.com.br/

Quando eu era criança, tínhamos na creche que eu freqüentava a `hora do conto`, onde se contavam estórias sobre lendas infantis, como: chapeuzinho vermelho, lobo mau, branca de neve, sete anões, João e Maria, três porquinhos, Cinderela, Saci-Pererê, etc.

Infelizmente, tenho visto que muitos escritos sobre Liturgia editados no Brasil e muitos cursos de Liturgia ao nosso redor tem se tornado uma `hora do conto`, onde se ensina mitos que não correspondem à verdade da doutrina e da disciplina da Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

Não me refiro, evidentemente, à má intenção de quem promove ou ministra tais cursos, pois isto não cabe a mim julgar. A avaliação que faço aqui é puramente a nível de conteúdo.

Vejo que é freqüente se ensinar mitos como: `A Presença de Jesus na Palavra é tão completa como na Eucaristia; a Eucaristia é para ser comida e não para ser adorada; a adoração eucarística fora da Missa é ultrapassada; na consagração deve-se estar em pé; a noção da Missa como Sacrifício é ultrapassada; é mais expressivo no altar a imagem de Jesus Ressuscitado do que de Jesus crucificado; quem celebra a Missa não é o Padre, e sim toda a comunidade; a Igreja pode vir a ordenar mulheres; a Missa é para os fiéis; não se assiste à Missa; qualquer pessoa pode comungar; a absolvição comunitária substitui a confissão individual; é errado comungar na boca e de joelhos; a comunhão tem que ser em duas espécies; o Ministério extraordinário da Sagrada Comunhão existe para promover a participação dos leigos; o cálice e o cibório podem ser de qualquer material; os fiéis podem rezar junto a doxologia e a oração da paz; o sacerdote usar casula é algo ultrapassado; o Concílio Vaticano II aboliu o latim; para participar bem da Missa é preciso entender a língua que o padre celebra; o canto gregoriano é algo ultrapassado; atualmente o padre tem que rezar de frente para os fiéis; o Sacrário no centro é anti-litúrgico; não se deve ter imagens dos santos nas igrejas; cada comunidade deve ter a Missa do seu jeito; pode-se fazer tudo o que o Missal não proíbe; o padre é autoridade, por isso deve-se obedecê-lo em tudo; procurar obedecer à leis é farisaísmo; o que importa é o coração; a Missa Tridentina é antiquada; para celebrar a Missa Tridentina é preciso autorização do Bispo local; ir à Missa dominical não é obrigação.`

A diferença entre tais idéias e o autêntico pensamento católico é facilmente constatada, confrontando estes mitos aos documentos oficiais da Santa Igreja editados em Roma. São idéias que, evidentemente, não surgiram ao acaso, mas são fruto direto ou influência de uma teologia litúrgica modernista e incompatível com a autêntica teologia católica. Aqui na América Latina, muitas delas foram historicamente reforçadas pela disseminação de teologias importadas e da chamada `Teologia da Libertação`, esta de caráter marxista, que é incompatível com o pensamento da Santa Igreja e faz uma releitura de toda teologia (inclusive da teologia litúrgica), como está expresso em diversos documentos do Sagrado Magistério (ver a `Instrução sobre alguns aspectos da Teologia da Libertação`, da Sagrada Congregação para Doutrina da Fé, de 06 de Agosto de 1984).

O objetivo deste artigo é expor abaixo cada um desses mitos litúrgicos citados e os contrapor com a palavra oficial da Santa Igreja. Todas as citações utilizadas sobre disciplina litúrgica, de documentos da Santa Igreja, se aplicam à forma do Rito Romano aprovada pelo Papa Paulo VI (que é atualmente a forma ordinária), com exceção dos mitos 30 e 31, que falam expressamente sobre a Missa Tridentina, que é a forma tradicional e (atualmente) extraordinária do Rito Romano.

Vamos aos mitos listados (32, ao todo) e suas contra-argumentações:

Mito 1: `A Presença de Jesus na Palavra é tão completa como na Eucaristia`

Não é.

Ensina-nos o Sagrado Magistério da Santa Igreja Católica Apostólica Romana que Nosso Senhor Jesus Cristo está presente verdadeiramente e substancialmente no Santíssimo Sacramento do Altar, em Corpo, Sangue, Alma e Divindade, nas aparências do pão e do vinho, como afirma o Catecismo da Igreja Católica (Cat.), nos números 1374-1377.

E por na Hóstia Consagrada Nosso Senhor está presente de maneira substancial, o Papa Paulo VI afirma (Encíclica Mysterium Fidei, n. 40-41, de 1965) a supremacia da Presença Eucarística de Nosso Senhor sobre as demais formas de presença:

`Estas várias maneiras de presença enchem o espírito de assombro e levam-nos a contemplar o Mistério da Igreja. Outra é, contudo, e verdadeiramente sublime, a presença de Cristo na sua Igreja pelo Sacramento da Eucaristia. Por causa dela, é este Sacramento, comparado com os outros, `mais suave para a devoção, mais belo para a inteligência, mais santo pelo que encerra`; contém, de fato, o próprio Cristo e é `como que a perfeição da vida espiritual e o fim de todos os Sacramentos`. Esta presença chama-se `real`, não por exclusão como se as outras não fossem `reais`, mas por antonomásia porque é substancial, quer dizer, por ela está presente, de fato, Cristo completo, Deus e homem.`

Também o próprio Concílio Vaticano II, na Constituição Sacrosanctum Concilium (n.7), afirma esta supremacia da Presença Eucarística: `Para realizar tão grande obra, Cristo está sempre presente na sua igreja, especialmente nas ações litúrgicas. Está presente no sacrifício da Missa, quer na pessoa do ministro - «O que se oferece agora pelo ministério sacerdotal é o mesmo que se ofereceu na Cruz» - quer e SOBRETUDO sob as espécies eucarísticas.`

Afirmar que a presença de Nosso Senhor na Palavra é tão completa como na Hóstia consagrada significa uma dessas duas coisas: afirmar que Nosso Senhor se transubstancia na Palavra (aí fazemos o que, comemos a Bíblia e o Lecionário?), ou negar a Presença Substancial de Nosso Senhor na Hóstia Consagrada, o que atenta conta o Mistério central da fé católica, pois a Eucaristia é `fonte e ápice da vida cristã` (Lumen Gentium, n.11)

Mito 2: `A Eucaristia é para ser comida e não para ser adorada`

É para ser adorada, sim.

A Hóstia consagrada é a Presença Real e substancial de Nosso Senhor, e por isso a Santa Igreja dedica a ela toda a adoração. O Santo Padre Bento XVI responde (Exortação Sacramentum Caritatis, n.66, de 2006) :`...aconteceu às vezes não se perceber com suficiente clareza a relação intrínseca entre a Santa Missa e a adoração do Santíssimo Sacramento; uma objeção então em voga, por exemplo, partia da idéia que o pão eucarístico nos fora dado não para ser contemplado, mas comido. Ora, tal contraposição, vista à luz da experiência de oração da Igreja, aparece realmente destituída de qualquer fundamento; já Santo Agostinho dissera: « Nemo autem illam carnem manducat, nisi prius adoraverit; (...) peccemus non adorando – ninguém come esta carne, sem antes a adorar; (...) pecaríamos se não a adorássemos ». De facto, na Eucaristia, o Filho de Deus vem ao nosso encontro e deseja unir-Se conosco; a adoração eucarística é apenas o prolongamento visível da celebração eucarística, a qual, em si mesma, é o maior ato de adoração da Igreja: receber a Eucaristia significa colocar-se em atitude de adoração d`Aquele que comungamos.`

Dizer que a Eucaristia não é para ser adorada implica em negar a que a Hóstia Consagrada é o Corpo de Nosso Senhor, ou pensar que Deus não é digno de adoração...

Mito 3: `A adoração eucarística fora da Missa é ultrapassada`

Não é.

O saudoso Papa João Paulo II escreveu (Encíclica Ecclesia de Eucharistia, n. 25, de 2003): `Se atualmente o cristianismo se deve caracterizar sobretudo pela « arte da oração », como não sentir de novo a necessidade de permanecer longamente, em diálogo espiritual, adoração silenciosa, atitude de amor, diante de Cristo presente no Santíssimo Sacramento? Quantas vezes, meus queridos irmãos e irmãs, fiz esta experiência, recebendo dela força, consolação, apoio! Desta prática, muitas vezes louvada e recomendada pelo Magistério, deram-nos o exemplo numerosos Santos. De modo particular, distinguiu-se nisto S. Afonso Maria de Ligório, que escrevia: A devoção de adorar Jesus sacramentado é, depois dos sacramentos, a primeira de todas as devoções, a mais agradável a Deus e a mais útil para nós. A Eucaristia é um tesouro inestimável: não só a sua celebração, mas também o permanecer diante dela fora da Missa permite-nos beber na própria fonte da graça.`

E o Santo Padre Bento XVI acrescenta (Sacramentum Caritatis, n. 66-67): `De fato, na Eucaristia, o Filho de Deus vem ao nosso encontro e deseja unir-Se conosco; a adoração eucarística é apenas o prolongamento visível da celebração eucarística, a qual, em si mesma, é o maior ato de adoração da Igreja: receber a Eucaristia significa colocar-se em atitude de adoração d`Aquele que comungamos. Precisamente assim, e apenas assim, é que nos tornamos um só com Ele e, de algum modo, saboreamos antecipadamente a beleza da liturgia celeste. O ato de adoração fora da Santa Missa prolonga e intensifica aquilo que se fez na própria celebração litúrgica. (...) Juntamente com a assembléia sinodal, recomendo, pois, vivamente aos pastores da Igreja e ao povo de Deus a prática da adoração eucarística tanto pessoal como comunitária. Para isso, será de grande proveito uma catequese específica na qual se explique aos fiéis a importância deste ato de culto que permite viver, mais profundamente e com maior fruto, a própria celebração litúrgica. Depois, na medida do possível e sobretudo nos centros mais populosos, será conveniente individuar igrejas ou capelas que se possam reservar propositadamente para a adoração perpétua. Além disso, recomendo que na formação catequética, particularmente nos itinerários de preparação para a Primeira Comunhão, se iniciem as crianças no sentido e na beleza de demorar-se na companhia de Jesus, cultivando o enlevo pela sua presença na Eucaristia.`

Mito 4: `Na consagração deve-se estar em pé`

Na Consagração os fiéis devem estar de joelhos, em sinal de adoração.Quanto a isso a lei da Santa Igreja é clara em afirmar na Instrução Geral no Missal Romano (n. 43), que determina que os fiéis estejam `de joelhos durante a consagração, exceto se razões de saúde, a estreiteza do lugar, o grande número dos presentes ou outros motivos razoáveis a isso obstarem. Aqueles, porém, que não estão de joelhos durante a consagração, fazem uma inclinação profunda enquanto o sacerdote genuflecte após a consagração.`

Mito 5: `A noção da Missa como Sacrifício é ultrapassada`

Não é.

O Sagrado Magistério da Igreja, por graça do Espírito Santo, é infalível em matéria de fé e moral (Cat., n.2035). Por isso, a fé católica não muda.

A Santa Missa é a Renovação do Único e Eterno Sacrifício de Nosso Senhor, oferecido pelas mãos do sacerdote. Diz o Catecismo da Igreja Católica (n. 1367): `O sacrifício de Cristo e o sacrifício da Eucaristia são um único sacrifício.`

O Catecismo anterior, publicado pelo Papa São Pio X em 1905, afirma (n. 652-654): `A santa Missa é o sacrifício do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo, oferecido sobre os nossos altares, debaixo das espécies de pão e de vinho, em memória do sacrifício da Cruz. (...) O Sacrifício da Missa é substancialmente o mesmo que o da Cruz, porque o mesmo Jesus Cristo, que se ofereceu sobre a Cruz, é que se oferece pelas mãos dos sacerdotes seus ministros, sobre os nossos altares, mas quanto ao modo por que é oferecido, o sacrifício da Missa difere do sacrifício da Cruz, conservando todavia a relação mais íntima e essencial com ele. (...) Que diferença, pois, e que relação há entre o Sacrifício da Missa e o da Cruz? Entre o Sacrifício da Missa e o sacrifício da Cruz há esta diferença e esta relação: que Jesus Cristo sobre a cruz se ofereceu derramando o seu sangue e merecendo para nós; ao passo que sobre os altares Ele se sacrifica sem derramamento de sangue, e nos aplica os frutos da sua Paixão e Morte.`

Curiosidade: o Papa Bento XVI afirmou, no dia 09 de Outubro de 2006, que o homem contemporâneo `perdeu o sentido do pecado`. Ora, se não há pecado, qual a necessidade de um Sacrifício Propiciatório? Creio que isso explica muitas coisas...

Mito 6: `É mais expressivo no altar a imagem de Jesus Ressuscitado do que de Jesus crucificado` 

Não é.

A Instrução Geral do Missal Romano determina (n.308): `Sobre o altar ou junto dele coloca-se também uma cruz, com a imagem de Cristo crucificado, que a assembléia possa ver bem. Convém que, mesmo fora das ações litúrgicas, permaneça junto do altar uma tal cruz, para recordar aos fiéis a paixão salvadora do Senhor.`

Essa cruz alude ao Santo Sacrifício de Nosso Senhor, que se renova no altar. Nosso Senhor está vivo e ressuscitado, mas a Santa Missa renova o Sacrifício.

Mito 7: `Quem celebra a Missa não é o Padre, e sim toda a comunidade` 

A Instrução Redemptions Sacramentum (n. 42), de 2004, discorrendo sobre o Santo Sacrifício da Missa, afirma: `O Sacrifício Eucarístico não deve, portanto, ser considerado `concelebração`, no sentido unívoco do sacerdote juntamente com povo presente. Ao contrário, a Eucaristia celebrada pelos sacerdotes é um dom que supera radicalmente o poder da assembléia. A assembléia, que se reúne para a celebração da Eucaristia, necessita absolutamente de um sacerdote ordenado que a presida, para poder ser verdadeiramente uma assembléia eucarística. Por outro lado, a comunidade não é capaz de dotar-se por si só do ministro ordenado.`

Mito 8: `A Igreja pode vir a ordenar mulheres`

Não pode.

O saudoso Papa João Paulo II definiu que a Santa Igreja não tem a faculdade de ordenar mulheres, quando em 1994, publicou a Carta Apostólica `Ordinatio Sacerdotalis`, que afirma explicitamente: `Para que seja excluída qualquer dúvida em assunto da máxima importância, que pertence à própria constituição divina da Igreja, em virtude do meu ministério de confirmar os irmãos (cf. Lc 22,32), declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja.`

Mito 9: `A Missa é para os fiéis`

A Santa Missa, essencialmente, é para Deus e não para os fiéis, pois ela é a Renovação do Santo Sacrifício de Nosso Senhor, oferecido a Deus Pai pelas mãos do sacerdote.

Por isso, o saudoso Papa João Paulo II lamenta na sua Encíclica Ecclesia de Eucharistia (n. 10): `As vezes transparece uma compreensão muito redutiva do mistério eucarístico. Despojado do seu valor sacrifical, é vivido como se em nada ultrapassasse o sentido e o valor de um encontro fraterno ao redor da mesma. Além disso, a necessidade do sacerdócio ministerial, que se fundamenta na sucessão apostólica, fica às vezes obscurecida, e a sacramentalidade da Eucaristia é reduzida à simples eficácia do anúncio. (...) Como não manifestar profunda mágoa por tudo isto? A Eucaristia é um Dom demasiadamente grande para suportar ambigüidades e reduções.`
Embora, como foi dito, os fiéis que participam da Santa Missa se beneficiam. Pois na Missa, Nosso Senhor `se sacrifica sem derramamento de sangue, e nos aplica os frutos da sua Paixão e Morte.` (Catecismo de São Pio X, n. 254)

Mito 10: `Não se assiste à Missa` 

Embora os documentos da Santa Igreja utilizem TAMBÉM o termo `participar`, NÃO é errado utilizar o termo `assistir`.

O próprio Papa Pio XII, na encíclica Mediador Dei, de 1947, exorta os Bispos: `Procurai, sobretudo, obter, com o vosso diligentíssimo zelo, que todos os fiéis assistam ao sacrifício eucarístico e dele recebam os mais abundantes frutos de salvação.` Também o Catecismo de São Pio X (n.391) fala em `assistir devotamente ao Santo Sacrifício da Missa.`

O que este termo frisa é a verdade de fé de que é o sacerdote que oferece o Santo Sacrifício da Missa, e não o leigo.

Por outro lado, é evidente que o fiel precisa assistir a celebração de forma participativa (Sacrossanctum Concilium, n.14), unindo sua vida ao Mistério do Santo Sacrifício que se renova no altar.

Mito 11: `Qualquer pessoa pode comungar`

Não pode.

Escreve São Paulo: `Todo aquele que comer o Pão ou beber o Cálice do Senhor indignamente será réu do Corpo e do Sangue do Senhor. Por conseguinte, cada um examine a si mesmo antes de comer desse Pão ou beber desse Cálice, pois aquele que come e bebe sem discernir o Corpo do Senhor, come e bebe a própria condenação.` (ICor 11,27-29)

O Código de Direito Canônico diz que pode comungar `qualquer batizado, não proibido pelo direito` (cânon 912) A preparação primeira necessária para receber o Corpo de Nosso Senhor é a preparação interior, ou seja: estar em estado de graça, que significa estar em ausência de pecados mortais (Cat. 1385). Tal estado nos é dado quando recebemos o Sacramento do Batismo, e, após a queda em pecado mortal, através de uma Confissão bem feita (Cat. 1264; 1468-1470). A Santa Igreja também instituiu o chamado `jejum eucarístico` (isto é, estar a uma hora antes de comungar sem ingerir alimentos, a não ser água e medicamentos necessários, como especifica o Cânon 919).

É preocupante vermos filas para a Sagrada Comunhão tão longas, e filas para o confessionário tão pequenas...

Pior ainda quando não há sacerdotes disponíveis para os confessionários!

Mito 12: `A absolvição comunitária substitui a confissão individual`

Não substitui.

Diz o Catecismo da Igreja Católica (n.1483):

`A confissão individual e íntegra e a absolvição constituem o único modo ordinário pelo qual o fiel, consciente de pecado grave, se reconcilia com Deus e com a Igreja: somente a impossibilidade física ou moral o escusa desta forma de confissão`.

Continua o Catecismo (n.1483):

`Em casos de grave necessidade, pode-se recorrer à celebração comunitária da reconciliação, com confissão geral e absolvição geral. Tal necessidade grave pode ocorrer quando há perigo iminente de morte, sem que o sacerdote ou os sacerdotes tenham tempo suficiente para ouvir a confissão de cada penitente. A necessidade grave pode existir também quando, tendo em conta o número dos penitentes, não há confessores bastantes para ouvir devidamente as confissões individuais num tempo razoável, de modo que os penitentes, sem culpa sua, se vejam privados, durante muito tempo, da graça sacramental ou da sagrada Comunhão. Neste caso, para a validade da absolvição, os fiéis devem ter o propósito de confessar individualmente os seus pecados graves em tempo oportuno. Pertence ao bispo diocesano julgar se as condições requeridas para a absolvição geral existem. Uma grande afluência de fiéis, por ocasião de grandes festas ou de peregrinações, não constitui um desses casos de grave necessidade.`

Mito 13: `É errado comungar na boca e de joelhos`

Não é.

A norma tradicional para receber o Corpo de Nosso Senhor, mantida como a única forma lícita por muito séculos, é que se receba diretamente na boca e estando de joelhos, como sinal de reverência e adoração.

Após o Concílio Vaticano II, Roma permitiu, devido ao pedido de algumas conferências episcopais, que em alguns locais os fiéis que desejassem pudessem receber o Corpo de Nosso Senhor na mão. Por outro lado, os documentos oficiais da Santa Igreja recomendaram que o costume de comungar na boca fosse conservado, e proíbem expressamente que os sacerdotes e demais ministros neguem o Corpo de Nosso Senhor diretamente na boca a quem deseja receber desta forma.

A instrução Memoriale Domini, publicada pela Sagrada Congregação para o Culto Divino em 1969, afirma que, se na antigüidade, em algum local foi comum a prática dos fiéis receberem o Corpo de Nosso Senhor na mão, houve nas normas litúrgicas um amadurecimento neste sentido para que se passasse a receber o Corpo de Nosso Senhor diretamente na boca. Diz o documento: `Com o passar do tempo, quando a verdade e a eficácia do mistério eucarístico, assim como a presença de Cristo nele, foram perscrutadas com mais profundidade, o sentido da reverência devida a este Santíssimo Sacramento e da humildade com a qual ele deve ser recebido exigiram que fosse introduzido o costume que seja o ministro mesmo que deponha sobre a língua do comungante uma parcela do pão consagrado.`

Mas quais são as vantagens que há em receber o Corpo de Nosso Senhor diretamente na boca? O mesmo documento fala de duas: a maior reverência à Sua Presença Real e a maior segurança para que não se percam os fragmentos do Seu Corpo. Assim ele afirma: `Essa maneira de distribuir a santa comunhão deve ser conservada, não somente porque ela tem atrás de si uma tradição multissecular, mas sobretudo porque ela exprime a reverência dos fiéis para com a Eucaristia. Esse modo de fazê-lo não fere em nada a dignidade da pessoa daqueles que se aproximam desse sacramento tão elevado, e é apropriado à preparação requerida para receber o Corpo do Senhor da maneira mais frutuosa possível. Essa reverência exprime bem a comunhão, não `de um pão e de uma bebida ordinários` (São Justino), mas do Corpo e do Sangue do Senhor, em virtude da qual `o povo de Deus participa dos bens do sacrifício pascal, reatualiza a nova aliança selada uma vez por todas por Deus com os homens no Sangue de Cristo, e na fé e na esperança prefigura e antecipa o banquete escatológico no Reino do Pai` (Sagr. Congr.. dos Ritos, Instrução Eucharisticum Mysterium, n.3) Por fim, assegura-se mais eficazmente que a santa comunhão seja administrada com a reverência, o decoro e a dignidade que lhe são devidos de sorte que seja afastado todo o perigo de profanação das espécies eucarísticas, nas quais, `de uma maneira única, Cristo total e todo inteiro, Deus e homem, se encontra presente substancialmente e de um modo permanente` (Sagr. Congr. dos Ritos, Instrução Eucharisticum Mysterium, n. 9); e para que se conserve com diligência todo o cuidado constantemente recomendado pela Igreja no que concerne aos fragmentos do pão consagrado.`

As normas litúrgicas são bem claras em afirmar que `os fiéis jamais serão obrigados a adotar a prática da comunhão na mão.` (Notificação da Sagrada Congregação para o Culto Divino, de Abril de 1985). Aqueles que comungam na mão precisam atentar, ainda, para que não se percam pequenos fragmentos da Hóstia Consagrada, nos quais também Nosso Senhor esta presente por inteiro - isto seria, de fato, uma profanação. Também se permitiu, em alguns locais, que se receba o Corpo de Nosso Senhor estando em pé. Mas da mesma forma que a Sagrada Comunhão na mão, isto se permitiu como uma concessão à regra tradicional, afirmando-se que os que desejarem receber o Corpo de Nosso Senhor ajoelhados, em sinal de adoração, são livres para fazê-lo. É o que afirma a Sagrada Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos:

`A recusa da Comunhão a um fiel que esteja ajoelhado, é grave violação de um dos direitos básicos dos fiéis cristãos. (...) Mesmo naqueles países em que esta Congregação adotou a legislação local que reconhece o permanecer em pé como postura normal para receber a Sagrada Comunhão, ela o fez com a condição de que os comungantes desejosos de se ajoelhar não seria recusada a Sagrada Eucaristia. (...) A prática de ajoelhar-se para receber a Santa Comunhão tem em seu favor uma antiga tradição secular, e é um sinal particularmente expressivo de adoração, completamente apropriado, levando em conta a verdadeira, real e significativa presença de Nosso Senhor Jesus Cristo debaixo das espécies consagradas. (....) Os sacerdotes devem entender que a Congregação considerará qualquer queixa desse tipo com muita seriedade, e, caso sejam procedentes, atuará no plano disciplinar de acordo com a gravidade do abuso pastoral.` (Protocolo no 1322/02/L) Tal intervenção foi reiterada em 2003.

Também a instrução Redemptionis Sacramentum, instrução publicada pela mesma congregação em 2004, determina (n. 91): `Qualquer batizado católico, a quem o direito não o proíba, deve ser admitido à sagrada Comunhão. Assim pois, não é lícito negar a sagrada Comunhão a um fiel, por exemplo, só pelo fato de querer receber a Eucaristia ajoelhado ou de pé.`

Mito 14. `A comunhão tem que ser em duas espécies`

Não tem.

Embora a Comunhão sob duas espécies tenha um significado simbólico expressivo (Redemptionis Sacramentum, n.100), a Santa Igreja tem a justa preocupação de evitar heresias e profanações, e por isso só permite a Comunhão sob duas espécies em casos particulares e sob rígidas determinações.

Por isso que o Sagrado Magistério, no Concílio de Trento (séc. XVI), definiu alguns princípios dogmáticos á respeito da Comunhão Eucarística sob as duas espécies; princípios estes que foram expressamente relembrados na Redemptionis Sacramentum (n. 100). Assim definiu o Concílio de Trento (n. 930-932): `Por nenhum preceito divino [os fiéis] estão obrigados a receber o sacramento da Eucaristia sob ambas as espécies, e que, salva a fé, de nenhum modo se pode duvidar que a comunhão debaixo de uma [só] das espécies lhes baste para a salvação. (...) Nosso Redentor, como ficou dito, instituiu na última ceia este sacramento e o deu aos Apóstolos sob as duas espécies, contudo devemos confessar que debaixo de cada uma delas se recebe Cristo todo inteiro e como verdadeiro sacramento.`

Partindo desses princípios, e da justa preocupação de evitar profanações, a Santa Igreja estabeleceu que somente em casos particulares seria ministrada a Sagrada Comunhão aos féis sob a aparência do vinho. Nesse sentido, afirma a Instrução Redemptionis Sacramentum (n. 101) que `para administrar aos fiéis leigos a sagrada Comunhão sob as duas espécies, devem-se ter em conhecimento, convenientemente, as circunstâncias, sobre as que devem julgar, em primeiro lugar, os Bispos diocesanos. Deve-se excluir totalmente quando exista perigo, inclusive pequeno, de profanação das sagradas espécies.`

A seguir, a mesma Instrução aponta as formas pela qual a Sagrada Comunhão sob duas espécies pode ser administrada (n. 103): `As normas do Missal Romano admitem o principio de que, nos casos em que se administra a sagrada Comunhão sob as duas espécies, o Sangue do Senhor pode ser bebido diretamente do cálice, ou por intinção, ou com uma palheta, ou uma colher pequenina.`

Em públicos maiores, tenho presenciado que normalmente a Comunhão Eucarística se por dá intinção, isto é, tomando-se o Corpo de Nosso Senhor na aparência do pão e intingindo-se na aparência do vinho. A mesma Instrução ordena que, para se ministrar a Sagrada Comunhão desta forma, `usam-se hóstias que não sejam nem demasiadamente delgadas nem demasiadamente pequenas e o comungante receba do sacerdote o sacramento, somente na boca.` (n.103) E ainda: `Não se permita ao comungante molhar por si mesmo a hóstia no cálice, nem receber na mão a hóstia molhada. No que se refere à hóstia que se deve molhar, esta deve ser de matéria válida e estar consagrada; estando absolutamente proibido o uso de pão não consagrado ou de outra matéria.` (n. 104) Infelizmente, tem se tornado `moda` uma espécie da Comunhão `self-service`, onde, com o Corpo de Nosso Senhor na aparência do pão na mão, o próprio fiel comungante faz a intinção na aparência do vinho. Pelas normas litúrgicas, em toda a preocupação que a Santa Igreja tem pelo manuseio do Corpo de Deus, esta prática é absolutamente ilícita, como fica claro no parágrafo acima. Mais ainda: esta irregularidade é apontada na mesma Instrução dentro da listagens dos `atos sempre objetivamente graves` por atentar contra a dignidade do Santíssimo Sacramento (n. 173).

Mito 15. `O Ministério extraordinário da Sagrada Comunhão existe para promover a participação dos leigos.`

Não existe para isso, pois ordinariamente a função do leigo não é distribuir o Corpo de Deus.
Isso afirma expressamente a Instrução Redemptionis Sacramentum (n. 151): `Somente em caso de verdadeira necessidade se deverá recorrer à ajuda dos ministros extroardinários na celebração da liturgia. De fato, isto não está previsto para assegurar a participação mais plena dos leigos, mas é por sua natureza supletivo e provisório.`

O ministro ordinário da Comunhão Eucarística, pela unção do Sacramento da Ordem, é o sacerdote e o diácono (Cânon 910). Por isso, ordinariamente somente eles podem ministrar a Corpo de Nosso Senhor.

Havendo real necessidade, o ministro extraordinário pode distribuir a Comunhão Eucarística. Os ministros extraordinários são prioritariamente os acólitos instituídos (cânon 910). Não havendo acólitos instituídos disponíveis para isso, outros fiéis (religiosos ou leigos) podem atuar ministrando a Comunhão Eucarística, como aponta a Instrução Redemptionis Sacramentum (n. 155) Tais situações são, de fato, extraordinárias, como o próprio nome do ministério já o indica.
Portanto, é um equívoco afirmar que o Ministério Extraordinário da Comunhão Eucarística existe para promover o serviço do leigo, pois esta função não é, ordinariamente, uma atribuição do leigo, e em uma situação em que houvesse um número maior de ministros ordinários o ministério extraordinário não haveria razões para existir.

Quais seriam estas razões que indicariam esta `verdadeira necessidade` para o uso dos ministros extraordinários da Comunhão Eucarística? A própria Instrução responde: `O ministro extraordinário da sagrada Comunhão poderá administrar a Comunhão somente na ausência do sacerdote ou diácono, quando o sacerdote está impedido por enfermidade, idade avançada, ou por outra verdadeira causa, ou quando é tão grande o número dos fiéis que se reúnem à Comunhão, que a celebração da Missa se prolongaria demasiado. Por isso, deve-se entender que uma breve prolongação seria uma causa absolutamente suportável, de acordo com a cultura e os costumes próprios do lugar.` (n. 158) E ainda: `Reprove-se o costume daqueles sacerdotes que, apesar de estarem presentes na celebração, abstém-se de distribuir a Comunhão, delegando esta tarefa a leigos.` (n. 157)

Mito 16. `O cálice e o cibório podem ser de qualquer material`

Não podem.

A Santa Igreja zela pelo material do cálice, cibórios e outros vasos sagrados utilizados nas celebrações. Por exemplo: é expressamente proibido o uso de vasos sagrados de vidro, barro, argila, cristal ou outro material que quebre com facilidade.

Especifica a Instrução Redemptionis Sacramentum (n. 117): `Os vasos sagrados, que estão destinados a receber o Corpo e o Sangue do Senhor, devem-se ser fabricados, estritamente, conforme as normas da tradição e dos livros litúrgicos. As Conferências de Bispos tenham capacidade de decidir, com a aprovação da Sé apostólica, se é oportuno que os vasos sagrados também sejam elaborados com outros materiais sólidos. Sem dúvida, requer-se estritamente que este material, de acordo com a comum valorização de cada região, seja verdadeiramente nobre, de maneira que, com seu uso, tribute-se honra ao Senhor e se evite absolutamente o perigo de enfraquecer, aos olhos dos fiéis, a doutrina da presença real de Cristo nas espécies eucarísticas. Portanto, reprove-se qualquer uso, para a celebração da Missa, de vasos comuns ou de escasso valor, no que se refere à qualidade, ou carentes de todo valor artístico, ou simples recipientes, ou outros vasos de cristal, argila, porcelana e outros materiais que se quebram facilmente. Isto vale também para os metais e outros materiais, que se corroem (oxidam) facilmente.`

O saudoso Papa João Paulo II insiste na utilização dos melhores recursos possíveis nos objetos litúrgicos, como honra prestada ao Corpo e ao Sacrifício de Nosso Senhor. Disse João Paulo II (Ecclesia de Eucharistia, n. 47-48):

`Quando alguém lê o relato da instituição da Eucaristia nos Evangelhos Sinópticos, fica admirado ao ver a simplicidade e simultaneamente a dignidade com que Jesus, na noite da Última Ceia, institui este grande sacramento. Há um episódio que, de certo modo, lhe serve de prelúdio: é a unção de Betânia. Uma mulher, que João identifica como sendo Maria, irmã de Lázaro, derrama sobre a cabeça de Jesus um vaso de perfume precioso, suscitando nos discípulos – particularmente em Judas (Mt 26, 8; Mc 14, 4; Jo 12, 4) – uma reacção de protesto contra tal gesto que, em face das necessidades dos pobres, constituía um « desperdício » intolerável. Mas Jesus faz uma avaliação muito diferente: sem nada tirar ao dever da caridade para com os necessitados, aos quais sempre se hão-de dedicar os discípulos – « Pobres, sempre os tereis convosco » (Jo 12, 8; cf. Mt 26, 11; Mc 14, 7) –, Ele pensa no momento já próximo da sua morte e sepultura, considerando a unção que Lhe foi feita como uma antecipação daquelas honras de que continuará a ser digno o seu corpo mesmo depois da morte, porque indissoluvelmente ligado ao mistério da sua pessoa. (...) Tal como a mulher da unção de Betânia, a Igreja não temeu « desperdiçar », investindo o melhor dos seus recursos para exprimir o seu enlevo e adoração diante do dom incomensurável da Eucaristia. À semelhança dos primeiros discípulos encarregados de preparar a « grande sala », ela sentiu-se impelida, ao longo dos séculos e no alternar-se das culturas, a celebrar a Eucaristia num ambiente digno de tão grande mistério. Foi sob o impulso das palavras e gestos de Jesus, desenvolvendo a herança ritual do judaísmo, que nasceu a liturgia cristã. Porventura haverá algo que seja capaz de exprimir de forma devida o acolhimento do dom que o Esposo divino continuamente faz de Si mesmo à Igreja-Esposa, colocando ao alcance das sucessivas gerações de crentes o sacrifício que ofereceu uma vez por todas na cruz e tornando-Se alimento para todos os fiéis? Se a ideia do « banquete » inspira familiaridade, a Igreja nunca cedeu à tentação de banalizar esta « intimidade » com o seu Esposo, recordando-se que Ele é também o seu Senhor e que, embora « banquete », permanece sempre um banquete sacrificial, assinalado com o sangue derramado no Gólgota. O Banquete eucarístico é verdadeiramente banquete « sagrado », onde, na simplicidade dos sinais, se esconde o abismo da santidade de Deus: O Sacrum convivium, in quo Christus sumitur! - « Ó Sagrado Banquete, em que se recebe Cristo! »`

Mito 17: `Os fiéis podem rezar junto a doxologia e a oração da paz`

Não podem.

Diz o Código de Direito Canônico (Cânon 907) que `Na celebração Eucarística, não é lícito aos diáconos e leigos proferir as orações, especialmente a oração eucarística, ou executar as ações próprios do sacerdote celebrante.`

Também a Instrução Inaestimabile Donum (n.4) afirma: `Está reservado ao sacerdote, em virtude de sua ordenação, proclamar a Oração Eucarística, a qual por sua própria natureza é o ponto alto de toda a celebração. É portanto um abuso que algumas partes da Oração Eucarística sejam ditas pelo diácono, por um ministro subordinado ou pelos fiéis. Por outro lado isso não significa que a assembléia permanece passiva e inerte. Ela se une ao sacerdote através do silêncio e demonstra a sua participação nos vários momentos de intervenção providenciados para o curso da Oração Eucarística: as respostas no diálogo Prefácio, o Sanctus, a aclamação depois da Consagração, e o Amén final depois do Per Ipsum. O Per Ipsum ( por Cristo, com Cristo, em Cristo) por si mesmo é reservado somente ao sacerdote. Este Amén final deveria ser enfatizado sendo feito cantado, sendo que ele é o mais importante de toda a Missa.`

Tais orações são orações do sacerdote. De forma especial, a doxologia (`Por Cristo, com Cristo e em Cristo...`), que é momento onde o sacerdote oferece à Deus Pai o Santo Sacrifício de Nosso Senhor.

Mito 18: `O sacerdote usar casula é algo ultrapassado`

Não é.

A casula é o paramento sacerdotal próprio para o Santo Sacrifício da Missa. É o mais solene, varia de cor conforme a prescrição para a celebração em específico e vai sobre a alva e estola. Infelizmente, tem se tornado moda em muitos lugares que muitos sacerdotes celebrem usando apenas a alva e a estola, enquanto as casulas mofam nos armários.

A Instrução Geral do Missal Romano (n. 119) determina que o sacerdote utilize: amito, alva, estola, cíngulo e casula (amito e cíngulo podem ser dispensáveis, conforme o formato da alva).

A Instrução Redemptionis Sacramentum determina ainda que, sendo possível, inclusive os sacerdotes concelebrantes utilizem a casula (n. 124-126):

`No Missal Romano é facultativo que os sacerdotes que concelebram na Missa, exceto o celebrante principal (que sempre deve levar a casula da cor prescrita), possam omitir «a casula ou planeta, mas sempre usar a estola sobre a alva», quando haja uma justa causa, por exemplo o grande número de concelebrantes e a falta de ornamentos. Sem dúvida, no caso de que esta necessidade se possa prever, na medida do possível, providencie-se as referidas vestes. Os concelebrantes, a exceção do celebrante principal, podem também levar a casula de cor branca, em caso de necessidade. (...) Seja reprovado o abuso de que os sagrados ministros realizem a santa Missa, inclusive com a participação de só um assistente, sem usar as vestes sagradas ou só com a estola sobre a roupa monástica, ou o hábito comum dos religiosos, ou a roupa comum, contra o prescrito nos livros litúrgicos. Os Ordinários cuidem de que este tipo de abusos sejam corrigidos rapidamente e haja, em todas as igrejas e oratórios de sua jurisdição, um número adequado de vestes litúrgicos, confeccionadas de acordo com as normas.`

Embora haja para o Brasil a concessão de o sacerdote celebrar apenas utilizando alva e estola quando houver razões pastorais (ver comentário do Pe. Jesús Hortal, SJ, à respeito do cânon 929, no Código de Direito Canônico editado pela Loyola), de forma alguma pode-se dizer que o uso da casula é ultrapassado, como foi demonstrado acima.

Mito 19: `O Concílio Vaticano II aboliu o latim`

Não aboliu.

Pelo contrário: o Concílio Vaticano II incentivou o uso do latim como língua litúrgica.
Diz o Concílio (Sacrossanctum Concilium, n.36) : `Salvo o direito particular, seja conservado o uso da língua latina nos ritos latinos.` Embora exista atualmente em muitos lugares a concessão para se celebrar em língua local, o latim segue sendo a língua oficial da Santa Igreja e mantém o seu significado de unidade e solenidade: `O uso da língua latina vigente em grande parte da Igreja é um caro sinal da unidade e um eficaz remédio contra toda corruptela da pura doutrina.` (Papa Pio XII, na Encíclica Mediator Dei, n.53, de 1947)

Por isso o Santo Padre Bento escreveu (Sacramentum Caritatis, n.62): `A nível geral, peço que os futuros sacerdotes sejam preparados, desde o tempo do seminário, para compreender e celebrar a Santa Missa em latim, bem como para usar textos latinos e entoar o canto gregoriano; nem se transcure a possibilidade de formar os próprios fiéis para saberem, em latim, as orações mais comuns e cantarem, em gregoriano, determinadas partes da liturgia.`

E a Instrução Redemptionis Sacramentum (n. 112) determina: `Excetuadas as Celebrações da Missa que, de acordo com as horas e os momentos, a autoridade eclesiástica estabelece que se façam na língua do povo, sempre e em qualquer lugar é lícito aos sacerdotes celebrar o santo Sacrifício em latim.`

O Cardeal Ratzinger, hoje Papa Bento XVI (no livro `O sal da Terra`, de 1996), reconhece que a `nossa cultura mudou tão radicalmente nos últimos trinta anos que uma liturgia celebrada exclusivamente em latim envolveria um elemento de estranheza que, para muitos, não seria aceitável.` Por outro lado, `o Cardeal (Francis Arinze, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramento) também sugeriu que as paróquias maiores tenham uma Missa em latim pelo menos uma vez por semana e que as paróquias rurais e menores a tivessem pelo menos uma vez ao mês.` (ACI Imprensa, 16 de Novembro de 2006)

Mito 20: `Para participar bem da Missa é preciso entender a língua que o padre celebra`

Não é.

Embora possa ser útil compreender a língua que o padre celebra (e por isso são amplamente divulgados os missais com tradução em latim / português, nos meios em que a Santa Missa é celebrada em latim), o principal é contemplar o Mistério do Santo Sacrifício que se renova no altar, e para isso não é necessário compreender todas as palavras.

Missa não é jogral.

O Cardeal Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, afirma (`O sal da terra`): `A Liturgia é algo diferente da manipulação de textos e ritos, porque vive, precisamente, do que não é manipulável. A juventude sente isso intensamente. Os centros onde a Liturgia é celebrada sem fantasias e com reverência atraem, mesmo que não se compreendam todas as palavras.`

Mito 21: `O canto gregoriano é algo ultrapassado`

Não é.

O Concílio Vaticano II afirma (Sacrossanctum Concilium, n.116) : ``A Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana, o canto gregoriano; portanto, na ação litúrgica, ocupa o primeiro lugar entre seus similares. Os outros gêneros de música sacra, especialmente a polifonia, não são absolutamente excluídos da celebração dos ofícios divinos, desde que se harmonizem com o espírito da ação litúrgica...`

A Instrução Geral do Missal Romano (n. 41) afirma: `Em igualdade de circunstâncias, dê-se a primazia ao canto gregoriano, como canto próprio da Liturgia romana.`

Também o Santo Padre Bento XVI incentiva o canto gregoriano na Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis (n.62), como foi dito acima.É importante lembrar: mesmo em relação a canto popular, a referência é canto gregoriano. O saudoso Papa João Paulo II (Quirógrafo sobre a Música Sacra, n. 12) diz:

`No que diz respeito às composições musicais litúrgicas, faço minha a «regra geral» que são Pio X formulava com estes termos: `Uma composição para a Igreja é tanto mais sacra e litúrgica quanto mais se aproximar, no andamento, na inspiração e no sabor, da melodia gregoriana, e tanto menos é digna do templo, quanto mais se reconhece disforme daquele modelo supremo». Não se trata, evidentemente, de copiar o canto gregoriano, mas muito mais de considerar que as novas composições sejam absorvidas pelo mesmo espírito que suscitou e, pouco a pouco, modelou aquele canto.`

Mito 22: `Atualmente o padre tem que rezar de frente para os fiéis`

Não tem.

Foi publicada em 1993, no seu boletim Notitiae, uma nota da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos reafirma a licitude tanto da celebração `Versus Populum` (com o sacerdote voltado para o povo) quanto da `Versus Deum` (com o sacerdote e povo voltados para Deus, isto é, na mesma direção) .

Assim, mesmo na forma do Rito Romano aprovada pelo Papa Paulo VI, é perfeitamente possível que se celebre a Santa Missa com o sacerdote e os fiéis voltados na mesma direção.
O Cardeal Ratzinger, hoje Papa Bento XVI dedicou à este tema um capítulo inteiro do seu livro `Espírito da Liturgia – Uma introdução`, publicado em 1999; é o capítulo III da parte II, denominado `O altar e a orientação da oração na Liturgia`.

Neste texto, o Santo Padre incentiva a celebração em `Versus Deum`, exaltando o profundo significado litúrgico que tem o sacerdote e os fiéis voltados para a mesma direção, isto é, para Deus. Ele diz: `. `O sacerdote olhando para o povo dá à comunidade o aspecto de um círculo fechado em si mesmo. Já não é - por sua mesma disposição – uma comunidade aberta para frente e para cima, senão fechada em si mesma. (... ) O importante não é o diálogo olhando para o sacerdote, mas a adoração comum, sair ao encontro do Senhor que vem. A essência do acontecimento não é um círculo fechado, mas a saída de todos ao encontro do Senhor que se expressa na orientação comum.`

Mito 23: `O Sacrário no centro é anti-litúrgico`

Não é.

O Santo Padre Bento XVI (Sacramentum Caritatis, n. 69) afirma que, se o Sacrário é colocado na nave principal da Igreja, `é preferível colocar o sacrário no presbitério, em lugar suficientemente elevado, no centro do fecho absidal ou então noutro ponto onde fique de igual modo bem visível.`

O Sacrário no centro tem, no espírito tradicional da Sagrada Liturgia, o significado de dar a Jesus Eucarístico o destaque no lugar central.

Mito 24: `Não se deve ter imagens dos santos nas igrejas`

Deve-se ter, sim.

Diz a Instrução Geral do Missal Romano (n.318): `De acordo com a antiqüíssima tradição da Igreja, expõem-se à veneração dos fiéis, nos edifícios sagrados, imagens do Senhor, da bem-aventurada Virgem Maria e dos Santos, as quais devem estar dispostas de tal modo no lugar sagrado, que os fiéis sejam levados aos mistérios da fé que aí se celebram.`

O que é ponderado, porém, na mesma referência: `Tenha-se, por isso, o cuidado de não aumentar exageradamente o seu número e que a sua disposição se faça na ordem devida, de tal modo que não distraiam os fiéis da celebração. Normalmente, não haja na mesma igreja mais do que uma imagem do mesmo Santo. Em geral, no ornamento e disposição da igreja, no que se refere às imagens, procure atender-se à piedade de toda a comunidade e à beleza e dignidade das imagens.`

Mito 25: `Cada comunidade deve ter a Missa do seu jeito`

Não deve e não pode ter a Missa do seu jeito, e sim do jeito católico.

O Concílio Vaticano II já dizia (Sacrossanctum Concilium, 22): `Ninguém mais, absolutamente, mesmo que seja sacerdote, ouse, por sua iniciativa, acrescentar, suprimir ou mudar seja o que for em matéria litúrgica.`

Escreveu o saudoso Papa João Paulo II : (Ecclesia de Eucharistia, n. 52) `Atualmente também deveria ser redescoberta e valorizada a obediência às normas litúrgicas como reflexo e testemunho da Igreja, una e universal, que se torna presente em cada celebração da Eucaristia. O sacerdote, que celebra fielmente a Missa segundo as normas litúrgicas, e a comunidade, que às mesmas adere, demonstram de modo silencioso mas expressivo o seu amor à Igreja. (...) A ninguém é permitido aviltar este mistério que está confiado às nossas mãos: é demasiado grande para que alguém possa permitir-se de tratá-lo a seu livre arbítrio, não respeitando o seu caráter sagrado nem a sua dimensão universal.`

Também a Instrução Inaestimabile Donum, de 1980, afirma: `Aquele que oferece culto a Deus em nome da Igreja, de um modo contrário ao qual foi estabelecido pela própria Igreja com a autoridade dada por Deus e o qual é também a tradição da Igreja, é culpado de falsificação.`
O Cardeal Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, afirmou: `É preciso que volte a ser claro que a ciência da liturgia não existe para produzir constantemente novos modelos, como é próprio da indústria automobilística. (...) A Liturgia é algo diferente da invenção de textos e ritos, porque vive, precisamente, do que não é manipulável.` (`O Sal da Terra`)

Mito 26: `Pode-se fazer tudo o que o Missal não proíbe`

Não se pode.

O Concílio Vaticano II proíbe acréscimos na Sagrada Liturgia, como foi dito acima (Sacrossanctum Concílium, n.22). A interpretação do Missal é estrita: assim, na Santa Missa, faz-se somente o que o Missal determina e nada mais do que isso.

Esta é uma diferença entre a Santa Missa e os grupos de oração, os encontros de evangelização e outros momentos fora da Sagrada Liturgia, onde pode-se usar de uma espontaneidade que não tem lugar dentro da Missa.

O Rito, por sua própria essência, prima pela unidade. Diz a Instrução Redemptionis Sacramentum (n.11) :

`O Mistério da Eucaristia é demasiado grande «para que alguém possa permitir tratá-lo ao seu arbítrio pessoal, pois não respeitaria nem seu caráter sagrado, nem sua dimensão universal. Quem age contra isto, cedendo às suas próprias inspirações, embora seja sacerdote, atenta contra a unidade substancial do Rito romano, que se deve cuidar com decisão (...) Além disso, introduzem na mesma celebração da Eucaristia elementos de discórdia e de deformação, quando ela tem, por sua própria natureza e de forma eminente, de significar e de realizar admiravelmente a Comunhão com a vida divina e a unidade do povo de Deus.`

Também o Cardeal Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, juntamente o Messori, no livro `A Fé em Crise?`, publicado em 1985, afirma: `A liturgia não vive de surpresas `simpáticas`, de intervenções `cativantes`, mas de repetições solenes (...) Também por isso ela deve ser `predeterminada`, `imperturbável`, porque através do rito se manifesta a santidade de Deus. Ao contrário, a revolta contra aquilo que foi chamado `a velha rigidez rubricista`, (...) arrastou a liturgia ao vórtice do `faça-você-mesmo`, banalizando-a, porque reduzindo-a à nossa medíocre medida` .

Mito 27: `O padre é autoridade, por isso deve-se obedecê-lo em tudo`

Não se deve.

A Santa Igreja é hierárquica, e uma determinação de um sacerdote que vá contra uma determinação de Roma é automaticamente nula.

O Concílio Vaticano II, como foi dito acima, deixa claro que nem mesmo os sacerdotes podem alterar a Sagrada Liturgia (Sacrossanctum Concilium, n. 22)

O Cardeal Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, é incisivo em dizer (`O Sal da Terra`) : `Do que precisamos é de uma nova educação litúrgica, especialmente também os padres.`
A Instrução Redemptionis Sacramentum afirma ainda que todos tem responsabilidade em procurar corrigir os abusos litúrgicos, mesmo quando isso implica em expor queixa aos superiores. Diz o documento (n. 183-184):

`De forma muito especial, todos procurem, de acordo com seus meios, que o santíssimo sacramento da Eucaristia seja defendido de toda irreverência e deformação, e todos os abusos sejam completamente corrigidos. Isto, portanto, é uma tarefa gravíssima para todos e cada um, excluída toda acepção de pessoas, todos estão obrigados a cumprir este trabalho. Qualquer católico, seja sacerdote, seja diácono, seja fiel leigo, tem direito a expor uma queixa por um abuso litúrgico, ante ao Bispo diocesano e ao Ordinário competente que se lhe equipara em direito, ante à Sé apostólica, em virtude do primado do Romano Pontífice. Convém, sem dúvida, que, na medida do possível, a reclamação ou queixa seja exposta primeiro ao Bispo diocesano. Para isso se faça sempre com veracidade e caridade.`

Mito 28: `Procurar obedecer à leis é farisaísmo`

Não é, se essas leis forem leis instituídas por Deus ou por quem Deus delega tal poder.

O que Nosso Senhor censurou nos fariseus NÃO foi a preocupação em obedecer em santas leis de Deus. O próprio Senhor disse: `Se guardardes os Meus Mandamentos, sereis constantes no Meu Amor, como também Eu guardei os Mandamentos de Meu Pai e persisto no Seu Amor.` (Jo 15, 10-11) E ainda: `Não julgueis que vim abolir a lei e os profetas. Não vim para abolir, mas sim para levá-los à perfeição. Pois em verdades vos digo: passará o céu e a terra, antes que desapareça um jota, um traço da lei. Aquele que violar um destes mandamentos, por menor que seja, será declarado o menor no Reino dos céus. Mas aqueles que os guardar e os ensinar será declarado grande no Reino dos céus.` (Mt 5, 17-19)

A lei divina precisa ser obedecida. Os erros que Nosso Senhor condenou nos fariseus foram dois: o fato de eles ensinarem uma coisa e viverem outra (`Este povo somente Me honra com os lábios; mas seu coração está longe de Mim` – Mc 7,6); e o fato de eles interpretarem a lei de forma errada em algumas ocasiões (`Deixando o mandamento de Deus, vos apegais à tradição dos homens` – Mc 7,8), como no caso da proibição deles em relação às curas realizadas em dia de Sábado.

Não existe distinção entre obedecer diretamente a Deus e obedecer a lei da Santa Igreja. Nosso Senhor confiou a São Pedro, o primeiro Papa (Mateus 16,18-19), o poder de ligar e desligar. O Catecismo da Igreja Católica explica que `o poder de ligar e desligar` significa a autoridade de absolver os pecados, pronunciar juízos doutrinais e tomar decisões disciplinares na Igreja.` (n. 553) Por isso, recusa de sujeição à lei da Santa Igreja é pecado contra o 1º mandamento (Cat., n. 2088-2089) .

Obedecer à lei da Santa Igreja é obedecer à Deus; obedecer à Deus é obedecer também a lei da Santa Igreja.

Mito 29: `O que importa é o coração`

Não exclusivamente.

Aos que afirmam que `o que importa é o coração`, vale lembrar que aqui não cabe a aplicação deste princípio, pois isso implicaria colocar-se em contraposição com grandes parte das normas litúrgicas da Santa Igreja, bem como com os diversos sinais e símbolos litúrgicos (paramentos, velas, flores, incenso, gestos do corpo, etc), que partem da necessidade de se manifestar com sinais externos a fé católica a respeito do que acontece no Santo Sacrifício da Missa, bem como manifestar externamente a honra devida a Deus. A atitude interna é fundamental, mas desprezar as atitudes externas é um erro.

A este respeito, escreveu o saudoso Papa João Paulo II: `De modo particular torna-se necessário cultivar, tanto na celebração da Missa como no culto eucarístico fora dela, uma consciência viva da Presença Real de Cristo, tendo o cuidado de testemunhá-la com o tom da voz, os gestos, os movimentos, o comportamento no seu todo. (...) Numa palavra, é necessário que todo o modo de tratar a Eucaristia por parte dos ministros e dos fiéis seja caracterizado por um respeito extremo.` (Mane Nobiscum Domine, 18)

O ser humano é corpo e alma, e faz parte da natureza humana manifestar a disposição interior por meio de gestos (abraçar, dar presente, se vestir bem, arrumar a mesa para uma festa). E a Sagrada Liturgia é perfeitamente compatível com a natureza e as necessidades do ser humano.
É preciso haver um equilíbrio no sentido de que a disposição interna é expressa pelos gestos externos, e os gestos externos, por sua vez, reforçam a disposição interna. É um círculo vicioso.
Os gestos externos sem a disposição interior são um erro (farisaísmo); a disposição interior sem a atenção aos gestos externos também é um erro, pois se contrapõe à elementos fundamentais da Sagrada Liturgia (afinal, somos alma e corpo, não somos o `Gasparzinho`).

Por exemplo: como vamos convencer o mundo que Nosso Senhor Jesus Cristo está verdadeiramente presente no Santíssimo Sacramento, se tratarmos a Hóstia Consagrada como um alimento qualquer?

É preciso frizar aqui a importância do vestir-se com solenidade na Sagrada Liturgia. O Catecismo da Igreja Católica (n. 1387) afirma, sobre o momento da Sagrada Comunhão: `A atitude corporal – gestos, roupa – há de se traduzir o respeito, a solenidade, a alegria deste momento em que Cristo se torna nosso hóspede.`

É preciso evitar, então, primeiramente as roupas que expõe o corpo de forma escandalosa, como decotes profundos, shorts curtos ou blusas que mostrem a barriga. Mas convém que se evite também tudo o que contraria, como afirma o Catecismo, a alegria, a solenidade e o respeito – isto é, banaliza o momento sagrado.

O bom senso nos mostra, por exemplo, que partindo d princípio da solenidade, é melhor que se use uma calça do que uma bermuda. Ora, na nossa cultura, não se vai a um encontro social solene usando uma bermuda!

O bom senso nos mostra também que, partido do princípio do respeito e da não-banalização do sagrado, é melhor que se evite roupas que chamam atenção para o corpo ou para elementos não relacionados com a Sagrada Liturgia. É melhor que uma mulher, por exemplo, utilize uma blusa com mangas do que um blusa de alcinha; é melhor que utilize uma calça discreta, saia ou vestido do que uma calça `mulher-gato` (isto é, apertadíssima); também é melhor que se utilize, por exemplo, uma camisa ou camiseta discreta do que uma camiseta do Internacional ou do Grêmio.
São Josemaria Escrivá, em um de suas fantásticas homilias, recorda seus tempos de infância, dizendo: ``Lembro-me de como as pessoas se preparavam para comungar: havia esmero em arrumar bem a alma e o corpo. As melhores roupas, o cabelo bem penteado, o corpo fisicamente limpo, talvez até com um pouco de perfume. Eram delicadezas próprias de gente enamorada, de almas finas e retas, que sabiam pagar Amor com amor.` Afirma ainda: `Quando na terra se recebem pessoas investidas em autoridade, preparam-se luzes, música e vestes de gala. Para hospedarmos Cristo na nossa alma, de que maneira não devemos preparar-nos?` (`Homilias sobre a Eucaristia`, Ed. Quadrante)

Vivemos em uma sociedade de imagens, e uma imagem fala mais do que mil palavras...

Mito 30: `A Missa Tridentina é antiquada`

Não é.

A Missa Tridentina é o Rito Romano celebrado na sua forma tradicional, promulgada pelo Papa São Pio V no Concílio de Trento. As diferenças entre a Missa Tridentina e a forma do Rito Romano aprovada pelo Papa Paulo VI NÃO são somente a posição do sacerdote e a língua litúrgica (pois como foi dito acima, também na forma moderna do Rito Romano é lícito celebrar em latim e com o sacerdote e povo voltados na mesma direção). As diferenças vão além: dizem respeito principalmente ao conjunto de ações do sacerdote, dos demais ministros e do povo que participa, bem como às orações previstas no Rito.

Com o Motu Próprio Summorum Pontificum, publicado em 2007, o Santo Padre demonstrou que essas duas formas do Rito Romano não são apenas duas formas válidas e lícitas, mas também duas formas autenticamente católicas de celebrar, e por isso mesmo, não há contradição entre elas. Escreveu o Santo Padre: `Estas duas expressões da lei da oração (lex orandi) da Igreja de maneira nenhuma levam a uma divisão na lei da oração (lex orandi ) da Igreja, pois são dois usos do único Rito Romano.` (Summorum Pontificum) E ainda: `As duas Formas do uso do Rito Romano podem enriquecer-se mutuamente (...) Não existe qualquer contradição entre uma edição e outra do Missale Romanum.` (Carta aos Bispos, que acompanhou o Motu Próprio)
O Santo Padre ainda fez questão de mostrar que a Missa Tridentina NÃO se contrapõe ao Concílio Vaticano II: ``Há o temor de que seja aqui afectada a autoridade do Concílio Vaticano II e que uma das suas decisões essenciais – a reforma litúrgica – seja posta em dúvida. Tal receio não tem fundamento.` (Carta aos Bispos)

O Cardeal Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, já havia escrito (em `O Sal da Terra): `A meu ver, devia-se se deixar seguir o rito antigo com muito mais generosidade àqueles que o desejam. Não se compreende o que nele possa ser perigoso ou inaceitável. Uma comunidade põe-se em xeque quando declara como estritamente proibido o que até então tinha tido como o mais sagrado e elevado, e quando considera, por assim dizer, impróprio o desejo desse elemento. Pois em que se poderá acreditar ainda do que ela diz? Não voltará a proibir amanhã o que hoje prescreve? (...) Infelizmente, entre nós, a tolerância de experiências aventureiras é quase ilimitada; contudo, a tolerância a liturgia antiga é praticamente inexistente. Desse modo, está-se certamente no caminho errado.`

Mito 31: `Para celebrar a Missa Tridentina é preciso autorização do Bispo local`

Não precisa, nem o Bispo local pode exigir isso.

Com o Motu Próprio Summorum Pontificum, o Santo Padre Bento XVI liberou universalmente a celebração da Missa Tridentina (antes, ela estava restrita à autorização dos bispos locais).

Mito 32: `Ir à Missa dominical não é obrigação`

É moralmente obrigado aos católicos participarem da Santa Missa Dominical, sim.
Muitos relativizam isso falando coisas como `não se visita um amigo por obrigação, mas por amor`.

Evidentemente, Deus é Aquele que nos amou primeiro, precisa ser nosso melhor amigo e é digno de todo nosso amor e de todo nossa adoração. Porém, não estamos falando aqui de um `amiguinho qualquer`, mas de Deus!

E é Justo que se obedeça as Suas Leis, que inclui a Lei da Santa Igreja, como foi explicado acima. Estamos moralmente obrigado a isso. Isso é dar a Deus o que é de Deus (Mateus 22, 21).

Diz o Catecismo: `O Mandamento da Igreja determina e especifica a Lei do Senhor. Aos Domingos e nos outros dias de festa preceito, os fiéis tem a obrigação de participar da Missa. Satisfaz ao preceito de participar da Missa quem assista à Missa celebrada segundo o rito católico no próprio dia ou na tarde do dia anterior.` (n. 2180) A participação na Santa Missa no Sábado à tarde, portanto, cumpre o preceito dominical.

Além disso, devem ser guardados como dia de festa de preceito o `dia do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo, da Epifania, da Ascensão e do Santíssimo Corpo e Sangue de risto, de Santa Maria, Mãe de Deus, de sua Imaculada Conceição e Assunção, de São José, dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo e, por fim, de Todos os santos.` (n 2177). Os fiéis católicos tem, portanto, obrigação de participar da Santa Missa também nos dias de cada uma dessas festas ou nas tardes dos dias anteriores à cada uma delas.

No Brasil, para facilitar o cumprimento do preceito, várias destas festas são transferidas para o Domingo, por determinação da CNBB com a aprovação da Santa Sé. As únicas que permaneceram no calendário litúrgico além dos Domingo são: Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo (25 de dezembro), Santa Maria, Mãe de Deus (01 de Janeiro), Corpus Christi (data móvel) e Imaculada Conceição da Virgem Maria (08 de Dezembro) - ver comentário do Pe. Jesús Hortal sobre o cânon 1246, no Código de Direito Canônico editado pela Loyola.

Ainda em relação à participação da Santa Missa nos dias de preceito, o Catecismo deixa claro: `Os fiéis são obrigados a participar da Eucaristia nos dias de preceito, a não ser por motivos muito sérios (por exemplo, uma doença, cuidado com bebês) ou se forem dispensados pelo próprio pastor. Aqueles que deliberadamente faltam a esta obrigação cometem pecado mortal.` (n. 2181) O cânon 1245 afirma que o pároco pode conceder ao fiel, por razão justa, a dispensa da obrigação de guardar uma festa de preceito.

Importa dar a Deus o que é de Deus (Mateus 22, 21).

`Amor com amor se paga`, diz São João da Cruz, doutor da Santa Igreja.

Persevera no amor quem vive os mandamentos de Deus (Jo 15,10).

Retirado do site: http://www.salvemaliturgia.com

O Canto na Missa 

“a) Entende-se por Música Sacra aquela que, criada para o culto divino, possui as qualidades de santidade e de perfeição de forma.

b) Com o nome de Música Sacra designam-se aqui: o canto gregoriano, a polifonia sagrada antiga e moderna nos seus vários géneros, a música sagrada para órgão e outros instrumentos admitidos e o canto popular, litúrgico e religioso.”[1]


Na tradição litúrgica do rito romano, a Missa pode ser rezada ou cantada.


Pelas normas antigas, vigentes hoje extraordinariamente para quem celebra a Missa no rito romano tradicional, a Missa rezada não poderia ter parte alguma cantada, embora pudesse ser acompanhada de cantos em alguns momentos. E a Missa cantada, em sentido amplo, chamada de Missa alta, poderia ser a Missa cantata (Missa cantada, em sentido estrito) e a Missa sollemnis.


Com a reforma litúrgica, as disposições se tornaram mais flexíveis. Continua a existir a Missa cantada e também a Missa solene. Todavia, esta última, solene, não é mais obrigatoriamente cantada, podendo ser rezada. E também a Missa rezada pode ter não apenas cantos, como igualmente trechos do Ordinário ou do Próprio cantados.


Na prática, então, o que é a Missa cantada e a Missa rezada?


A Missa cantada é aquela em que todas as partes audíveis do Ordinário e do Próprio são cantadas. Do primeiro sinal-da-cruz até a o “Ide em paz”, tudo é cantado pelo sacerdote e pelo povo.


Todavia, há quatro exceções. É possível que, ainda que seja Missa cantada, a parte da Oração Eucarística que vai desde após o “Santo, santo, santo” até, exclusive, a Doxologia, seja rezada. Isso porque, pela tradição litúrgica ocidental, o Cânon era recitado em vox secreta, e, pois, embora a atual IGMR mande que se a diga em vox clara, pode-se manter o costume de não cantar para preservar a sobriedade do momento e, de certa forma, perpetuar o tom mais silencioso que sempre marcou a Consagração no rito romano. Além disso, as partituras para a Oração Eucarística são de recente criação. A outra exceção é quanto ao Confiteor, que, se for usado, não é ordinariamente cantado[2], dado que não há partitura para ele no Missal, e, mesmo na tradição anterior, como constava das chamadas “Orações ao Pé do Altar”, era rezado, não cantado, pelo sacerdote e o acólito. Uma terceira é a possibilidade de fazer a monição da Oração Universal, suas preces e sua conclusão de modo rezado, com apenas o responsório cantado. Enfim, as leituras podem ser ditas, mormente se forem feitas em vernáculo. Missa cantada, então, é aquela toda cantada em suas partes audíveis, ou a que é toda cantada menos essas partes da Oração Eucarística, do Confiteor e as leituras.


A definição de Missa rezada encontramos por ser o antônimo de cantada. Toda Missa que não é cantada, é rezada. Ou seja, a Missa rezada é a Missa baixa, a Missa em que o sacerdote não canta o Ordinário e o Próprio, ou que canta somente algumas partes deles. A Missa exclusivamente rezada e a Missa com partes cantadas e partes rezadas são, pois, Missas rezadas. Essa Missa rezada, além de poder ter partes cantadas, pode ser acompanhada de cantos nos momentos oportunos.


Assim, o seguinte esquema poderia ser apresentado para melhor compreensão da matéria:


1. Missa cantada:

2. Missa rezada:

a) Missa em que todas as partes audíveis do Próprio e do Ordinário são cantadas;

b) Missa em que todas as partes audíveis do Próprio e do Ordinário são cantadas, exceto o trecho mais importante da Oração Eucarística e/ou o Confiteor, e/ou trechos da Oração Universal, e/ou as leituras.

a) Missa exclusivamente rezada;

b) Missa exclusivamente rezada, mas acompanhada de cantos;

c) Missa com trechos rezados e outros trechos cantados, acompanhada ou não de cantos.

Tabela 1 - Distinção entre Missa cantada e Missa rezada


Canto gregoriano


O canto gregoriano é sempre em latim. Podem-se fazer traduções do latim para o vernáculo, mantendo as mesmas melodias, mas aí já não será gregoriano, e sim uma música inspirada no mesmo.


Geralmente, essas melodias vernaculares são as oficialmente dispostas nos Missais das línguas vulgares. No Brasil, temos essas melodias como apêndice no Missal Romano em português, a partir daquelas preparadas, nos anos 70, quando da tradução do Missale Romanum ao idioma de Camões, pelos padres Fr. Alberto Beckhäuser, OFM, e Fr. José Luiz Prim, OFM.


Além do canto gregoriano, pode-se ter na Missa e demais ações litúrgicas o canto polifônico (polifonia sacra) e, segundo as normas, canto sacro popular. O canto gregoriano é vocal ou acompanhado de órgão ou harmônio. Já a polifonia e o canto popular podem ser acompanhados de órgão ou harmônio, mas, com autorização do Ordinário, pode-se usar outro instrumento, desde que sóbrio e adequado ao senso litúrgico.


“Os instrumentos musicais disponíveis em cada região podem ser admitidos no culto divino a juízo e com o consentimento do Bispo Diocesano contanto que sejam adequados ao uso litúrgico ou possam a ele se adaptar, condigam com a dignidade do templo e favoreçam realmente a edificação dos fiéis.”[3]


Implicações práticas


As regras para o uso do canto na Missa variam conforme o seu tipo – rezada ou cantada. Tais regras têm origem quer nas rubricas do rito, quer na análise do Missal e suas partituras, quer nas instruções do Gradual, quer ainda na própria natureza das coisas e, principalmente, nos costumes da liturgia romana.


Antes de tudo, é bom lembrar que existem diferenças entre cantar na Missa e cantar a Missa. Cantar na Missa é executar uma peça durante um momento adequado, e cantar a Missa é rezar, em forma de música, o exato texto que consta do Missal. O Ordinário pode ser cantado, mas nele não existem, propriamente, momentos para que se executem cantos (exceto para a Ação de Graças). Já o Próprio tem três momentos em que se podem ter cantos: a Entrada, o Ofertório e a Comunhão; nos demais, canta-se o Próprio e não durante o Próprio. Enfim, ao terminar a Missa, pode-se ter um canto também.


É bom expor as demais regras em um esquema prático, segundo o tipo de Missa e as suas partes.


No ORDINÁRIO da MISSA REZADA, pode-se ter canto gregoriano, polifonia sacra, canto popular, e melodias vernáculas eventualmente dispostas no Missal e inspiradas no gregoriano, no Pai Nosso e nas cerimônias que compõem o Kyriale, quais sejam o Kyrie, o Gloria, o Sanctus e o Agnus Dei, além do Credo. Para as demais partes do Ordinário, usam-se as melodias tradicionalmente dispostas no Missal para utilização na Missa em vernáculo, todas com estrutura gregoriana, ou o próprio gregoriano do Missal em latim. Na Ação de Graças, se for usado um canto, pode ser tanto gregoriano, como polifonia e popular. O mesmo para um eventual hino após a Missa.


Ainda na MISSA REZADA, em seu PRÓPRIO, usam-se as melodias tradicionais do Missal, com estrutura musical gregoriana vertidas para o vernáculo, ou, então, o legítimo gregoriano do Missal latino, nas coletas (Coleta propriamente dita, Oração sobre as Oferendas, Oração após a Comunhão) e no Prefácio – mesmo melodia do gregoriano, em latim, só que na língua vulgar. Já as antífonas (Intróito, Ofertório e Comunhão) podem ser tanto as gregorianas (especialmente as previstas pelo Gradual para aquele dia, mas, por razões pastorais, podendo ser outras), como as polifônicas (com a letra do Missal, do Gradual ou ainda uma outra, distinta), e também cantos populares (igualmente, seja com a letra do Missal ou do Gradual, ou uma outra letra, porém adequada ao momento e aprovada pela conferência episcopal[4]). Enfim, as Leituras, incluindo o Evangelho, podem ser cantadas em latim, com canto gregoriano, ou em vernáculo segundo a mesma melodia; e o Salmo Responsorial e a Aclamação, além dessas duas opções, também podem ser feitos com polifonia ou canto popular – se for usado o gregoriano, a letra para esses dois é a do Gradual, ordinariamente, podendo ser outra por razões pastorais.


Por sua vez, o ORDINÁRIO da MISSA CANTADA deve, no Pai Nosso e no Kyriale, ser todo em gregoriano ou em polifonia, ou ainda em uma melodia eventualmente proposta pelo Missal em vernáculo como tradução do original latino em gregoriano, mas não o canto popular. As demais partes seguem essa mesma melodia do Missal, inspirada no gregoriano e vertidas para o idioma vulgar, ou então o próprio gregoriano original (mesma melodia, só que em latim). A Ação de Graças e o hino após a Missa podem consistir em um canto gregoriano, em uma peça polifônica ou em um canto popular adequado ao momento.


O PRÓPRIO da MISSA CANTADA pede, para as coletas e o Prefácio, o gregoriano (em latim) ou a melodia nele inspirada e disposta no Missal (em vernáculo). As antífonas podem ser cantadas em gregoriano, em polifonia sacra, ou acompanhados os momentos em que elas se inserem por cantos populares, preferencialmente com a letra do Missal ou do Gradual, e, se com outra letra (outro canto, portanto), aprovados pela conferência episcopal[5]. As Leituras – com o Evangelho – podem ser ditas, mesmo na Missa cantada, e também feitas em vernáculo, ainda na celebração em latim. Todavia, se forem cantadas, usa-se, em latim, a melodia tradicional gregoriana, ou, em vernáculo, a música nele inspirada e que consta do Missal. Já o Salmo Responsorial e a Aclamação ao Evangelho são sempre cantados, com o gregoriano do Gradual (quer as músicas dispostas para o dia, quer, por razões pastorais, alguma outra), com a melodia inspirada no gregoriano em vernáculo (e letra baseada no Gradual ou no Missal), ou com alguma peça polifônica com a letra também do Gradual ou do Missal.


As músicas somente instrumentais são permitidas, quer na Missa rezada quer na cantada, somente na Procissão de Entrada (até o sacerdote chegar ao altar, pois depois se seguem as regras acima expostas), no Ofertório, na Comunhão e no fim da Missa. Principalmente na Missa cantada, convém que sejam tais peças seja executadas pelo órgão.


Diz a IGMR:


“Ainda que não seja necessário cantar sempre todos os textos de per si destinados ao canto, por exemplo nas Missas dos dias de semana, deve-se zelar para que não falte o canto dos ministros e do povo nas celebrações dos domingos e festas de preceito.”[6]


Destarte, é preciso cuidar para que se promova, de tal forma, o autêntico canto litúrgico, que, em todas as igrejas e oratórios, nos Domingos e dias de guarda, haja, no mínimo, a Missa rezada acompanhada de cantos. De preferência, que se façam pelo menos algumas delas não só com cantos, mas verdadeiramente com trechos cantos quer do Ordinário, quer do Próprio. Enfim, é bastante salutar que, pelo menos nas catedrais e grandes igrejas – notadamente as paroquiais –, tenha-se a Missa cantada, além da rezada. Um bom cronograma de celebrações litúrgicas em uma paróquia média contemplaria Missas rezadas durante a semana (com ou sem cantos, com ou sem trechos cantados), e, nos Domingos e dias de guarda, uma Missa cantada, e outras Missas rezadas acompanhadas de cantos (e, melhor ainda, com trechos cantados). Algumas delas, preferencialmente as Missas cantadas, poderiam ser em latim, ou se poderia utilizá-lo para as partes eventualmente cantadas do Ordinário (o conjunto do Kyriale, por exemplo) e do Próprio (o Prefácio, as Antífonas, ou, então, as orações).




[1] Sagrada Congregação dos Ritos e Conselho para a Aplicação da Constituição sobre a Sagrada Liturgia, Instrução Musicam Sacram, 4

[2] Embora possa ser cantado, mas, por não ter pauta própria, no chamado “reto tom”, como indicava o Liber Usualis para o Ofício Divino anterior à reforma de Paulo VI. Também é possível utilizar a partitura daquele Confiteor cantado na Missa Pontifical, após a homilia do Bispo, quando ele confere sua indulgência.

[3] CNBB. Documento 43 – Animação da Vida Litúrgica no Brasil, 210

[4] Essa aprovação, no Brasil, é indireta e tácita, pela edição quer do Hinário Litúrgico da CNBB, quanto de outros livros de cantos nas diferentes Dioceses. Entretanto, a Santa Sé tem pedido que a as conferências aprovem de modo expresso os cantos que tomam o lugar das antífonas, aprovação essa que precisará, posteriormente, da confirmação romana.

[5] cf. nota anterior.

[6] IGMR, 40


Pentecostes

Dom Paulo Mendes Peixoto

 

Esta palavra está ligada ao número cinquenta. São cinquenta dias transcorridos após o domingo da Ressurreição, domingo da Páscoa, quando Cristo, após morrer na cruz e ser sepultado, apareceu vivo para os seus discípulos. Foi um acontecimento inédito e misterioso para todos eles.

Pentecostes é um fato antigo e novo ao mesmo tempo. Ele é marcado por realidades que envolvem situações de mistério. A vinda do Espírito Santo transforma a vida das pessoas e atinge a maneira de ser das comunidades cristãs. Desperta atitudes de compromisso e testemunho na convivência social.

É festa da unidade porque faz superar divisões de raça e línguas no meio da diversidade dos dons. Faz as pessoas se colocarem a serviço umas das outras e edificar a comunidade. Com isto elas superam e ultrapassam seus limites simplesmente humanos.

Nem sempre nos damos conta dos carismas que nos acompanham. Se bem utilizados, muitos bens podem acontecer no meio das pessoas. São iniciativas naturais desenvolvidas por cada indivíduo, enriquecendo e fortificando o bem comum.

A presença do Espírito Santo é como um laço forte que nos une e transforma o mundo em ambiente de convivência e de realizações que elevam a vida e o coração das pessoas na comunidade cristã. Cria ânimo e dinamismo social.

Pentecostes é festa do perdão, da mútua solidariedade e de força decisiva na construção da comunidade Igreja. Desperta o calor da fé e da comunhão eclesial. Desinstala todos aqueles que vivem acomodados e abafando todas as suas qualidades e dons naturais.

Na cultura midiática, na era digital, a Igreja precisa ter a linguagem da justiça e do amor. Como diz Bento XVI, a linguagem da verdade. Ter em conta também a diversidade de possibilidades encontrada hoje nas diversas culturas e povos.

O que vemos, nos novos tempos, encanta a todos nós. As possibilidades para a defesa da vida e de uma sociedade mais saudável estão muito patentes nos instrumentos de comunicação e nos organismos em geral. É necessário é que sejam bem usados na conquista do bem.

fonte: cnbb.org.br

 

Nova evangelização: Não é a primeira vez

Card. Odilo P. Scherer- Arcebispo de São Paulo - SP

Na semana passada participei, em Roma, da 1ª. reunião plenária do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização. Presidem o Organismo os Arcebispos Rino Fisichella (Presidente) e Robles Arenas (Secretário); ao todo, os membros são 20, entre cardeais e bispos de várias partes do mundo e membros da Cúria Romana.

Os participantes da reunião foram recebidos em audiência pelo Papa Bento XVI, que renovou sua preocupação, de longa data, com a crise da vida cristã, sobretudo nos lugares de antiga tradição cristã, como a própria Europa, e com a necessidade de anunciar o Evangelho de forma renovada ao homem do nosso tempo; a crise pode se manifestar com traços de exclusão de Deus da vida das pessoas, ou de uma generalizada indiferença em relação à própria fé cristã, ou ainda como tentativa de excluir completamente da vida pública qualquer referência à fé e aos valores cristãos.

Se, num passado recente, havia certo consenso em torno de valores culturais compartilhados, de fundo cristão, nota-se hoje uma fragmentação muito grande dos referenciais religiosos, morais e mesmo antropológicos e cada um é levado a ter em si próprio, nos seus desejos, paixões, sentimentos ou instintos, o único referencial para tudo; disso também decorre a progressiva dissolução das bases do convívio social, da educação e da cultura. Falta a base unificante, que era oferecida pela religião e, no Ocidente, de maneira especial, pelo Cristianismo.

O Papa reconheceu que as consequências deste tipo de secularização tornam, por vezes, especialmente difícil anunciar Jesus Cristo ao mundo de hoje. No entanto, a missão não mudou, nem também a nossa tarefa; a Igreja não pode deixar de corresponder plenamente ao mandato recebido de Cristo – de anunciar o Evangelho a todos os povos, sempre e por toda parte. O início da pregação do Evangelho não foi fácil mas, com a graça do Espírito Santo, o anúncio penetrou as culturas e as transformou.

Na História bimilenar da Igreja já houve outros momentos em que a vida cristã passou por crises, por diversos fatores, e foi preciso fazer algo semelhante ao que a Igreja se propõe realizar hoje. Nos séculos 7º e 8º, foi necessário que o Papa chamasse missionários da Irlanda e da Inglaterra, sobretudo monges, para evangelizar novamente a Europa continental; a partir do século 13, na Idade Média, algo semelhante aconteceu com as tentativas de “reforma” da Igreja e o surgimento das Ordens Mendicantes, especialmente Dominicanos e Franciscanos, que iniciaram um fecundo movimento de missões populares.

Não foi diferente depois do Concílio de Trento, no século 16, quando um grande esforço de renovação da Igreja deu origem a uma renovação dinâmica, com o surgimento de novas Ordens e Institutos missionários, a reforma dos seminários e da formação do clero, dos religiosos e dos leigos. E ainda, no século 19, após a grave crise desencadeada pelo Iluminismo e o Modernismo, mas também pelas mudanças sociais e políticas da época, o Espírito Santo suscitou mais uma vez no seio da Igreja uma imensa “onda missionária”, com diversos desdobramentos para a renovação da vida cristã.

Vivemos no período pós-conciliar, do Vaticano II, cuja convocação está para completar 50 anos; o próprio Concílio já foi realizado sob o impulso de um “espírito de renovação”, para que a Igreja pudesse cumprir sua missão de maneira mais adequada às circunstâncias atuais. Sempre se disse que foi um Concílio “pastoral”; talvez possamos reler hoje suas intenções e documentos sob uma nova ótica: um Concílio “missionário”, voltado a propor o bem da fé de forma renovada para o mundo. Talvez ainda ficamos demasiadamente voltados para dentro da Igreja na interpretação dos textos conciliares, enquanto sua intenção era falar mais e melhor ao mundo e com o mundo sobre a Boa Nova. Muito leva a crer que estamos caminhando para isso!

A Igreja existe para a missão e a graça da missão requer sempre evangelizadores novos, como afirmou o Papa Bento 16. As grandes intuições do Concílio Vaticano II, longe de estarem esgotadas, precisam ser retomadas e, agora com mais serenidade, postas a produzir todo o seu fruto. De fato, nesses 50 anos de pós-Concílio, já se podem constatar muitos frutos por ele produzidos; agora estamos em condições de perceber ainda melhor onde e como a renovação da vida cristã e eclesial deve acontecer, e como fazer frutificar cada uma das grandes intuições do Concílio, de forma missionária, como já vem acontecendo. Deus nos ajude! Os santos evangelizadores nos inspirem!

Publicado em O SÃO PAULO, ed. de 07.06.2011

fonte: cnbb.org.br


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